Publicado por: Filomena Barata | Novembro 10, 2014

A Expansão da Língua Portuguesa: Filomena Barata e Tomás Gavino

Breve síntese da conferência/debate apresentada na Casa de Angola

Queria tanto acreditar nos sonhos do teu Atlântico largo,
sem fronteiras nem línguas ou cores
naquele em que me fizeste crer
mas hoje quero-me aqui, nesta ilha pequena no meio do Oceano
quieta, sem sonhos ou gestos, apenas escutando o ecoar do Mar.

Eu nada tenho para dizer
mas sei que ele algo me segredará!

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Afinal o que é uma língua?

Um sentir?
Um pulsar?
Um entoar?
Um código com as suas regras sintáticas e gramaticais?

Um léxico, uma sintaxe ou uma figura de estilo?
Um rezar ou um cantar?
Um conjunto de letras formando palavras e de palavras criando ideias?

A língua é tudo isso, sem dúvida, entre as muitas componentes do universo cultural de um determinado povo ou conjunto de povos, Seja enquanto manifestação oral – fala, conto tradicional, canção – ou através das suas expressões escritas.

Livro Malanje

Os antigos rabinos e cabalistas explicavam a ordem, a harmonia e as influências dos céus sobre o mundo e a própria História através das 22 letras do alfabeto hebraico, pois da sua combinatória surgiam as Palavras e da sua ligação, casuística aos olhos dos Humanos mas sagrada para a Divindade, nasceu a História. Os “acontecimentos” não são mais do que fruto da aliança das letras e das palavras.

E as letras mistéricas são também algarismos, ou seja a sua grafia é tecida de símbolos, como se fosse cada uma dotada de personalidade própria, como um indivíduo, dotado de força própria e desempenhando um papel determinado.

Deus criou todas as coisas com números, medida e peso. Por isso os cabalistas dizem que cada número contém um mistério e um atributo que se refere à Divindade ou a alguma inteligência.

Tudo que existe na natureza forma uma Unidade pelo encadeamento de causas e efeitos, que se multiplicam ao infinito; e cada uma destas causas refere-se a um número determinado.

alfabeto hebraico

«Derivado, sem dúvida, do Latim, o Português acolheu de boamente contributos do Grego, do Árabe, do Visigótico… e, já nos nossos dias, consignados no Dicionário da Academia, termos próprios de outros países europeus, do Brasil e dos PALOPS (daí, a ideia peregrina do tal acordo ortográfico…). O lugar e o tempo constituem, consequentemente, coordenadas a ter em conta, mormente se pensarmos que, apesar de termos apenas duas línguas oficiais – o Português e o Mirandês – há ainda o barranquenho, o minderico e – porque não? – o falar algarvio, o falar gandarês…. O Brasil poderá ser também motivo de sugestiva análise, se atentarmos que, logo no aeroporto, quando chegamos, deparamos não com a indicação «tapete» mas o classicíssimo «esteira»; e a nossa ‘fotocópia’ é… xerox! A simbiose perfeita entre o conservadorismo vernáculo e a adopção sem peias do neologismo preciso. Qual a origem da língua portuguesa, portanto? O Povo que desde há muito séculos a fala, em épocas e em lugares precisos. Uma origem que não devemos, por consequência, considerar estática nem no tempo nem no espaço – porque… está viva»!

E amadurece todos os dias!

José d’Encarnação

Mas não podemos esquecer também o« tempo do galego-português (ou galaico-português, se preferirem), nascido do latim no ângulo noroeste da Península Ibérica, depois da presença romana iniciada em 218 a.C. Outras invasões e conquistas trouxeram outros falares.

E se o latim escrito continuava como língua de cultura e transmissão de conhecimento, o português nascido de uma das línguas peninsulares (galego-português, castelhano e catalão; os bascos não haviam abraçado o latim e assim se mantiveram) viu o seu vocabulário, latino e grego na origem, enriquecer-se com palavras de origem germânica (menos) ou árabe (mais)».

Claro está que não podemos esquecer todas as outras influências, como o Francês e o Inglês e até mesmo o mandarim.

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Fez, no passado dia 26 de Junho, 800 anos que foi escrito o primeiro texto oficial conhecido em língua portuguesa, o testamento de D. Afonso II, de 1214.

Ora o que é marcante não é só facto de  D. Afonso II ter escrito o seu testamento.

«Ele limitou-se a usar uma língua que obviamente já existia e já era usada pelo seu povo.

O simbolismo deste momento e desse marco é que é a primeira vez que isso foi feito. Nunca antes dele, um Rei, um Estado, um soberano usara a nossa língua, escrevera oficialmente a nossa língua», usando as palavras de  José Ribeiro e Castro ao Jornal «Público« do passado dia 27 de Outubro.

São praticamente 300 milhões os falantes de Português pelo Mundo, tratando-se do 5º idioma mais falado no mundo.

400.000 palavras e com palavras técnicas 600.000.

Só no Brasil temos 200 milhões de falantes de Português, tratando-se, portanto, do maior de todos os lusófonos.

O Português é considerado a quinta língua usada na Internet, seguindo-se ao árabe era usado, em 2013, por 135,6 milhões de pessoas, e ao espanhol com os seus 222,4 milhões de cibernautas, segundo um estudo da empresa de estatísticas World Stats o Português tem 121,8 milhões de utilizadores.

Fala-se Português em Portugal;  Brasil; Timor; Angola; São Tomé, Cabo Verde, Guiné e Moçambique, já para não falar de Macau, Goa ou Malaca, ou das nostálgicas teimosias de alguns habitantes de Olivença, ou  de  todos os países onde as comunidades portuguesas emigradas o espalham pelos continentes.

O Português em Angola

De todos os países lusófonos, Angola é — com a natural excepção de Portugal e do Brasil — o país onde a língua de Camões mais se propagou pela população e aquele onde a percentagem de falantes de português como primeira língua é maior. Em todo o país, cerca de 70% dos 12,5 milhões de habitantes falam português.

História

A adopção da língua do antigo colonizador  como lígua foi um processo comum à grande maioria dos países africanos. No entanto, em Angola deu-se o facto pouco comum de uma intensa disseminação do português entre a população angolana, a ponto de haver uma expressiva parcela da população que tem como sua única língua o Português.

Conhecem-se vários casos de famílias africanas onde o mais-velho, o pai, proibia os filhos de falar noutra língua que não o português, mesmo em casa.

Entre 1575 e 1592  estima-se que tenham desembarcado em Angola 2340 portugueses, embora apenas 300 permanecessem em Luanda em 1592, pois 450 teriam sido vítimas de guerras e doenças e os restantes ter-se-iam fixado no interior, onde assimilaram as línguas e culturas africanas. O número de mulheres europeias na colónia seria muitíssimo reduzido, o que significa que a larga maioria dos filhos dos colonos, mestiços, eram educados por mulheres africanas que lhes ensinavam as suas línguas. Em 1605 os jesuítas abriram uma escola em Luanda, mas seria menos para o ensino de crianças e mais para a captação de novos clérigos.

Entre 1620 e 1750 o kimbundu afirmou-se como a língua mais usada em praticamente todos os lares de Luanda e na vida diária da cidade.

O estabelecimento de uma elite afro-portuguesa — que ocupava os principais cargos da administração pública e estava envolvida no tráfico de escravos — foi o factor que mais contribuiu para esta situação.

Embora tivesse um bom conhecimento de português, esta elite era falante nativa de kimbundu ou kikongo. Durante este período deveu-se às escolas instituídas pelos missionários jesuítas, carmelitas e capuchinhos um maior conhecimento da língua portuguesa pelos habitantes do Congo e de Luanda e arredores.

No interior dos territórios controlados pelos portugueses, o português era usado como língua franca entre chefes e comerciantes, mas a maioria da população expressava-se exclusivamente em kimbundu.

Na verdade, os escravos exportados a partir de Luanda, independentemente das suas origens, aprendiam algum kimbundu e eram baptizados nesta língua antes de serem embarcados. Foi para poder interagir e compreender estes escravos que o português Pedro Augusto Dias, radicado no Brasil, publicou “Arte da Língua de Angola” em 1697, a primeira gramática conhecida sobre o Kimbundu.
Entre 1750 e 1822, os portugueses procuraram impedir a crescente africanização, cultural e linguística, da elite afro-portuguesa de Angola, nomeadamente através do decreto de 1765 do governador Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho, que desencorajava o uso de línguas africanas na educação das crianças.

«Mas só a partir de 1850 é que o ensino oficial do português começou a dar os primeiros passos. Depois de Luanda e Benguela foi Pungo Andongo a primeira localidade a ter uma escola oficial do ensino primário.
Os testemunhos da época apontam para a utilização de variedades reestruturadas do português entre as camadas mais pobres das cidades costeiras e arredores. Em 1894, o folclorista e filólogo americano Heli Chatelâin, missionário protestante de origem suíça, ao referir-se ao kimbundu falado em Luanda, define-o como sendo uma mistura de elementos portugueses, enumerando 90 empréstimos do português ao kimbundu, que incluem não só empréstimos lexicais (ex. palaia, praia), mas também gramaticais (ex. poji, pois), bem como vários exemplos de palavras portuguesas adaptadas à morfologia do kimbundu (ex. njanena, janela; jinjanena, janelas).

Apesar de ser um processo impositivo, a adopção do português como língua de comunicação corrente em Angola propiciou também a veiculação de ideias de emancipação em certos sectores da sociedade angolana, facilitando a comunicação entre pessoas de diferentes origens étnicas.

O período da guerra colonial foi o momento fundamental da expansão da consciência nacional angolana. De instrumento de dominação e clivagem entre colonizador e colonizado, o português adquiriu um carácter unificador entre os diferentes povos de Angola.

Com a independência em 1975, o alastramento da guerra civil, nas décadas subsequentes, levou à fuga de muitas centenas de milhares de angolanos das zonas rurais para as grandes cidades — particularmente Luanda — levando ao seu desenraizamento cultural.

Data desta época a construção de enormes zonas de habitações precárias — os musseques, que já os havia mas não em tão grandes proporções — que ainda hoje caracterizam a capital angolana.

Esta deslocação interna haveria, contudo, de favorecer a difusão da língua portuguesa, já que esta se tornaria a única língua de contacto dos refugiados internos entre si e com os habitantes destas cidades. Após a paz entre a UNITA e o MPLA os refugiados que regressaram às regiões rurais de origem levavam já o português como primeira língua».

Tomás Gavino

Pintura da série diálogos de Clotilde Fava

Diálogos

«Adoptado o português como idioma oficial (em Angola), que é inquestionavelmente a língua materna de milhares de angolanos, a questão passa a ser a forma como esta dialoga com os demais idiomas de matriz africana, entre Bantu e não Bantu, nomeadamente o cokwe, fiote, helelo, khoisan, kikongo, kimbundu, ngangela, nhaneka-nkumbi, umbundu, oxindonga, oxiwambo e vátwa. E se o leitor nos permite problematizar um pouco sob o axioma de que cada língua veicula uma cultura, a questão seria: que cultura veicula a língua portuguesa numa sociedade multi-étnica e linguística? Bem, é em nome da cultura, que é por vocação um fruto da partilha, que teremos de evitar radicalismos e complexos, sejam eles de inferioridade ou de superioridade, pois as sociedades são dinâmicas e o fenómeno linguístico é inerente à interação dos povos.

Quando falamos do diálogo que deve existir entre as línguas, é tendo precisamente em conta o cuidado necessário para que o status dado a uma língua, que geralmente corresponde a determinado grupo social, não represente a subjugação de outros».

GOCIANTE PATISSA (Angola), ao Jornal Público.

http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/o-portugues-tem-de-dialogar-1664228

«E se os movimentos de libertação africanos optaram pelo português no momento de escolher uma língua oficial, isso deveu-se à necessidade de evitar divisões (escolher uma língua em detrimento de outra acirraria tribalismos) e ao mesmo tempo de aproveitar o esteio do conhecimento já semeado pelo português».

Nuno Pacheco, Jornal Público

http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/a-velhissima-mae-e-os-seus-diferentes-filhos-1660637

SOMOS DE LÁ

Estamos sem estarmos,
somos sem sermos,
mas somos mesmo assim.
Quem diria
que o nosso capim cresceria
por cima de todos os mapas.

Lá, quando lá vivíamos,
não sabíamos
que sairíamos de casa
num dia que ainda hoje
não anoitece na nossa existência.

Cá, não somos de cá,
e Lá, ficamos do lado de lá
da festa nova geracional,
que desconhece o irmão do século antigo.

Estamos lá em mente e saudade,
e cá enfrentamos a realidade.
Somos de Lá, ainda sem sermos já,
burocraticamente,
pois, vistos e retornados lá,
continuamos de fora como cá,
como antigamente.

Não somos, para os de Lá de hoje, de Lá, agora.
E para os de cá…. também não dá…
para explicar outra vez a História.

José Jacinto

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“A beleza nunca é triste[1]”

Nem os postiços
nem as lembranças
belas

Que é só o mar
no bater das ondas
a tomar o seu banho
nada para desmerecer
as almas
engolidas pela espuma

E se ente soldado é defunto
até voltar da guerra
Tchipa ressuscitou o mundo
na saudade que canta
na frente da chama
“cá na mata, a vida é bela, mamã[2]”
mesmo aos olhos do fado
“a beleza nunca é triste”.

Gociante Patissa, Benguela,

in «Guardanapo de Papel», a sair brevemente sob chancela da editora “NósSomos”, Lisboa, Portugal (escrito a 27.11.11)

[1] Celeste Rodrigues, fadista portuguesa, in entrevista ao programa “Cartaz” (SIC, 26/11/11)

[2] Trecho da canção “Cartinha da Saudade”, do músico angolano Jacinto Tchipa, década de 1980


Responses

  1. Estranho não encontrar aqui muitos comentários… O e-mail estava “escondido” em outras páginas, no meu correio. Gostei imenso de ler


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