Publicado por: Filomena Barata | Setembro 19, 2012

Tomás Gavino, José Redinha e a Lunda

  JOSÉ REDINHA

Nasceu José Redinha, ou seja,  José Pedro Duarte Domingues, nasceu em Bemposta, concelho de Alcobaça em 16 de Fevereiro de 1905.

 Etnólogo e antropólogo de nomeada, foi conservador do Museu do Dundo, o qual reunia o espólio fotográfico e etno-antropológico da Diamang. Durante o tempo que lá passou foi coligindo textos sobre os povos da Lunda, sobre as suas origens, culturas, usos e costumes.

Em 1956 escreveu um ensaio intitulado “ETNOSSOCIOLOGIA DO NORDESTE DE ANGOLA”, publicado em 1958 pela Agência-Geral do Ultramar.

Apesar de ser um estudo científico, a sua escrita pode levar longe a nossa imaginação sobre como terá sido o quotidiano dos povos que habitavam a Lunda em tempos mais recuados. Tome-se este pequeno trecho como exemplo:

“Os antigos lugares (ículos) de grandes povoações, os longos caminhos comerciais remotos (alguns transafricanos), os tradicionais locais de paragem das comitivas, as ilhotas mais importantes dos rios – refúgios de épocas inseguras -, as grandes colinas, os ângulos hidrográficos estratégicos, lagos, como Dilolo, Carumbo e Cacueje – renomeados por motivos das lendas que os rodeiam -, as dilatadas savanas herbáceas, cabendji, da sede e das miragens, campos de aventuras cinegéticas do caçador nordestino, as savanas dos feiticeiros, as baixas dos elefantes, as florestas dos búfalos negros, os rios dos mortos, as rochas dos Bambalas, no Alto Zambeze, o Pembe ua Hembe (grande fosso de parapeito no Sudoeste da Lunda), o Utomboquelo ua Macualana (terreiro de dança dos antepassados), na mesma região, as buracas de Mulumbaquenhe no Luizavo, o grande vau secreto dos Luenas no rio Zambeze, as rochas do Muheuhe no curso superior do Cassai, são apenas um punhado ocasional de nomes repletos de história dos diversos povos que, no decurso do tempo, têm vivido e aventurado nestes territórios (*).

(*) Nota do Autor – O grande vau do rio Zambeze foi-nos mostrado em 1939, pelo soba Caquengue, dos Luenas.

Estamos em presença de uma obra muito completa e detalhada. Atente-se neste curioso censo dos grupos étnicos habitando nos territórios da Lunda:

Grupo Lunda-Quioco – 150.460 indivíduos, dos quais, 45.090 lundas e 105.370 quiocos.

Grupo Quimbundo – 43.430 indivíduos, sendo 22.361 chinjis, 8.760 minungos, 8.934 bangalas, 2.595 songos e 1.320 maholos.

Grupo Ganguela – 8.903 indivíduos, na sua quase totalidade representados pelos luenas.

Grupo Quicongo – 5.330 indivíduos, entre eles 1.914 mussucos, seus representantes mais legítimos, 580 cojis ou ncojis (aparentados com os habitantes do Encoji), e ainda 1.501 pacas e 1.385 haris ou caris, mais ou menos adstritos à órbita dos quicongos.

Sobre a amplitude e justeza deste estudo, fiquemos com as palavras do Autor nas notas introdutórias:

“É natural que muitos passos deste livro choquem com ideias feitas, por vezes consagradas. Não foi nosso intuito feri-las, como também o não foi isentá-las.”

Algumas obras de José Redinha (1905, Bemposta-1983, Lisboa):

– As gravuras rupestres do Alto Zambeze (1948)

– As máscaras africanas: esboço (1952)

– Paredes pintadas da Lunda (1953)

– Campanha etnográfica ao Tchiboco (Alto Chicapa), anotações e documentação gráfica (1955)

– Máscaras e mascarados angolanos: uso, formas e ritos (41955)

– Máscaras de madeira da Lunda e Alto Zambeze (1956)

– Etno-sociologia do Nordeste de Angola (1956)

– Subsídios etnográficos (1964)

– Os Benamai da Lunda (1965)

– Cerâmica angolana: esboço de classificação (1966)

– Escultura angolana: esboço de classificação (1967)

– O fenómeno económico e a etnografia (1969)

– Palácio dos Governadores de Angola: Notas históricas e catálogo-guia (1969)

– Sincretismos religiosos dos povos de Angola (1971)

– Álbum etnográfico (1971)

– Práticas e ritos de circuncisão entre os quiocos da Lunda (1973)

– A habitação tradicional angolana: aspectos da sua evolução (1973)

– A caça, seus processos e mitos entre os povos angolanos: notas descritivas e esboço de sistematização (1973)

– Bibliografias temáticas: etnografia e etnologia de Angola (1973)

– Insígnias e simbologias dos chefes nativos de Angola (1974)

– Etnias e culturas de Angola (1974)

– Instrumentos musicais de Angola: sua construção e descrição: notas históricas e etno-sociológicas da música angolana (1984)

    • Alvaro Silva Será o Museu do Dundo, Lunda Norte, hoje museu Nacional do Dundo. Museu que está fortemente ligado ao Nome do famoso etnólogo, José Redinha?
    • Tomás Gavino Coelho Só pode, Alvaro Silva. Tenho um livro fantástico sobre esse trabalho, coordenado pelo Dr. Nuno Porto, da Universidade de Coimbra, que se intitula “Angola a preto e branco”. Aconselho a sua procura, é muito bom! Abraço!
    • Filomena Barata Tomás Gavino Coelho, não poderás partilhar mais informação que sei que tens?
    • Tomás Gavino Coelho Ando à procura do que tenho e depois irei trazendo para aqui, Filomena Barata.
    • Filomena Barata Eu sei que sim que tu partilharás.
    • Alvaro Silva Amigo Tomas, esses livros são autênticas relíquias, por se tratarem hoje de aut~enticas raridades e que muita falta têm feito aos nossos estudantes sobretudo os das faculdades de letras.
    • Tomás Gavino Coelho Sem dúvida, Alvaro Silva. Já era tempo das Universidades angolanas e portuguesas estabelecerem protocolos para reedições de obras importantes para ambos os países. Não podemos esquecer, nunca, que há uma vivência de 500 anos em comum e que a História não pode apagar-se.
    • Alvaro Silva Muita coisa se perdeu com a guerra, são poucos os que existem sobretudo de gente que se dedicou ao estudo dos hábitos do nosso povo, as suas origens , usos e costumes, literatura oral, livros de personalidades como Carlos Estermann, Carlos Everdosa, José Redinha,Basil Davidson…. etc.

    • Alvaro Silva pois caro amigo, isso de facto seria um tema para ser aboradado aqui com alguma profundidade para ver se as nossas opiniões e contributo, terão o efeito desejado,embora para que…Ver mais

    • Tomás Gavino Coelho É isso Alvaro Silva. E como estamos a falar da Lunda não podemos esquecer o notável e incontornável contributo da obra do Castro Soromenho, nomeadamente a trilogia “Viragem”, “Terra morta” e “A chaga”, entre outros.
    • Tomás Gavino Coelho A propósito disto talvez tenhamos que pensar em listar algumas obras indispensáveis para o estudo de Angola, para angolanos e portugueses. Aceitam-se sugestões.
    • Filomena Barata Totalmente de acordo! criar mesmo temas de trabalho. A Lunda bem pode ser um deles.
    • Alvaro Silva Essa Triologia de Camaxilo de Castro Soremenho foi matéria de estudo em anos idos em algumas faculdades, hoje não sei., mas são refer~encia obrigatória quando se fala de Literatura Angolana ou como antigamente se dizia” literaratura africana de expressão portuguesa.”
    • Alvaro Silva Já li os três há alguns anos e reli muito recentemente “A chaga” e “Terra morta”, que possuo, não consegui encontrar foi a “Viragem”, mas vou continuar a procura sei que posso encontrar aqui.
    • Tomás Gavino Coelho Pois, a literatura colonial. A literatura de escritores genuinamente angolanos viveu uma grande seca entre inícios do século XIX até aos anos 50/60. Só então começaram a aparecer títulos de autores angolanos.
    • Alvaro Silva Sim é verdade os primeiros escritores angolanos , muitos deles fizeram parte do conhecido “Estudantes da Casa do Império”.
    • Alvaro Silva Sim Tomas, sobretudo estes que tomo já a liberdade de sugerir: Castro Soremenho, Carlos Everdosa, Padre Carlos Esterman, Basil Davidson, José Redinha, Cordeiro da Matta, José da Si…Ver mais
    • Margarida Rosa Morais Fico à espera Tomás Gavino, desses escritos sobre a Lunda para eu ler. Estou interessada pois o marido esteve a trabalhar durante quase duas décadas na Diamang e, talvez pelas saudades daquela terra, fala tanto da Lunda… muitas vezes com uma lagrimita no olho. Espero par ler.

Responses

  1. O facto de se afirmar que José Redinha(pseudónimo) era natural do município português de Condeixa-a-Nova, perto de Coimbra, só pode resultar de, nesse concelho, existir uma família com esse sobrenome? Fernando Manuel Carreira de Abreu (de Dalatando-Angola), residente em Zambujal-Condeixa-a-Nova, desde 2002. Cumprimentos angolanos.

  2. Tenho pena que a informação sobre José Redinha não seja mais rigorosa!
    Aliás, a informação de Filomena Barata começa com um erro lamentável!
    De facto, José Redinha, aliás José Pedro Duarte Domingues, não nasceu em Condeixa, nem coisa que se pareça!…
    Tenho estado a trabalhar numa obra biográfica sobre JR – que aliás conheci pessoalmente e de quem fui amigo, – e tenho tido acesso ao espólio pessoal que deixou.
    Quanto à importância da sua extensa obra – estão publicadas 47! – não carece de sublinhado. Mas, posso informar que outros tantos inéditos deveriam ser publicados para estudo e conhecimento das gerações actuais – de Portugal e de Angola.l

    • Pese a informação não ser produzida por mim, como pode bem verificar no título, respondo em nome do Grupo. Obrigada pelo comentário e vou transmiti-lo ao autor do texto.

    • Sr Lemos, boa noite. Já acabou a sua biografia sobre José Redinha?


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