Publicado por: Filomena Barata | Setembro 15, 2012

Isa Pontes, Mena minha querida

Fotografia Luísa Monteiro

Mena minha querida

Disse-te que escreveria antes de partir. É o que estou a fazer.
Andam malas e carteiras por sobre a cama, na pressa de levar mais umas coisas… E entre roupas e recordações minhotas lá vou agitando os dedos, os olhos, mas muito mais a alma…
Olho lá para fora e já adivinho o Outono que, vagarosamente, vem descendo sobre as montanhas ao longe, do Gerês. A tonalidade dos fins de tarde teima em trazer matizes acastanhados secos; a aragem já se sente pelas manhãs e o Vale da Paixão adormece mais cedo, sem ruídos de brincadeiras, nem fanfarras que o agitaram todo o Agosto. Das glicínias choronas e das flores de jacarandás restam apenas pequenos galhos secos que breve voarão com o vento.

É hora…
Preciso voltar, é urgente ir-me embora.
Tu sabes, tão bem quanto eu, das minhas angústias. Para onde me virar? Onde beber a seiva que me é necessária?
Falámos do nosso alimento outro dia, na tua casa, toda ela repleta de símbolos, recordações, presenças e muito especialmente de livros, muitos livros… tantos livros… Os tais que são anjos disfarçados, balançando suas folhas ao sabor da nossa sensualidade de gritos e gemidos vários, sempre que os tocamos.
Eu bem tento aqui por casa: as prateleiras e estantes vão enchendo com temas de lá, com vidas de lá, com gente de lá, na patética ideia de que mascarar o Inverno metida dentro deles, os livros.
Mas não…
É melhor regressar, partir breve.
Começo a pensar que ressuscitarei ao chegar à Mutamba. Sei que numa esquina conhecida, de que não lembro o nome, estará uma garrafa de Veuve Clicquot à minha espera, para festejar a minha chegada; serei, de novo, fresca e pura, um misto de inocência e aventura; a minha pele há-de virar a sua cor macilenta de inúmeros invernos para uma tonalidade rosa nacarada e até os cheiros a maresia ali da Praia do Bispo me cobrirão os poros num massajar de sortilégios que só eu sentirei e me resgatarão por longos tempos.
Anda comigo. Manda às favas as grandes e pequenas coisas, mesmo que seja em sonhos.
Há dias alguém me disse para não ser ridícula mas que sonhasse. Mas eu não descubro a forma de sonhar sem ser ridícula! Caso contrário não haveria cartas de amor!… Como esta, como tantas que tenho escrito e que, inevitavelmente, me levam sempre para o Sul.
Quando puderes escreve-me para o Bairro das Ingombotas, o mais antigo da nossa Luanda. Andarei por lá, procurando raízes, pedras gastas e acácias velhinhas como eu.
Beijos e abraços, daqueles quentes que são, sempre, os abraços da despedidaTuaRaquel
============D’As Cartas de Raquel


Responses

  1. Fica no ar a promessa do livro…


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