>

Se fosse daquelas ladainhas de mau gosto que nos pedem para reencaminhar que aqui vos acabasse por deixar que diriam?
Daquelas cheias de slides com senhoras de bom coração?
Diriam, bolas … as mulheres são assim: sãs, lutadoras, belas, sábias, compreensivas, boas esposas e mães e ainda lhes sobra vagar?

Mesmo quem não gosta de ladainhas, como é o meu caso, encolheria os ombros … ou, quem sabe, em dia de menor inspiração, quase se sentisse tentada a mandar a alguém, apenas como forma de dizer «olá, estou aqui».

E que tal uma ladainha deste tipo «Que faz uma mulher em trinta dias»?:

– Vai trabalhar ao mesmo tempo que paga as contas, somando um a um o Euro do subsídio de férias que recebeu?
– Não se esquece que há o empréstimo da casa que não pode ficar sem saldar?
– Lembra-se que é o mês da inspecção e que tem que ir à revisão do carro com gastos acrescidos para pagar?
– Visita o namorado, o amor, o amante, mesmo sabendo que coisa fácil poderá não ser, pois exige árdua preparação?
– Acaba o artigo que tem para acabar, ainda antes de o ir visitar, como se fora o prémio dos céus que a si própria se dá, e inventa tempo para pensar como se vestirá, porque um acontecimento de tal natureza merece fatos de ocasião?
– Presta as provas que tinha para fazer e trata dos sacos de filhos que havia que preparar?
– Relembra a nova escola que há que decidir e vai às reuniões, assumindo-se como encarregado de educação?
– Mantém os escritos em dia, as cartas respondidas e as amigas e amigos com os mimos devidos a quem lhes quer bem?
– Sorri, mas não em demasia, porque chorar, nem pensar: é assunto praticado debaixo da almofada, porque com crianças, dizem, há que o evitar?
– Guarda saldo no telemóvel para não faltar para os cumprimentos de mãe ou para algum trabalho que ficou, sem querer, por acabar?
– Segreda aquilo que gostaria de mostrar, e mostra o que não acharia importante mostrar?
– Pensa no mar como sossego e a partir dele histórias ainda consegue tecer?

Faz tudo isso e muito mais do que está nesta “ladainha”, apenas uma daquelas que pode ser reencaminhada, porque das mulheres tudo se espera, menos que vá alucinar; nem ser inteligente de mais, porque pode parecer “iluminada” e isso cai mal; não refilar nem ser acertiva em demasia, pois incomoda qualquer um, e, principalmente, a elas se exige que tudo guardem no mais íntimo do seu ser, porque há coisas de que “não se pode falar”, que não se podem dizer, muito menos sem ser no recato e intimidade do lar.

Que achariam leitores?

Mas não, não é uma ladainha que vos quero deixar, porque delas me destaco veementemente e estamos todos fartos, mas um Manisfesto ou Grito feminista:

1 – Descarreguem o fardo, porque quem pariu certamente não concebeu só, e ser mãe é uma alegria e não apenas uma “obrigação”;

2 – Façam apenas os deveres que vos cabem, mas com toda a convicção;
3 – Amem e desejem, sim, e sem vergonha, desde que seja por vossa livre vontade e convicção e quem com isso se atrapalhar é porque não vos soube querer ou mesmo entender;
4 – Calem apenas o que não vos aprouver falar;
5 – Não se preocupem em agradar, senão porque vos faz bem;

6 – Gritem ou chorem, pois faz parte de viver;
7 – Não temam a inteligência, mas antes cerrem fileiras à arrogância e à estupidez;

8 – Lutem por tudo que vos assume como livres e iguais;

9 – Inventem histórias, também, porque isso faz sonhar.

E vão ver o mar, levando o MP4 com a gravação da Joana Bagulho, quando o cansaço vos visitar … porque a vida é só uma e há que a pegar bem nas mãos!

Publicado por: Filomena Barata | Outubro 3, 2012

Álvaro Silva, Quero voltar …

Meus amigos. Pensei , escrevi, e assim saiu, espontâneo , sem prumos nem arrumos e aqui convosco partilho. Aos amigos a vénia pela complacência, aos críticos , minha mão a palmatória.

QUERO VOLTAR…

Quero voltar

e olhar nos olhos do meu amor
para desse olhar
saciar avontade abafada pela distânciaQuero voltar
para sentir o calor do teu afago

Quero voltar
para nos teus braços
saciar com o calor
do teu corpo
esta vontade de te ter
esta vontade de te sentir minha

Quero voltar
para no cálido hálito
dos teus beijos
encontrar o alento
para esta vida que se esfuma.

Quero voltar
“para ter-te, novamente
nos braços meus
e morrer crucificado
na cruz ardente dos braços teus”.

Quero voltar,
porque sem ti minha existência
é sombra nesta penumbra
do meu viver.

Quero voltar
para voltar a ter
a luz dos teus olhos
nos olhos meus,
e nos abraços e carinhos
dos afagos teus
encontrar o sossego
para minha atribulada alma.

Quero voltar
para o aconchego do meu lar
e na intimidade
saciar a sede
de vos ter
ter-te a ti
ter o amor e o carinho
dos filhos meus.

Luanda, Maculusso,02 de Outubro de 2012

 

Publicado por: Filomena Barata | Setembro 29, 2012

Músicos de Angola, Manuela Freitas

Yuri da Cunha

 

Abel Duere

Ady Cudz

Ady Lima

Agrupamento Fapla Povo

Aldo Milá

Áfricanita

África Show

África Tentação

Águias Reais

Alliace Makiadi

Altamiro Rodrigues

Ananias Muanha

Ana Maria de Mascarenhas

André Mingas

As Gingas

Anselmo Ralph

António do Fumo

António dos Santos

António Paulino

António Sobrinho

Ary

Artur Adriano

Ases do Prenda

Augusto Adriano

Augusto Dikongo

Banda Maravilha

Bangão

Bantu Thabasica

Barros de Landana

Belita Palma

Belito Campos

Belito Ramos

Beto Gourgel

Big Nelo

Bonga

Brás Firmino

Bruna Tatiana

Cabinda Ritmos

C4

Calo Pascoal

Campos Neto

Cândido Ananás

Canicia

Carlito

Carlitos Vieira Dias

Carlos Baptista

Carlos Burity

Carlos Lamartine

Célsio Mambo

Chalo Correia

Chico Joaquim

Chico Montenegro

Chissica Artz

Cisco

Clara Monteiro

David Zé

Daniel Nascimento

Délcio Dercy

Dimba d’Angola

Dina Santos

Dionísio Rocha

Dog Murras

Dom Caetano

Dom Kikas

Dr Pam

Duia

Duo Ngola

Duo Ouro Negro

Eddy Tussa

Edmazia

Eduardo Nascimento

Eduardo Paim

Elão

Eleutério Sanches

Elias diá Kimuezo

Estrela dos Dembos

Ésio

Euclides da Lomba

Fé-Fé

Filipe Mukenga

Filipe Zau

Gabi Monteiro

Gabriel Tchiema

Gaby Moy

Galeano Neto

Gambuzinos

Gildo Costa Conjunto Musical Dikanzas do Prenda

Givago

Gizela Silva

Gutto

Heavy C

Ilda Rosa

Irmãos Almeida

Irmãos Kafala

Irmãos Verdade

Jacinto Tchipa

João Pequeno

Jorgemont

José António Cândido

José Massano Júnior

Jovens do Prenda

Kalibrados

Ket Hagaha

Kiary Beirão

Kibonga dos Santos

Kissas

Kito

Kizua Gourgel

Konde

Kristo

Kussondulola

Ladislau Wilson

Lancerdo

Legalize

“Liceu” Vieira Dias

Lilly Tchiumba

Luanda Show

Lucas de Brito “Maya Cool”

Luís Maria

Luís Visconde

Lurdes Van Dunem

Waldemar Bastos

Waler& Nicila Ananaz

Wiza

Mamborró

Mamukuendo

Manuel Faria

Manuel L. Cardoso

Man Ré

Margareth do Rosário

Marimbeiros do Duque de Bragança

Mário Gama

Mário Rui Silva

Mário Silva

Matias Damásio

Maya Crase

Minguito

Mister Nino

Muhona

Nagrelha – Caio Mannuel Mendes

Nando Quental

Nany

Nanuto

Narrador Kanhanga

Nelo Paím

Nina Alexandre

Ngola Ritmos

Ngoma Jazz e Super Coba de Cabinda

Noite e Dia

Os Bongos

Os Cinzas

Os Corvos

Os Kiezos

Os Lambas

Os Tungila Tua Jokota

Os Versáteis

Yola Araújo

Yola Semedo

Papetchulo

Patrícia Faria

Patrícia Silva

Paulino Pinheiro

Paulo Bruno Luemba

Paulo Flores

Paul G

Paulo Matomina

Pedrito

Pérola

Prado Paim

1º de Maio

Prince Wadada

Proletátio FT

Própria Lixa

Puto Português

Quim dos Santos

Rapper – Ikonoklasta

Ricardo Lemvo

Roberto Requião

Ruca Angola

Ruca-Van-Dunem

Rui Mingas

Samuel Mangwana

Sandra Cordeiro

Santocas

Sassa Tchioco

Semba Master

Semba Tropical

Sweet Mary

Socorro

Sofia Rosa

Taborda Guedes

Tchinina

Teta Lando

Titica

Tony do Fumo

Toya Alexandra

Toto

Urbano de Castro

Virgílio Fire

Vum-Vum

Yuri da Cunha

Zé do Pau

Zecax

Zona 5

 

 

Publicado por: Filomena Barata | Setembro 26, 2012

LAGO MALAWI, Isa Pontes

 

  1. LAGO MALAWI

    Margarida

    Cheguei!

    Quase me sinto Kapuscinski nas minhas andanças…
    Estamos em Mangochi, mesmo à beirinha do Lago Malawi. Nem sei se terei palavras para fazer justiça à beleza que me envolve. Cada vez me convenço mais que Deus anda comigo ao colo, por estes dias.
    Gostava de te ter aqui mas o facto de andares a descobrir outros lugares e outras gentes, atenua a minha pena. Assim, quando regressares a Lisboa, vais encontrar esta carta à tua espera. Já sei que irás lançar um berro de raiva e arrependimento por não teres vindo connosco. Deixa lá… Quem sabe … para o ano…
    Ontem chegámos pela tardinha e não houve tempo para mais; foi arrumar bagagens e tratar dos mosquiteiros bem à volta das camas, por causa das tais “queridas castanhudas “ que eu vejo andarem por aí e que, mesmo sem as ver, adivinho-as pelo cheiro nauseabundo que deixam ao passar. Adormeci, embalada pelo violino de Korngold que gravei no meu MP3 (valham-me estas minhas santas inspirações) e acordei para o mundo eram 5 horas da manhã. Não rias, aqui é assim, por essa hora é dia cheio ou a começar, conforme o local.
    Saí da casinha do Resort e passando por entre ervas e pedrinhas soltas, sob palmeiras elegantes que me pareciam sequóias, lá fui caminhando como quem vai à descoberta de um tesouro; meus olhos pareciam-me vidrados de espanto e a minha boca soltava pequenos sons parecidos com orações. África Margarida, África!! Como dizer, como transmitir tanto encanto? O Lago estava ali, à minha frente: o Lago Malawi, o tal que, na outra margem, é Lago Niassa, (como me ensinaram na Escola, quando era obrigatório saber-se de cor os rios, os lagos, as montanhas, as linhas férreas) e eu queria ficar ali, para sempre. Acho que existe naquele lugar um sortilégio, um encantamento.
    Havia, naquela hora em que a aurora matiza as coisas com um manto de transparências cristalinas, uma espécie de névoa silenciosa e flutuante sobre o Lago; o final dele não se via, impossível, ele tem 600 kms de comprimento. Disseram-me que tem peixes azuis e chega a ter ondas de 2 metros de altura. Mas naquele momento estava adormecido, sereno…Parei junto à margem de areia fininha; sentei-me e fiquei ali a olhar e a escutar os mil e um bichinhos que exultavam com a descoberta de um novo dia. Viuvinhas, celestes e pássaros do amor passaram por mim trinando árias de bem-querer; esquilos pequeninos amarinhavam as palmeiras, matreiros e brincalhões e rolas, muitas rolas, começavam as suas cantigas de cortesia. Um sonho! E eu ali, tão pequena, perante a grandiosidade da natureza africana a envolver-me como se fora um manto de mãe protectora, amiga, cúmplice…
    Fiquei ali, enamorada das águas azuis e verdes, deixando o meu olhar navegar sobre aquele manto até à outra margem, bem longe; quedei-me como uma estátua, uma árvore, um tronco e senti-me parte daquele encantamento matinal. Acordei quando os pescadores começaram a chegar, carregando redes sobre as costas musculadas cor de chocolate.
    E é assim Margarida que me perco por este chão sagrado, de onde viemos todos. É assim, mais uma vez, que me encontro. Ao perder-me, encontro-me, compreendes?
    Não é esquisito leres esta carta aí no Bairro de Benfica, ao som de autocarros e businadelas de táxis apressados, num andar de quatro assoalhadas, com uma varanda fechada virada para o cemitério? Minha pobre Margarida…
    Consola-te com o meu abraço e a promessa de que hás-de vir aqui perder-te, também.

    Beijo
    Raquel
    ========================
    D’As Cartas de Raquel

    Isa Pontes

    Foto: LAGO MALAWI

Margarida

Cheguei!
Quase me sinto Kapuscinski nas minhas andanças…
Estamos em Mangochi, mesmo à beirinha do Lago Malawi. Nem sei se terei palavras para fazer justiça à beleza que me envolve. Cada vez me convenço mais que Deus anda comigo ao colo, por estes dias.
Gostava de te ter aqui mas o facto de andares a descobrir outros lugares e outras gentes, atenua a minha pena. Assim, quando regressares a Lisboa, vais encontrar esta carta à tua espera. Já sei que irás lançar um berro de raiva e arrependimento por não teres vindo connosco. Deixa lá… Quem sabe … para o ano…
Ontem chegámos pela tardinha e não houve tempo para mais; foi arrumar bagagens e tratar dos mosquiteiros bem à volta das camas, por causa das tais “queridas castanhudas “ que eu vejo andarem por aí e que, mesmo sem as ver, adivinho-as pelo cheiro nauseabundo que deixam ao passar. Adormeci, embalada pelo violino de Korngold que gravei no meu MP3 (valham-me estas minhas santas inspirações) e acordei para o mundo eram 5 horas da manhã. Não rias, aqui é assim, por essa hora é dia cheio ou a começar, conforme o local.
Saí da casinha do Resort e passando por entre ervas e pedrinhas soltas, sob palmeiras elegantes que me pareciam sequóias, lá fui caminhando como quem vai à descoberta de um tesouro; meus olhos pareciam-me vidrados de espanto e a minha boca soltava pequenos sons parecidos com orações. África Margarida, África!! Como dizer, como transmitir tanto encanto? O Lago estava ali, à minha frente: o Lago Malawi, o tal que, na outra margem, é Lago Niassa, (como me ensinaram na Escola, quando era obrigatório saber-se de cor os rios, os lagos, as montanhas, as linhas férreas) e eu queria ficar ali, para sempre. Acho que existe naquele lugar um sortilégio, um encantamento.
Havia, naquela hora em que a aurora matiza as coisas com um manto de transparências cristalinas, uma espécie de névoa silenciosa e flutuante sobre o Lago; o final dele não se via, impossível, ele tem 600 kms de comprimento. Disseram-me que tem peixes azuis e chega a ter ondas de 2 metros de altura. Mas naquele momento estava adormecido, sereno…Parei junto à margem de areia fininha; sentei-me e fiquei ali a olhar e a escutar os mil e um bichinhos que exultavam com a descoberta de um novo dia. Viuvinhas, celestes e pássaros do amor passaram por mim trinando árias de bem-querer; esquilos pequeninos amarinhavam as palmeiras, matreiros e brincalhões e rolas, muitas rolas, começavam as suas cantigas de cortesia. Um sonho! E eu ali, tão pequena, perante a grandiosidade da natureza africana a envolver-me como se fora um manto de mãe protectora, amiga, cúmplice…
Fiquei ali, enamorada das águas azuis e verdes, deixando o meu olhar navegar sobre aquele manto até à outra margem, bem longe; quedei-me como uma estátua, uma árvore, um tronco e senti-me parte daquele encantamento matinal. Acordei quando os pescadores começaram a chegar, carregando redes sobre as costas musculadas cor de chocolate.
E é assim Margarida que me perco por este chão sagrado, de onde viemos todos. É assim, mais uma vez, que me encontro. Ao perder-me, encontro-me, compreendes?
Não é esquisito leres esta carta aí no Bairro de Benfica, ao som de autocarros e businadelas de táxis apressados, num andar de quatro assoalhadas, com uma varanda fechada virada para o cemitério? Minha pobre Margarida…
Consola-te com o meu abraço e a promessa de que hás-de vir aqui perder-te, também.

Beijo
Raquel
========================
D'As Cartas de Raquel

Isa Pontes
Publicado por: Filomena Barata | Setembro 21, 2012

Álvaro Silva, Bom dia

Bom dia , bom dia, meus amigos, meus amigos de cá e de lá.
Quero convosco partilhar esta espontaneadade da minha alma. E como sempre digo aos amigos a vénia pela complacência, aos críticos minha mão a palmatória.

Perco-me na imensidão de pensamentos. Confundo-me nesta realidade irreal. Meu subconsciente vagueia por caminhos que me fazem ver e sentir as mais estranhas sensações.
Entro no mundo do sonho, viajo feliz pelos caminhos da felicidade sonhada, abraço amigos, companheiros, beijo com ternura minha mulher amada e abraço meus filhos num amplexo de carinho, de amor e de ternura. Nestes instantes minha alma se acalma, meus ais são melodias de amor cantadas aos som do rufar dos tambores nos ritimos quentes de África.

Meu sonho vagueia por sobre as águas do Atlântico e revejo-me naquela longíngua terra Lusitana, terra linda, de gentes que são gente, gente que comigo se irmana pela grandeza do passado histórico e pela tenacidade na luta do dia a dia. Calcorreo em sonhos as vielas alfacinhas do berço do fado, onde a fadista cantou a trindade popular; FADO, MULHERES E VINHO que fazem vibrar a alma portuguesa.
Guitarras trinando, enlevam minha alma e o sabor doce da sangria, em sonho bebida, adoça meu sonho também.
Sinto em sonhos o cheiro das águas dos Tejo, com o da maresia a mistura e o vento frio da madrugada arrasta para bem longe o som das guitarras e da voz dolente do fado e leva o meu sonho para os caminhos do além.

Álvaro Silva.

Luanda 21 de Setembro de 2012

O Tejo. Fotografia Filomena Barata

Publicado por: Filomena Barata | Setembro 20, 2012

Descoberta, Isa Pontes

DESCOBERTA
Meu Amigo
Querido amigo
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Cumprindo uma necessidade urgente, corri para o papel e aqui estou eu, uma vez mais a falar contigo.
Foi necessária toda esta imensidão, toda esta distância, para descobrir que és uma benção na minha vida

Foi necessário um dia, amares-me até ao desespero e eu descobrir em ti New Horizons; deixares-me e partires sem destino…
Foi necessário eu ter escolhido o TUDO na minha vida e nada mais querer…
Foi necessário teres-me despido de ti, esfriares, secares e olhares para as coisas numa apatia total…
Foi necessário voltar a ver-te, sem seres tu, descobrir que os Novos Horizontes só existem aqui, em África, e que aí só há montanhas por escalar…
Foi necessário rasgar-me anos a fio e tu caires nesse abismo sem fim…
Foi necessário amar-te e gritar-te nas minhas noites de insónia…
Foi necessário odiar-te, chingar-te TUPADIOWE, TUPADIOWE, ranger os dentes e esgatanhar-me..
Foi necessário constatar que já não és tu, que és um ser cheio de manias e hábitos esquisitos; que és teimoso e impaciente e, por vezes, agressivo…
Foi necessário todo este mar, este ar febril, esta sinfonia de mil trinados sobre palmeiras e acácias; horas seguidas de chuva quente, faiscas e fortes trovoadas e eu a contar os rasgos na terra barrenta sob os meus pés cansados de tantas estradas, olhando a água que vem e vai não sei pra onde…
Foi necessário olhar-me ao espelho e descobrir a minha pele flácida e coberta de rugas, tocar nos meus cabelos côr de prata que até me ficam bem…
Para descobrir……………………… Que me és necessário, que tens de existir por perto de mim, que és uma benção na minha vida.
Raquel
Imagem
 Sumbe, Angola. Fotografia de Filomena Barata
Publicado por: Filomena Barata | Setembro 19, 2012

Tomás Gavino, José Redinha e a Lunda

  JOSÉ REDINHA

Nasceu José Redinha, ou seja,  José Pedro Duarte Domingues, nasceu em Bemposta, concelho de Alcobaça em 16 de Fevereiro de 1905.

 Etnólogo e antropólogo de nomeada, foi conservador do Museu do Dundo, o qual reunia o espólio fotográfico e etno-antropológico da Diamang. Durante o tempo que lá passou foi coligindo textos sobre os povos da Lunda, sobre as suas origens, culturas, usos e costumes.

Em 1956 escreveu um ensaio intitulado “ETNOSSOCIOLOGIA DO NORDESTE DE ANGOLA”, publicado em 1958 pela Agência-Geral do Ultramar.

Apesar de ser um estudo científico, a sua escrita pode levar longe a nossa imaginação sobre como terá sido o quotidiano dos povos que habitavam a Lunda em tempos mais recuados. Tome-se este pequeno trecho como exemplo:

“Os antigos lugares (ículos) de grandes povoações, os longos caminhos comerciais remotos (alguns transafricanos), os tradicionais locais de paragem das comitivas, as ilhotas mais importantes dos rios – refúgios de épocas inseguras -, as grandes colinas, os ângulos hidrográficos estratégicos, lagos, como Dilolo, Carumbo e Cacueje – renomeados por motivos das lendas que os rodeiam -, as dilatadas savanas herbáceas, cabendji, da sede e das miragens, campos de aventuras cinegéticas do caçador nordestino, as savanas dos feiticeiros, as baixas dos elefantes, as florestas dos búfalos negros, os rios dos mortos, as rochas dos Bambalas, no Alto Zambeze, o Pembe ua Hembe (grande fosso de parapeito no Sudoeste da Lunda), o Utomboquelo ua Macualana (terreiro de dança dos antepassados), na mesma região, as buracas de Mulumbaquenhe no Luizavo, o grande vau secreto dos Luenas no rio Zambeze, as rochas do Muheuhe no curso superior do Cassai, são apenas um punhado ocasional de nomes repletos de história dos diversos povos que, no decurso do tempo, têm vivido e aventurado nestes territórios (*).

(*) Nota do Autor – O grande vau do rio Zambeze foi-nos mostrado em 1939, pelo soba Caquengue, dos Luenas.

Estamos em presença de uma obra muito completa e detalhada. Atente-se neste curioso censo dos grupos étnicos habitando nos territórios da Lunda:

Grupo Lunda-Quioco – 150.460 indivíduos, dos quais, 45.090 lundas e 105.370 quiocos.

Grupo Quimbundo – 43.430 indivíduos, sendo 22.361 chinjis, 8.760 minungos, 8.934 bangalas, 2.595 songos e 1.320 maholos.

Grupo Ganguela – 8.903 indivíduos, na sua quase totalidade representados pelos luenas.

Grupo Quicongo – 5.330 indivíduos, entre eles 1.914 mussucos, seus representantes mais legítimos, 580 cojis ou ncojis (aparentados com os habitantes do Encoji), e ainda 1.501 pacas e 1.385 haris ou caris, mais ou menos adstritos à órbita dos quicongos.

Sobre a amplitude e justeza deste estudo, fiquemos com as palavras do Autor nas notas introdutórias:

“É natural que muitos passos deste livro choquem com ideias feitas, por vezes consagradas. Não foi nosso intuito feri-las, como também o não foi isentá-las.”

Algumas obras de José Redinha (1905, Bemposta-1983, Lisboa):

– As gravuras rupestres do Alto Zambeze (1948)

– As máscaras africanas: esboço (1952)

– Paredes pintadas da Lunda (1953)

– Campanha etnográfica ao Tchiboco (Alto Chicapa), anotações e documentação gráfica (1955)

– Máscaras e mascarados angolanos: uso, formas e ritos (41955)

– Máscaras de madeira da Lunda e Alto Zambeze (1956)

– Etno-sociologia do Nordeste de Angola (1956)

– Subsídios etnográficos (1964)

– Os Benamai da Lunda (1965)

– Cerâmica angolana: esboço de classificação (1966)

– Escultura angolana: esboço de classificação (1967)

– O fenómeno económico e a etnografia (1969)

– Palácio dos Governadores de Angola: Notas históricas e catálogo-guia (1969)

– Sincretismos religiosos dos povos de Angola (1971)

– Álbum etnográfico (1971)

– Práticas e ritos de circuncisão entre os quiocos da Lunda (1973)

– A habitação tradicional angolana: aspectos da sua evolução (1973)

– A caça, seus processos e mitos entre os povos angolanos: notas descritivas e esboço de sistematização (1973)

– Bibliografias temáticas: etnografia e etnologia de Angola (1973)

– Insígnias e simbologias dos chefes nativos de Angola (1974)

– Etnias e culturas de Angola (1974)

– Instrumentos musicais de Angola: sua construção e descrição: notas históricas e etno-sociológicas da música angolana (1984)

    • Alvaro Silva Será o Museu do Dundo, Lunda Norte, hoje museu Nacional do Dundo. Museu que está fortemente ligado ao Nome do famoso etnólogo, José Redinha?
    • Tomás Gavino Coelho Só pode, Alvaro Silva. Tenho um livro fantástico sobre esse trabalho, coordenado pelo Dr. Nuno Porto, da Universidade de Coimbra, que se intitula “Angola a preto e branco”. Aconselho a sua procura, é muito bom! Abraço!
    • Filomena Barata Tomás Gavino Coelho, não poderás partilhar mais informação que sei que tens?
    • Tomás Gavino Coelho Ando à procura do que tenho e depois irei trazendo para aqui, Filomena Barata.
    • Filomena Barata Eu sei que sim que tu partilharás.
    • Alvaro Silva Amigo Tomas, esses livros são autênticas relíquias, por se tratarem hoje de aut~enticas raridades e que muita falta têm feito aos nossos estudantes sobretudo os das faculdades de letras.
    • Tomás Gavino Coelho Sem dúvida, Alvaro Silva. Já era tempo das Universidades angolanas e portuguesas estabelecerem protocolos para reedições de obras importantes para ambos os países. Não podemos esquecer, nunca, que há uma vivência de 500 anos em comum e que a História não pode apagar-se.
    • Alvaro Silva Muita coisa se perdeu com a guerra, são poucos os que existem sobretudo de gente que se dedicou ao estudo dos hábitos do nosso povo, as suas origens , usos e costumes, literatura oral, livros de personalidades como Carlos Estermann, Carlos Everdosa, José Redinha,Basil Davidson…. etc.

    • Alvaro Silva pois caro amigo, isso de facto seria um tema para ser aboradado aqui com alguma profundidade para ver se as nossas opiniões e contributo, terão o efeito desejado,embora para que…Ver mais

    • Tomás Gavino Coelho É isso Alvaro Silva. E como estamos a falar da Lunda não podemos esquecer o notável e incontornável contributo da obra do Castro Soromenho, nomeadamente a trilogia “Viragem”, “Terra morta” e “A chaga”, entre outros.
    • Tomás Gavino Coelho A propósito disto talvez tenhamos que pensar em listar algumas obras indispensáveis para o estudo de Angola, para angolanos e portugueses. Aceitam-se sugestões.
    • Filomena Barata Totalmente de acordo! criar mesmo temas de trabalho. A Lunda bem pode ser um deles.
    • Alvaro Silva Essa Triologia de Camaxilo de Castro Soremenho foi matéria de estudo em anos idos em algumas faculdades, hoje não sei., mas são refer~encia obrigatória quando se fala de Literatura Angolana ou como antigamente se dizia” literaratura africana de expressão portuguesa.”
    • Alvaro Silva Já li os três há alguns anos e reli muito recentemente “A chaga” e “Terra morta”, que possuo, não consegui encontrar foi a “Viragem”, mas vou continuar a procura sei que posso encontrar aqui.
    • Tomás Gavino Coelho Pois, a literatura colonial. A literatura de escritores genuinamente angolanos viveu uma grande seca entre inícios do século XIX até aos anos 50/60. Só então começaram a aparecer títulos de autores angolanos.
    • Alvaro Silva Sim é verdade os primeiros escritores angolanos , muitos deles fizeram parte do conhecido “Estudantes da Casa do Império”.
    • Alvaro Silva Sim Tomas, sobretudo estes que tomo já a liberdade de sugerir: Castro Soremenho, Carlos Everdosa, Padre Carlos Esterman, Basil Davidson, José Redinha, Cordeiro da Matta, José da Si…Ver mais
    • Margarida Rosa Morais Fico à espera Tomás Gavino, desses escritos sobre a Lunda para eu ler. Estou interessada pois o marido esteve a trabalhar durante quase duas décadas na Diamang e, talvez pelas saudades daquela terra, fala tanto da Lunda… muitas vezes com uma lagrimita no olho. Espero par ler.
Publicado por: Filomena Barata | Setembro 15, 2012

Isa Pontes, Mena minha querida

Fotografia Luísa Monteiro

Mena minha querida

Disse-te que escreveria antes de partir. É o que estou a fazer.
Andam malas e carteiras por sobre a cama, na pressa de levar mais umas coisas… E entre roupas e recordações minhotas lá vou agitando os dedos, os olhos, mas muito mais a alma…
Olho lá para fora e já adivinho o Outono que, vagarosamente, vem descendo sobre as montanhas ao longe, do Gerês. A tonalidade dos fins de tarde teima em trazer matizes acastanhados secos; a aragem já se sente pelas manhãs e o Vale da Paixão adormece mais cedo, sem ruídos de brincadeiras, nem fanfarras que o agitaram todo o Agosto. Das glicínias choronas e das flores de jacarandás restam apenas pequenos galhos secos que breve voarão com o vento.

É hora…
Preciso voltar, é urgente ir-me embora.
Tu sabes, tão bem quanto eu, das minhas angústias. Para onde me virar? Onde beber a seiva que me é necessária?
Falámos do nosso alimento outro dia, na tua casa, toda ela repleta de símbolos, recordações, presenças e muito especialmente de livros, muitos livros… tantos livros… Os tais que são anjos disfarçados, balançando suas folhas ao sabor da nossa sensualidade de gritos e gemidos vários, sempre que os tocamos.
Eu bem tento aqui por casa: as prateleiras e estantes vão enchendo com temas de lá, com vidas de lá, com gente de lá, na patética ideia de que mascarar o Inverno metida dentro deles, os livros.
Mas não…
É melhor regressar, partir breve.
Começo a pensar que ressuscitarei ao chegar à Mutamba. Sei que numa esquina conhecida, de que não lembro o nome, estará uma garrafa de Veuve Clicquot à minha espera, para festejar a minha chegada; serei, de novo, fresca e pura, um misto de inocência e aventura; a minha pele há-de virar a sua cor macilenta de inúmeros invernos para uma tonalidade rosa nacarada e até os cheiros a maresia ali da Praia do Bispo me cobrirão os poros num massajar de sortilégios que só eu sentirei e me resgatarão por longos tempos.
Anda comigo. Manda às favas as grandes e pequenas coisas, mesmo que seja em sonhos.
Há dias alguém me disse para não ser ridícula mas que sonhasse. Mas eu não descubro a forma de sonhar sem ser ridícula! Caso contrário não haveria cartas de amor!… Como esta, como tantas que tenho escrito e que, inevitavelmente, me levam sempre para o Sul.
Quando puderes escreve-me para o Bairro das Ingombotas, o mais antigo da nossa Luanda. Andarei por lá, procurando raízes, pedras gastas e acácias velhinhas como eu.
Beijos e abraços, daqueles quentes que são, sempre, os abraços da despedidaTuaRaquel
============D’As Cartas de Raquel

Publicado por: Filomena Barata | Agosto 23, 2012

Isa Pontes, Meu amor, meu amor …

ABRIL

Meu amor…
Meu amor…

jacarandás. Fotografia Filomena Barata

É Abril. Chegou a Primavera e com ela o vale ganhou novos matizes. Os muros estão cheios de glicínias de um azul anil, cadenciando ao sabor do vento. Há melros no jardim onde, tu sabes, brincam duendes pequeninos.
Era Abril e diziam haver cravos rubros espalhados por aí. Para mim, eu

adivinhava ser o princípio do nosso fim. E foi.
Em Abril fechámos as portas da nossa casa que tinha sido a nossa cidadela e começámos a nossa caminhada de judeus errantes…
E foi em Abril que tu partiste…
É Abril e fecho os olhos para melhor ver-te, disfarçando a dor das minhas fragilidades. Sabes lá o que tantas Primaveras fizeram ao meu corpo por ti idolatrado e dizias querer proteger numa redoma de cristal… Os seios a lembrar pináculos de catedrais, em noites de rebita, jazem agora inertes e a minha pele, que dizias lembrar-te um pêssego aveludado, virou uma coisa enrugada e sem viço.
Restam-me os olhos de jacarandá em flor. São eles que ainda te procuram.
É Abril e não sei onde buscar-te… Em mim, ainda arde a febre que tu fizeste descobrirmos.
Por onde andas?
É Abril e eu não sei viver sem ti.Raquel

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ISA PONTES

Publicado por: Filomena Barata | Agosto 9, 2012

Carta Aberta aos meus amigos, Álvaro Silva

Carta aberta aos meus amigos.

Um dia parti para um destino incerto.
Na bagagem o vazio da saudade daqueles que ficavam para trás; dos familiares, dos amores, dos amigos, do tempo que a vida marcou.
Um dia parti para um destino incerto.
No peito o coração dorido reclama por coisas impossíveis, na mente os receios e os medos que as incertezas transmitem…
Noites intermináveis de sonhos irrealizáveis, no esbarrar com o impossível, tornam inquietantes os momentos do meu viver…
No raiar do dia uma réstia de luz bruxuleante, ilumina timidamente o que de esperança ainda me vai na alma.
Corre o tempo e com ele a vida. Vive-se num mundo de incertezas e de destinos escuros. No horizonte distante perdem-se o olhar e os sonhos.
No cerrar dos olhos e na crispação do rosto, o testemunho do fracasso…, no morder dos lábios, no retorcer frenético das mãos, a vontade, a raiva contida pelo esforço titânico de querer vencer.
Vivem-se momentos atrozes de tortura íntima, pálios resplandecentes, incendiados de vontades extremas, relampejam no meu cérebro a tenacidade e a costumaz certeza de que um dia cairei sim…, mas levantarei o meu braço em sinal de vitória, por não ter sossobrado ao escárnio e à apatia daqueles que um dia por mim passaram…
Nos meus ais, nos que de mim brotaram e nos de minha amada paridos, nos amigos que me acreditaram e que comigo partilham alguns dos muitos ideais aqui escritos estará a certeza da caontinuação da minha luta.
Assim pensei, assim escrevi de forma espontânea, sem prumos, nem arrumos e como sempre digo, aos amigos a vénia pela complacência aos críticos minha mão a palmatória.

Fotografia FB

Álvaro Silva- 08-08-2012

 

Acordei assim:

Vivo esperando que a vontade dos outros, façam a minha vontade. Caprichos, hipocresias, más vontades e o desrepeito e falta de amor ao próximo são ainda apanágio de muito gente que com sorrisos de hipocrisia, escondem a torpeza e vileza dos seus sentimentos e das suas intenções.
Não temo a justiça dos homens, temo sim a justiça de Deus.

 

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