Publicado por: Filomena Barata | Setembro 26, 2012

LAGO MALAWI, Isa Pontes

 

  1. LAGO MALAWI

    Margarida

    Cheguei!

    Quase me sinto Kapuscinski nas minhas andanças…
    Estamos em Mangochi, mesmo à beirinha do Lago Malawi. Nem sei se terei palavras para fazer justiça à beleza que me envolve. Cada vez me convenço mais que Deus anda comigo ao colo, por estes dias.
    Gostava de te ter aqui mas o facto de andares a descobrir outros lugares e outras gentes, atenua a minha pena. Assim, quando regressares a Lisboa, vais encontrar esta carta à tua espera. Já sei que irás lançar um berro de raiva e arrependimento por não teres vindo connosco. Deixa lá… Quem sabe … para o ano…
    Ontem chegámos pela tardinha e não houve tempo para mais; foi arrumar bagagens e tratar dos mosquiteiros bem à volta das camas, por causa das tais “queridas castanhudas “ que eu vejo andarem por aí e que, mesmo sem as ver, adivinho-as pelo cheiro nauseabundo que deixam ao passar. Adormeci, embalada pelo violino de Korngold que gravei no meu MP3 (valham-me estas minhas santas inspirações) e acordei para o mundo eram 5 horas da manhã. Não rias, aqui é assim, por essa hora é dia cheio ou a começar, conforme o local.
    Saí da casinha do Resort e passando por entre ervas e pedrinhas soltas, sob palmeiras elegantes que me pareciam sequóias, lá fui caminhando como quem vai à descoberta de um tesouro; meus olhos pareciam-me vidrados de espanto e a minha boca soltava pequenos sons parecidos com orações. África Margarida, África!! Como dizer, como transmitir tanto encanto? O Lago estava ali, à minha frente: o Lago Malawi, o tal que, na outra margem, é Lago Niassa, (como me ensinaram na Escola, quando era obrigatório saber-se de cor os rios, os lagos, as montanhas, as linhas férreas) e eu queria ficar ali, para sempre. Acho que existe naquele lugar um sortilégio, um encantamento.
    Havia, naquela hora em que a aurora matiza as coisas com um manto de transparências cristalinas, uma espécie de névoa silenciosa e flutuante sobre o Lago; o final dele não se via, impossível, ele tem 600 kms de comprimento. Disseram-me que tem peixes azuis e chega a ter ondas de 2 metros de altura. Mas naquele momento estava adormecido, sereno…Parei junto à margem de areia fininha; sentei-me e fiquei ali a olhar e a escutar os mil e um bichinhos que exultavam com a descoberta de um novo dia. Viuvinhas, celestes e pássaros do amor passaram por mim trinando árias de bem-querer; esquilos pequeninos amarinhavam as palmeiras, matreiros e brincalhões e rolas, muitas rolas, começavam as suas cantigas de cortesia. Um sonho! E eu ali, tão pequena, perante a grandiosidade da natureza africana a envolver-me como se fora um manto de mãe protectora, amiga, cúmplice…
    Fiquei ali, enamorada das águas azuis e verdes, deixando o meu olhar navegar sobre aquele manto até à outra margem, bem longe; quedei-me como uma estátua, uma árvore, um tronco e senti-me parte daquele encantamento matinal. Acordei quando os pescadores começaram a chegar, carregando redes sobre as costas musculadas cor de chocolate.
    E é assim Margarida que me perco por este chão sagrado, de onde viemos todos. É assim, mais uma vez, que me encontro. Ao perder-me, encontro-me, compreendes?
    Não é esquisito leres esta carta aí no Bairro de Benfica, ao som de autocarros e businadelas de táxis apressados, num andar de quatro assoalhadas, com uma varanda fechada virada para o cemitério? Minha pobre Margarida…
    Consola-te com o meu abraço e a promessa de que hás-de vir aqui perder-te, também.

    Beijo
    Raquel
    ========================
    D’As Cartas de Raquel

    Isa Pontes

    Foto: LAGO MALAWI

Margarida

Cheguei!
Quase me sinto Kapuscinski nas minhas andanças…
Estamos em Mangochi, mesmo à beirinha do Lago Malawi. Nem sei se terei palavras para fazer justiça à beleza que me envolve. Cada vez me convenço mais que Deus anda comigo ao colo, por estes dias.
Gostava de te ter aqui mas o facto de andares a descobrir outros lugares e outras gentes, atenua a minha pena. Assim, quando regressares a Lisboa, vais encontrar esta carta à tua espera. Já sei que irás lançar um berro de raiva e arrependimento por não teres vindo connosco. Deixa lá… Quem sabe … para o ano…
Ontem chegámos pela tardinha e não houve tempo para mais; foi arrumar bagagens e tratar dos mosquiteiros bem à volta das camas, por causa das tais “queridas castanhudas “ que eu vejo andarem por aí e que, mesmo sem as ver, adivinho-as pelo cheiro nauseabundo que deixam ao passar. Adormeci, embalada pelo violino de Korngold que gravei no meu MP3 (valham-me estas minhas santas inspirações) e acordei para o mundo eram 5 horas da manhã. Não rias, aqui é assim, por essa hora é dia cheio ou a começar, conforme o local.
Saí da casinha do Resort e passando por entre ervas e pedrinhas soltas, sob palmeiras elegantes que me pareciam sequóias, lá fui caminhando como quem vai à descoberta de um tesouro; meus olhos pareciam-me vidrados de espanto e a minha boca soltava pequenos sons parecidos com orações. África Margarida, África!! Como dizer, como transmitir tanto encanto? O Lago estava ali, à minha frente: o Lago Malawi, o tal que, na outra margem, é Lago Niassa, (como me ensinaram na Escola, quando era obrigatório saber-se de cor os rios, os lagos, as montanhas, as linhas férreas) e eu queria ficar ali, para sempre. Acho que existe naquele lugar um sortilégio, um encantamento.
Havia, naquela hora em que a aurora matiza as coisas com um manto de transparências cristalinas, uma espécie de névoa silenciosa e flutuante sobre o Lago; o final dele não se via, impossível, ele tem 600 kms de comprimento. Disseram-me que tem peixes azuis e chega a ter ondas de 2 metros de altura. Mas naquele momento estava adormecido, sereno…Parei junto à margem de areia fininha; sentei-me e fiquei ali a olhar e a escutar os mil e um bichinhos que exultavam com a descoberta de um novo dia. Viuvinhas, celestes e pássaros do amor passaram por mim trinando árias de bem-querer; esquilos pequeninos amarinhavam as palmeiras, matreiros e brincalhões e rolas, muitas rolas, começavam as suas cantigas de cortesia. Um sonho! E eu ali, tão pequena, perante a grandiosidade da natureza africana a envolver-me como se fora um manto de mãe protectora, amiga, cúmplice…
Fiquei ali, enamorada das águas azuis e verdes, deixando o meu olhar navegar sobre aquele manto até à outra margem, bem longe; quedei-me como uma estátua, uma árvore, um tronco e senti-me parte daquele encantamento matinal. Acordei quando os pescadores começaram a chegar, carregando redes sobre as costas musculadas cor de chocolate.
E é assim Margarida que me perco por este chão sagrado, de onde viemos todos. É assim, mais uma vez, que me encontro. Ao perder-me, encontro-me, compreendes?
Não é esquisito leres esta carta aí no Bairro de Benfica, ao som de autocarros e businadelas de táxis apressados, num andar de quatro assoalhadas, com uma varanda fechada virada para o cemitério? Minha pobre Margarida…
Consola-te com o meu abraço e a promessa de que hás-de vir aqui perder-te, também.

Beijo
Raquel
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D'As Cartas de Raquel

Isa Pontes

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