Publicado por: Filomena Barata | Novembro 11, 2014

Independência de Angola, Filomena Barata (a partir de 2011)

  • Tomás Gavino Coelho Parabéns Angola, meu chão natal! Um país jovem construído em volta de nações e reinos seculares cujas sabedorias próprias ainda não se perderam. E é essa amálgama de idiossincrasias individuais que faz de Angola um país tão belo e diverso. Saibam os vindouros nunca delas se esquecerem. Parabéns, Angola!

 

Porque hoje é dia da Independência de Angola, vamos aqui deixar um conjunto de testemunhos dos aderentes do nosso Grupo, esperando que os mesmos venham a ser enriquecidos com a cobertura fotográfica das comemorações em Angola.

Queria testemunhar que neste mesmo dia 11 de Novembro de 1975 desmbarquei em Portugal, que mal conhecia, pois apenas de férias aqui tinha estado, através de uma “ponte aérea” criada para o efeito, sem ter conhecimento dos meus pais durante um mês, pois haviam sido evacuados de Malanje para o Sumbe, sem que houvesse comunicações.
Comigo vinha a mágoa de deixar Angola, apenas um pouco refeita pelo facto de ter encontrado os meus pais vivos, “sãos e salvos” em Portugal, pois quis o destino que, no mesmo dia, tivessem chegado a este país. Não obstante, nunca deixei que a mágoa ou a saudade e, muito menos a revolta, se sobrepusessem à convicção que um país que desejava a sua independência o pudesse deixar de ser. Por esse motivo talvez não entenda as pessoas a quem a mágoa e o rancor a tudo se sobreponham e, por isso, aqui estou e partilhei com «O Meu Testemunho». Estamos juntos.
http://www.bubok.pt/livros/4585/Folhas-Soltas–O-meu-testemunho

Da tua bandeira farei uma flor. Fotografia de Filomena Barata
Angola em reconstrução, Alípio Mendes

Sei que nasci em Angola, numa família maioritariamente constituída por Despachantes Oficiais, que já aí vivia há três gerações.
Ao meu pai ouvira falar do seu envolvimento, julgo que distanciado, mas atento, com o que defendia Humberto Delgado.
Mas tive quatro pessoas que me marcarão toda a vida, pelas longas reflexões sobre a situação que se vivia no país que me viu nascer, Angola, então colónia portuguesa e que me ajudaram a moldar a mentalidade e o pensamento político:
Bicas Mira, com quem partilhava a inquietude ou mesmo a irreverência, ainda sem saber bem de que forma a canalizar.
Aloisio Cruz, amigo de bairro e colega de filosofia, mestiço de cor e de todas as cores no coração. Ingenuamente ainda e sem que um pensamento político nos estruturasse de facto, tecíamos considerações sobre a igualdade e a desigualdade, sobre o sentido das coisas e do viver.
Contudo, foi com ele que fui gritar no dia 25 de Abril pela Liberdade, junto ao Governo Distrital de Malanje, cidade onde vivíamos.

O António Martinho que tanto gostaria de reencontrar um dia e que me ensinou o milagre da fotografia revelada com líquidos e que produziam milagrosamente imagens, e que, porque em Portugal já acompanhava o “Movimento do Rato”, me ensinou o que era a seara Nova, o Jornal do Funchal, de que curiosamente e pese todas as dificuldades da descolonização, ainda consegui trazer alguns exemplares (poucos) para Portugal.
Com ele ouvi, pela primeira vez, «O soldaninho não volta … do outro lado do mar» que muito o comovia, pois aos 20 anos, por ter reprovado no Técnico, porque as suas actividades políticas o haviam desviado do estudo, à “guerra colonial” havia ido parar.

O António Manuel Natividade Coelho também estudante do IST e que, pelos mesmos motivos, à tropa não pôde fugir, pese todas as tentativas familiares de disso o isentarem.
Sofreu as agruras de uma zona longínqua e um dos palcos mais ferozes da guerra em Angola: Zala. Ainda conservo comigo alguns slides desse “acampamento militar”, onde jovens soldados elouqueceram do que viram, passeando-se alguns com camaleões presos por um cordel.
Com ele pintei, para o cinema de Malanje, uma faixa do Primeiro Congresso do MPLA nessa cidade.
E assim me tornei eu simpatizante desse movimento, mais particularmente da OMA embora me tenha desiludido numa fase posterior com o célebre julgamento popular de Luanda, entre outras coisas terríveis que a guerra sempre traz.
Dessa altura me ficaram os poucos objectos que consegui trazer para Portugal e que ainda hoje conservo comigo (na fotografia).
Mas quem me deu a notícia do golpe de Estado, rua fora apitando no seu “Mini” foi a Lurdes Alves, ainda hoje minha amiga, e que assim dava voz pela cidade de um acontecimento cujos contornos não conhecíamos, mas que muitos de nós acreditámos poder significar uma mudança desejada.

Não falarei das desilusões, da monstruosa guerra civil que vi rebentar em Angola, de algum espírito de vingança, compreensível mas atemorizador, a que se assistiu contra os Portugueses, “culpados” ou não da situação vigente até aí!
A História disso se encarregará, não este testemunho.
Sei que durante muitos anos senti a estranheza de afinal não pertencer a país nenhum, pois o da minha origem tive que abandonar, com o agravamento da guerra.
Esse que, em período colonial até os seus maltratava, chamando-lhe «portugueses de segunda», como ainda constara no BI do meu pai.
Em Portugal fui depois “retornada”, coisa que nunca entendi o porquê da designação, pois aqui a nenhum lugar tinha retornado, porque apenas de férias o conhecera. Ainda hoje me ofende tal epíteto.

Hoje sei que não sou “branca de segunda”, como chamava o Regime Fascista aos brancos nascidos nas colónias: mas sou de Angola e de Portugual, em qualquer lugar do Mundo.

Acredito na DEMOCRACIA que Abril instalou e creio que o meu lugar é o Atlântico, ou num Templo onde estão de todas as cores e credos os que acreditam que é possível existir a IGUALDADE, LIBERDADE E FRATERNIDADE.

Hoje, ainda no rescaldo de ter ouvido ontem quatro testemunhos extraordinários e comoventes sobre o que tinha representado o 25 de Abril, sei que pertenço a esse lugar onde me reconhecem também.

Independência da minha, nossa Angola!!
Terra de Ngola Kiluange, Nzinga Mbamdi, Mandume e tantos outros que deram também o litro por ela.
É um dia para reflexões. A liberdade foi conquistada a custa de muito sangue derramado, mas se havia esquecido do dia de amanhã. Ainda hoje são visíveis as sentidas expressões como: eu tenho a 4 quarta classe do colono. Ali naquela esquina havia a loja do senhor Afonso, não faltava nada havia de tudo um pouco, até o fiado (Kilapi hoje) dava-se. Ali vivia o Senhor Lemos dentista, sem esquecer o Senhor Moutinho da marcenaria onde trabalhou o meu pai… (todo este cenário passou-se nas cidades, assim como nos nossos kimbos) onde o comércio e outros serviços, fundamentalmente estiveram presentes.
O inteligente aprende com os seus erros, porém o sábio, com os erros dos outros.
Viva Angola, viva Portugal e que Deus ilumine a mente dos nossos governantes e dê muita, mas muita paciência aos nossos povos. Tenho fé que o amanhã sorrirá.
Deus abençoe!!!!!

Salome Campos Obrigado Garpar ! Muito bonito aquilo que escreveste ! Faço minhas as tuas palavras ” Viva Angola, viva Portugal e que Deus ilumine a mente dos nossos governantes e dê muita, mas muita paciência aos nossos povos. Tenho fé que o amanhã sorrirá.
Deus abençoe!!!!! ” …Um Bom S.Martinho para todos ! Bjs ♥

Alvaro Silva Lembro-me como se fosse hoje. Assisti a proclamação da independência, pela voz do Dr. António Agostinho Neto, no Campo do Cubaza no Bairro Popular com imagens das primeiras emissões da TPA(Televisão Pública de Angola).Nesse dia as pessoas estavam receosas, já que ao longo da noite e de todo o dia se ouviam o ribombar dos canhões de guerra, em Kifangondo, onde se travava um intenso combate contra as forças mercenárias, o exercito de Mobutu e o exército do Coronel Santos e Castro que invadiram Angola entrando pelo Norte e foram travados precisamente em Kifangondo.Viveram-se momentos de grande tensão, pois estavamos todos preparados para a guerra e para a Defesa de Luanda, baluarte da nossa recém proclamada soberania… Estamos Juntos.

É grande a saudade de minha terra e, quantas vezes deitei minha cabeça no travesseiro para abafar o choro da saudade. Hoje, tantos anos passados ainda me alimento das boas recordações da minha infância e, os momentos tristes procuro apaga-los de minha mente. Desejo do coração que a minha querida Angola tenha paz, muita paz e prosperidade. PARABÉNS ANGOLA.

Parabéns, minha querida e única Terra.ANGOLAANGOLA continua de cor
… na minha cabeça,
colorida com a força com que me baptizou
na saída ao encontro Dela.
ANGOLA continua retida dentro da minha expansão
pelo mundo fora,
eu que nunca consegui sair de dentro Dela.
ANGOLA continua despida,
pois as cobertas que encontrei pelo mundo, até agora,
não cobriram a beleza
da Minha Terra querida.
Não há como Ela.ANGOLA menina,
desde cedo cortejada,
mas nunca comprometida.
ANGOLA, Senhora,
desejada.
ANGOLA bendita,
sublimada.
ANGOLA abençoada
por Nossa Senhora da Muxima.
ANGOLA, Sina
Terra Minha.O olhar reflecte o desejo,
do encontro longe da vista.
Mas, Hoje, Só,
apenas o Coração resiste
contra a ausência.
Não é desistência,
é Conquista!
da serenidade,
oferta de saudade à Terra Amada.José Jacinto

Quando eu voltar…Se um dia voltar…
posso abrir as gavetas
escancarar as portas
… deixar o vento passar
e…
no bater das janelas
abertas de par em par
festejar nas coisas belas
a alegria do regressar.Se um dia voltar…de: aileda/adeliavazFOTO: “Espinheira” (Deserto – Tombwa – Namibe – Angola)

Avocação

Aos meus 12 camaradas de armas, que tombaram na noite de 10 para 11 de Novembro de 1975, no Morro do Tongo, Zona da Quibala (Centro de Angola), durante um bombardeamento da artilharia do Exército da África do Sul

Ao entardecer
ecoaram armas mortíferas.

Sobre a planície que se queria verde
pairou um sol mais vermelho do que o habitual.

A noite chegou
Para abafar o lamento
nas bocas destroçadas
dos guerreiros moribundos

Num fundo de embondeiros

plúmbeo mausoléu
em saudação ao espírito dos mártires purpúreos
de tão espinhosa caminhada

junta-se sangue derramado.
De uma grande geração sofrida sofredora
Que alimentou a chama ardente da esperança.

Manuel C. Amor
Horta 2011

Margarida Rosa Morais

Cheguei a Portugal, onde nunca tinha estado, umas semanas antes da Independência. Triste por ter deixado a minha Terra. Uns meses antes quase perdi o meu pai, bem perto de minha casa, num daqueles ataques que os portugueses sofreram e que alguém como Alto Comissário dizia que era tudo boato. Mas a saudade persistiu e eu só pedia a Deus que me concedesse a graça de pisar solo angolano, nem que tivesse que descer do avião e ter voltar a subir! Numa das viagens Moçambique/Portugal, tive a oportunidade de pisar esse solo que um dia me viu partir com lágrimas nos olhos. Não gosto muito de falar sobre essa época, por me trazer más recordações. Vivi dias de muita angústia, que evito lembrar. Mas aqui fica o meu testemunho. Envio ao povo angolano aquele kandando bem patriótico, desejando que os governantes pensem também um pouco na modernização a parte mais alta da cidade, naqueles bairros que até agora têm estado esquecidos. Feliz dia da Independência!

11 de Novembro, dia da Independência de Angola.
Nasci na freguesia da Sé, concelho do Luso (Luena), província do Moxico.
Poema a Angola, País rico em beleza, cultura…

Angola país irmão,
Portugal país amigo,
trago-vos no coração,
por isso venham comigo.

Não importa a tua cor,
muito menos a distância,
vamos viver em paz e amor
em qualquer circunstância.

Por portugueses descoberta,
por eles desenvolvida,
lanço aqui um alerta,
para não ser esquecida.

Eram navegadores,
como Diogo Cão,
não foram invasores,
são um país cristão.

Como gosto de ouvir,
as tuas belas canções,
fazem tantas vezes reflectir
as minhas emoções.
(…)

Poema retirado do Livro “joão oliveira poemas” 2009
joão oliveira, Chãs de Tavares, poderia ser em Angola, 05-03-2007

11 de Novembro, dia da Independência de Angola.
Nasci na freguesia da Sé, concelho do Luso (Luena), província do Moxico. 
Poema a Angola, País rico em beleza, cultura...

Angola país irmão,
Portugal país amigo,
trago-vos no coração,
por isso venham comigo.

Não importa a tua cor,
muito menos a distância,
vamos viver em paz e amor
em qualquer circunstância.

Por portugueses descoberta,
por eles desenvolvida,
lanço aqui um alerta,
para não ser esquecida.

Eram navegadores,
como Diogo Cão,
não foram invasores,
são um país cristão.

Como gosto de ouvir,
as tuas belas canções,
fazem tantas vezes reflectir
as minhas emoções.
(...)

Poema retirado do Livro "joão oliveira poemas" 2009
joão oliveira, Chãs de Tavares, poderia ser em Angola, 05-03-2007

Responses

  1. Ainda que decorridos alguns anos após a minha chagada a Portugal o meu coração continuava dilacerado!… Dor, angustia, incerteza…eram sentimentos pungentes que, em cachão, continuavam a acutilar a minha alma…
    As saudades do meu Pais esmagavam-me o coração.
    Sentia saudades dos costumes do meu povo!
    Do vozear da minha gente!…
    Sentia saudades das cores de África.
    Do som melódico das musicas africanas…
    A Europa não tinha o mesmo odor… nem o mesmo perfume… nem a mesma fragrância… que exalava a minha terra…a minha Angola!
    Angola!…
    Que haja Bênção e muita Paz neste Pais que tanto amo.

    Filomena Gomes Camacho.

  2. Avocação

    Aos meus 12 camaradas de armas, que tombaram na noite de 10 para 11 de Novembro de 1975, no Morro do Tongo, Zona da Quibala (Centro de Angola), durante um bombardeamento da artilharia do Exército da África do Sul

    Ao entardecer
    ecoaram armas mortíferas.

    Sobre a planície que se queria verde
    pairou um sol mais vermelho do que o habitual.

    A noite chegou
    Para abafar o lamento
    nas bocas destroçadas
    dos guerreiros moribundos

    Num fundo de embondeiros

    plúmbeo mausoléu
    em saudação ao espírito dos mártires purpúreos
    de tão espinhosa caminhada

    junta-se sangue derramado.
    De uma grande geração sofrida sofredora
    Que alimentou a chama ardente da esperança.

    Manuel C. Amor
    Horta 2011

  3. Gostei do teu testemunho, Filomena. Também eu não compreendo algumas coisas – ou antes, até posso compreender mas acho que não são aceitáveis. Adoro saber Angola independente e que os angolanos possam escolher o seu caminho, qualquer que ele seja – como qualquer povo tem direito (mesmo que eu não esteja lá para participar nessa escolha). Poucas coisas me fazem feliz mas ter duas pátrias é uma delas, mesmo que daquela onde nasci, a do coração, não tenha “papel passado”…


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