Publicado por: Filomena Barata | Março 20, 2013

Álvaro Silva, Março, este mês

Meus amigos, aqui partilho convosco este pequeno texto com os dizeres da espontaneidade da minha alma, escrito sem prumos, nem arrumos.

Março, mês da mulher, mês também do pai.
Num dia deste Março, fim desta hora vespertina com um calor sufocante que entorperce o cérebro e dá moleza ao corpo de alma cansada pelos amargos do dia a dia perco-me nas minhas lucubrações.
O céu azul, rendilhado por nuvens densas e escuras, anunciam a chuva que se avizinha. Ouvem-se o ribombar dos trovões ao longe lá para os lados do Uíge.
Aqui em Bolongongo a quietude da tarde no seu passar de tempo lento e melancólico, onde o silêncio opressivo é cortado pelo encantador chilrear das andorinhas no seu incessante passar, levando o barro com que pacientemente constróiem o seu ninho no cantinho debaixo do alpendre de paredes brancas do escritório, é o espectáculo que me é dado a apreciar.

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O denso arvoredo de copas exuberantes no balançar suave dos ramos de verdes folhas acariciadas pelo vento, transmitem a sensação de movimentos fantasmagóricos no horizonte entre-cortado pelas sombras da floresta tropical que dá a este recanto perdido do mundo uma singular e peculiar beleza natural.
Os cheiros da chuva e do mato, espargem o seu característico perfume no ambiente, deixando no ar o prazer de saborear estes fugazes momentos, mesmo tendo por companhia a solidão e a nostalgia que o vento transporta para caminhos desconhecidos, levando no seu imaginário regaço as doces lembranças dos momentos felizes outrora vivos com os meus amigos e o retrato do rosto amado de doce sorriso e olhar terno, na terra distante, cuja saudade traça sulvos indeléveis na minha atribulada alma, com a falta do inefável carinho e do toque cálido e suave da mão macia da minha amada.
O vento sopra forte, zunindo nas persianas das janelas e nos tectos das poucas casas aqui existentes. No horizonte o cinzento do céu anuncia a eminência de uma forte enxurrada, próprias da região nesta altura do ano. As copas das árvores frondosas emitem o som característico das folhas despenteadas pelo toque do vento. Uma ténue nuvem de poeira deixa no ar o tom amarelado da terra e convida a recolhimento a todos. Uma andorinha cruz em voô razante o espaço diante dos meus olhos e o meu inexpressivo olhar acompanha o voô que termina debaixo do alpendre de paredes brancas do escritório,onde o ninho tinha acabado de ser construido.
De repente uma intensa luz azulada rasga o negro do céu e o barulho ensurdecedor de um trovão ecoa ruidosamente no ambiente escuro. Uma janela bate forte testemunhado a negligência de quem deveria ter fechado. Grossos pingos de chuva fazem baixar a poeira e pontilham o chão de terra amarela, desta terra amada, que tantas saudades nos corações de quem a ama deixou.
A chuva cai copiosamente, cobrindo de uma branca névoa o espaço e o lugar de onde me encontrava. A terra bebia com sofreguidão a água que a mãe natureza tão generosamente oferecia. Com a testa colada ao vidro da janela meu mundo de sonho parou nas águas pluviais que corriam para destinos incertos, tal como vida que no tempo se esfuma.

Varito.
Bolongongo, 20 de Março de 2013.

Publicado por: Filomena Barata | Março 4, 2013

Dia da Mulher Angolana, Álvaro Silva

Parabéns Angola!

Parabéns Angola!

  • Parabéns Angola!

    Parabéns Mulheres de Angola!

    Bom dia, bom dia meus amigos, meus amigos de cá , bom dia,bom dia meus amigos de lá. Meus amigos de lá , desse Portugal sofrido que vive novamente a esperança de um D. Sebastião que o tire das incertezas e afaste a neblina do horizonte. De cá desta terra cujos filhos ainda lutam para a construção de uma Pátria digna, respeitada e amada por todos.Ontem foi dia 2 de Março foi o Dia da Mulher Angolana e, por tal facto quero aqui parabeniza-las. Na sociedade angolana, a mulher sempre teve um papel de destaque pelo desempenho no seio da familia e não só. Com a independênciacia de Angola o papel da mulher angolana assumiu novos contornos, pois deixou de ter o carácter confinado de casa, do rio e da lavra. A mulher angolana, assume hoje o papel muito activo na vida económica, política e social do país com paticipação de relevo no seu papel de força viva de uma nação que lutou e luta hoje para a criação de um bem estar social para todos os seus f…ilhos. Hoje pode-se ver a mulher angolana a desempenhar altos cargos nos distintos sectores na vida da nação. Essa participação da mulher angolana tem vindo a aumentar. Vemos crescer de ano para ano o número de mulheres com cargos de ministras, governadoras Provinciais, administradores municipais e comunais e com prestações de particular relevância.
    É notório o trabalho interventivo da mulher angolana na luta pela igualdade do género.
    Viva mulher angolana. Parabéns mulheres desta Angola imensa, minha terra, minha mãe.

    Estamos Juntos.

    Álvaro Silva. 

    • Kim Belfoto As mulheres são uns seres muito especiais, tanto em Angola como em qualquer parte do mundo.!!! Às de Angola, porque foi o seu dia Nacional, os meus Parabéns como mulheres e como mães.!!!!!
Publicado por: Filomena Barata | Fevereiro 23, 2013

História de Angola, Filomena Camacho

HISTORIA DE ANGOLA

(por Filomena Gomes Camacho)

Embora nos tempos primórdios não houvesse uma História escrita, cada pessoa idosa tentou constituiu um alter-ego fidedigno ao transmitir, à sua posteridade, toda uma história verbal, tentando preserva-la verdadeira e incólume.
Toda a historia, ao passar de geração a geração, de uma forma verbal, vai sendo, paulatinamente, amalgamada com um pouco do cunho pessoal dos narradores, pois é sempre notória a espantosa fertilidade da imaginação dos expositores…
A grande Família Africana.
A primeira população a invadir Angola foi a BANTU, a chamada “expansão BANTU”. Esta população era oriunda da Africa Central. Fixou-se a Norte e Sul do Rio Zaire e a Noroeste do território Angolano. Este povo dominava, com grande engenho, a siderurgia do ferro. Mais tarde, vieram a formar o povo BAKONGO de língua Kikongo.
Outros povos, talvez atraídos pela grande espacialidade ou riqueza da flora e da fauna atravessaram o Alto Zambeze até o Cunene, formando os designados NGANGUELA, os OVAMBO e os XINDONGA.
No ano de 1568, há uma nova invasão, vinda do Norte, pelo povo chamado JAGAS. Na luta contra os BAKONGO estes, tendo recuado, apossaram-se da região de Kassanje.
No Seculo XVI Angola foi invadida por mais três povos:
Os NHANECAS ou VANYANEKA.
OS HEREROS ou OVAHELELO
Os PORTUGUESES.

 

APRESENTO-VOS O REI ‘MANDUME‘

ALGUEM O LEMBRA?

Por Pindi, no Uíje, em 2013

APRESENTO-VOS O REI ‘MANDUME‘

ALGUEM O LEMBRA?

Por Pindi, no Uíje, em 2013

Os NHANECAS ou VANYANEKA, vindos pelo sul de Angola e percorrendo toda a região do Cunene, acamparam no planalto da Huíla.
OS HEREROS ou OVAHELELO vindos do Centro de Africa – após terem atravessado os Grandes Lagos – caminhado pelo extremo leste de Angola e atravessado todo o planalto do Bié fixaram-se nas regiões que medeiam o Deserto do Namibe e a Serra da Chela, no sudoeste Angolano. Este era um povo ligado a pastorícia.
Os PORTUGUESES, europeus oriundos de Portugal, instalam-se no local que passaram a chamar São Paulo da Assunção de Luanda, a actual cidade de Luanda.

Luanda. Fotografia Filomena Barata

Luanda. Fotografia Filomena Barata

Angola 2010 138

Fotografia Filomena Barata

No século XVIII os OVAMBOS ou WAMBOS e os QUIOCOS ou TCHOKWES entram em Angola.
Os OVAMBOS vindos do baixo Cubango estabelecem-se entre o Alto Cubango e o Cunene. (Estes eram grandes técnicos na arte de trabalhar o ferro),
Os QUIOCOS OU TCHOKWES tendo abandonado Catanga e atravessado o rio Cassai instalaram-se, inicialmente, na região da Lunda, no nordeste de Angola, fazendo mais tarde migração para a parte Sul.
Por último, no século XIX chega um povo vindo de Orange África do Sul, em 1840, tendo por chefe um destemido guerreiro chamado Sebituane. Instala-se no Alto Zambeze e é chamado de CUANGARES ou OVAKWANGALI.
Este povo também ficou conhecido por MACOCOLOS. Do Alto Zambeze alguns fixaram-se no Cuangar Sudoeste Angolano, entre os rios Cubango e Cuando.
Eram frequentes guerras entre estes povos. Migrantes mais tardios combatiam os grupos já estabelecidos para lhes usurpar as terras.
Muralhas, a volta das sanzalas, formavam fortalezas. Podemos observa-las em certos lugares, de Angola, obviamente em ruínas, antigas muralhas, em pedra, especialmente, no planalto do Bié e no planalto da Huíla. Nestes mesmos lugares existem túmulos construídos em pedra e galerias de exploração de minério que notabilizam uma civilização que nos pode deixar estupefactos tal o seu avanço !

Na Lunda Zaire e Cuangar foram encontrados, feitos pelos homens do Paleolítico, instrumentos de pedra e de outros materiais. No Deserto do Namibe existem gravuras rupestres desenhadas nas rochas.
As fábulas e provérbios eram o género literário mais generalizado entre o povo.
As fábulas visualizavam sempre enaltecer o mais fraco – que vencia, pela sua argúcia, tenacidade… o mais forte e prepotente.
Os protagonistas eram sempre animais.
O poema era cantado ao som do batuque e do quissange.

Kissange. Fotografia de Filomena Barata

Kissange. Fotografia de Filomena Barata

Filomena Gomes Camacho
Londres, 22/02/13

Publicado por: Filomena Barata | Fevereiro 21, 2013

Números em Umbundo, Filomena Camacho

Está na “hora” de aprender:

Números/Tu tendi

Umbundu

1 mosi
2 vali
3 tatu
4 kuãla
5 talo
6 epandu
7 epandu vali
8 ecelãla
9 ecea
10 ekui 10 kuinii ou kuinhi
11 ekui la mosi
12 ekui la vali
13 ekui la vitatu
14 ekui la kuãla
15 ekui la vitãlo
16 ekui l’epandu
17 ekui l’epandu vali
18 ekui l’ecelãla
19 ekui l’ecea
20 akui avali
21 akui avali l’umosi ou lamosi
22 akui avali la vivali
23 akui avali la vitatu
24 akui avali la kuãla
25 akui avali la tãlo
26 akui avali l’epandu
27 akui avali l’epandu vali
28 akui avali l’ecelãla
29 akui avali l’ecea
30 akui atatu
40 akui akuãla
50 akui atãlo
60 akui epandu
70 akui epandu vali
80 akui ecelãla
90 akui ecea
100 ocita
200 ovita vivali
300 ovita vitatu
400 ovita vikuãla
500 ovita vitãlo
600 ovita epandu
700 ovita epandu vali
800 ovita ecelãla
900 ovita ecea
1.000 ohulukãi
1.000.000 ohulua
Dias da semana/Oloneke vio semana
Eteke lia mosi segunda-feira – (primeiro dia)
Eteke lia vali terça-feira
Eteke lia tatu quarta-feira
Eteke lia kuãla quinta-feira
Eteke lia talo sexta-feira
eteke epanduvali sábado
Eteke lio usua domingo (dia de descanso)
Meses do ano/Olosãi vi ulima
Cada mês corresponde a um fato regional.
Susu – janeiro: (de susulûha, tirar parte do que havia). Época em
que se conta com o armazenado, e não com os produtos do
campo, que ainda não estão maduros.
Kayovo – fevereiro: (pequeno salvador). O feijão dos altos e
milho das baixas vêm mitigar a fome.
Elombo – março: Época com muita lama das chuvas, e também
mês em que se iniciam as colheitas.
Kupupu – abril: (de pupula, bater) Mês em que se “bate o feijão”
colhido em março.
Kupemba – maio: (de okupemba, espirrar) Despedidas das
chuvas.
Kavambi – junho: (de ombambi, frio) mês em que se começa o
frio.
Vambi inene – julho: mês de muito frio, podendo ocorrer geada
pela manhã.
Kanhenhe – agosto: em quinze de agosto, o anúncio das chuvas
e o começo da primavera.
Nhenhe-vava – setembro: mês de chuviscos e calor forte.
Mbala-vipembe – outubro: dor dos campos baldios, preparação
das sementeiras.
Kuvala kuapupulu – novembro: (de Okuvala, doer e Kuapupulu,
mosquito) mês em que o número de mosquitos aumentam devido
a umidade.
Cemba-nima – dezembro: nega-se a recompensa: com as
chuvas e o calor o capim dos campos atrofiam; Não se vê o
resultado do trabalho no campo.

(por Filomena G. Camacho)

Publicado por: Filomena Barata | Fevereiro 21, 2013

Filomena Gomes Camacho, A Dança

Publicado por: Filomena Barata | Novembro 22, 2012

Álvaro Silva, Luanda acordou molhada

Publicado por: Filomena Barata | Novembro 21, 2012

Álvaro Silva, Somos assim …

Bom dia, meus amigos de Angola, terra da mulata e da tacula. Bom dia meus amigos desse lindo Portugal dos mares nunca dantes navegados.
A todos deixo o que há tempos escrevi em agradecimento aos comentários feitos a um escrito meu.

Somos assim,
porque escrevemos

somos assim,
porque mesmo calados falamos
falamos sem voz,
falamos com a alma,
falamos com o sentir do nosso eu,
falamos ao escrever,
falamos no silêncio
e neste falar de muitas falas
enobrecemos o nosso sentir
com os que como nós
também falam,
mesmo nos seus inopinados silêncios.Álvaro Silva.

Publicado por: Filomena Barata | Novembro 21, 2012

Álvaro Silva, Meus amigos

Meus amigos.

Luanda acordou hoje molhada. A aurora surgiu com o tamborilar dos pingos da chuva no zinco das casas dos bairros suburbanos, imundados de água e de preocupações acrescidas.
As águas lambem com sofreguidão o negro asfalto, castigado pelo calor sufocante do dia anterior.
O ruído caracteristíco provocado pelo transitar dos carros chama a atenção dos ainda poucos transeuntes nos cuidados a ter para não se molharem com os respingos provocados pleos pneus das viaturas que circulam pelas largas avenidas.

O céu cinzento, escuro, ameaçador , testemunha a chuva caida e o prenúncio de novas quedas pluviométricas.
Caminho com cuidado para não molhar os pés nas águas estagnadas nas irregularidades do passeio, protejo-me dos pingos que ainda caem do céu cinzento com uma pasta preta de papeis que levo sempre comigo e com passos precisos e apressados, dirijo-me para a viatura que me levará para o trabalho. Cruzo a rua e sou agraciado com um sonoro – bom dia, chefe -dito pelo segurança do prédio vizinho que de capuz na cabeça e as mãos enterradas nos bolsos do seu casaco preto, para mim olhou no olhar vermelho dos seus olhos cansados pela noite de vigília e da aguardente de má qualidade.
– Bom dia Zé – respondo com simpatia , pois é gente do meu povo que merece o meu respeito pela consideração que me têm e acrescento de seguida;
– Esta chuva foi terrivel . vai trazer problemas na certa – disse-lhe eu.
– Eh!eh! eh , Chefe no fala só – lá no bairro então, assim a água já chegou nas casas.
– Pois é, respondo-lhe enquanto me dirijo para a viatura.
Destranco a porta do carro, entro para o lugar do motorista, ligo a chave e após o tempo recomendado para o aquecimento das velas, dou ao arranque e enquando aquece o motor, ligo o rádio e sintonizo 87.5 FM, que lê as músicas do meu MP3.
Uns escassos segundos de espera, fazem-me olhar para o párabrisas e vejo, folhas e raminhos secos que se desprenderam das árvores que ornamentam a rua da cidade. Minha mão direita num gesto automático segura na manete e ejecta rápidos jactos de água sobre o vidro e as escovas entram em funcionamento limpando o párabrisas e com o melhoramento da visibilidade, meu olhar se fixa no Hiunday vermelho, último modelo com jantes especiais de liga leve, com extras que deram ao carro uma aparência de singular beleza.
O ar húmido e o cheiro das plantas e da terra molhada perfumam o ambiente, a mistura com os odores do pão torrado que emana da pastelaria ao lado.
Meus pensamentos voam, repentinamente para a terra distante e a suadade dos meus invade-me por um momento.
O som dos acordes das guitarras tocadas com mestria ecoam no ambiente fechado da cabine do carro e a voz melodiosa e agradabilissima da diva do fado, no seu imortal”NÃO É DESGRAÇA SER POBRE” enche minha alma de uma estranha nostalgia.

álvaro Silva.

Luanda ,20 de Novembro de 2012

Não gosto ·  · há 17 horas · 

Publicado por: Filomena Barata | Novembro 19, 2012

João Pessoa, UM ANÃO NO SAMBIZANGA

UM ANÃO NO SAMBIZANGA
Autor: João Pessoa

Ali à entrada do Sambila, próximo da estrada que vai para o Cacuaco, há uma pequena casa de família, que como é típico, tem um quintal ao lado, onde há galinhas e porcos. Esta que eu quero descrever, além de casa de família, tinha também uma dependência, com porta para a rua, que servia de Bar, com capacidade para seis ou sete mesas. Ali serviam-se Cerveja, gelada dentro do possível, jinguba, feijoada, servida em pratinhos como aperitivo e com muito jingungo.

O chefe de família, o velho Kalukembe, fazia luxo em servir com qualidade e por isso a sua casa começava a ter fama nas redondezas. De tal modo, que era muito difícil encontrar uma mesa livre.
Em frente, havia um descampado, onde se costumava organizar grandes espectáculos populares. E também, grandes farras, onde se dançava, até às quatro ou cinco da madrugada.
Aliás, aquele descampado serviu, no tempo próximo da dipanda, quando, naquela época, se atravessava um período difícil de criminalidade, para julgamentos populares e respectiva, execução. As autoridades daquele tempo decidiram fazer um julgamento exemplar, para travar os homicídios por ladrões que não hesitavam em matar só para obter as bikuatas que queriam roubar. Foram apanhados seis assassinos de homens e senhoras, todos moradores ali no bairro ou nas redondezas.

Foram condenados à forca!

Nesse dia, Kalukembe, fechou a portas e janelas. Fechou as janelas de vidro, os estores e as portadas de madeira que ficavam por dentro. E ainda correu os cortinados. Apagou a luz e mandou os miúdos brincarem no quarto, autorizando-os a fazerem todo o barulho que quisessem. A mulher, podia ficar na cozinha, mas sem abrir a porta, nem sequer ir lá fora. Ele foi para a sala com o sogro. Sentaram-se, cada um no seu sofá. Ligou o rádio e estava a cantar o Dionisio Rocha com os seus Negoleiros do Ritmo. Ouviu e acalmou-se um pouco mais. Logo a seguir, começou a cantar o velho Elia Dia Kimuezo, era o seu grande ídolo de miúdo. No intervalo, entre uma música e outra, ainda ouvia gritos lá fora, mas ele tudo fazia para abafar toda aquela tragédia. Põe o som no máximo, o sogro, já bastante surdo, pensou que era por causa dele e agradeceu-lhe. Foi quando começou a cantar o Sabú e a mandar o seu charme musical habitual.
Veio a noite e Kalu fez saber a toda a família que não queria conversas sobre os enforcamentos. Na verdade, ele não sabia se eram enforcamentos ou fuzilamentos, porque a certa altura escutou tiroteio durante algum tempo. Seja como for, ele não queria saber de nada. Apetecia-lhe esconder a cabeça na areia, para não pensar no assunto.
Passados estes anos todos, ali o largo, continuou a ser o local de convívio popular.
Agora era o circo.
Montavam uma grande tenda onde apresentavam malabaristas, palhaços, mágicos e animais amestrados.
Os altifalantes, debitavam mega decíbeis, anunciando os seus artistas.
Agora, convém dizer que era bastante amigo da família de Kalukembe, o que quer dizer que havia sempre mesa livre para mim.
Eu saía da fábrica de confecções e tecelagem, onde era gerente, por volta das cinco e tal e, regra geral, antes das seis, já lá estava.
Tinha sempre uma pequena conversa com o meu avilo Kalukembe, e rapidamente, dentro do possível, servia uma Nocal fresca. E digo, dentro do possível, porque a energia eléctrica, faltava com muita frequência. O mais-velho, o Kalukembe, ou Kalu, como também era conhecido, tinha sempre celhas cheias de gêlo, para manter frescas as cervejas, mas quando a luz demorava a chegar, bebia-se assim mesmo!

Eu ficava acompanhado na mesa, por colegas da fábrica e que moravam ali perto, para saborear uma boa conversa, onde falávamos dos mambos do dia.
Desde que o circo estava ali montado e que começava o espectáculo por volta das oito da noite, eu notava que, de tarde, aparecia um individuo, pequenino, com uma bengala, onde se apoiava, e bebia a sua cerveja. Ficava de pé, sózinho, sem conversar, olhando para o chão, com semblante triste. Triste e preocupado. Era o Anão do circo. O artista do grupo de palhaços, pensava eu.
Um dia, ele entrou, eu, como estava só, na mesa, convidei-o para se sentar. Ele aceitou.
E começou a conversa de circunstância. Como se costuma começar qualquer conversa sem rumo. Perguntei-lhe se morava ali no Sambizanga. Aquela pergunta, parecia uma torneira que eu tinha aberto. O Anão, começou a falar e a contar toda a sua vida. Dava a impressão, que tinha vivido isolado no mundo e que, de repente, tinha chegado a um povoado, cheio de gente, onde ele podia falar à desfilada.

“Não senhor, eu nasci no Saurimo, mas depois, por causa da guerra, fui para o Huambo. No Huambo, conheci um Namibiano e fui para Windhoek e ali, o dono dum circo quis contratar-me e eu aceitei. Então passei a ser o Homem-bala. De princípio eu tive medo, mas a vontade de sair da miséria era tanta, que aceitei imediatamente. Quando me disparavam, eu no ar, sentia-me voar para a nova vida. De tal modo me sentia bem que, no ar, eu fazia o meu corpo, parecer uma bela ave, voando para a liberdade.”
Eu interrompi-o, só para lhe dar oportunidade de ele respirar e então, disse, “julguei que fizesse parte do grupo de palhaços.”

“Na verdade há outro anão no circo e esse é palhaço. É mais importante que eu. Quer dizer, era! Na verdade, as pessoas começaram a gostar mais de mim e eu comecei a ser o artista mais pretendido. Mas, infelizmente, qualquer dia vou ser despedido.”
Despedido?, porquê?, perguntei espantado. Então, estão a gostar tanto de si…
Eu ainda não disse, mas o anão chama-se Karbolovulokiala. Por questão de princípios, não gosto de gozar com ninguém! Mas, olhei para o anão, tão pequeno, mas com um nome tão grande, que tive de fazer força para não mostrar cara de gozo.

Deixem-me tratá-lo por “Karbo”, para simplificar as coisas. Ele já ia em quatro ou cinco Ekas, a cerveja que ele gostava. Começava a arrastar as palavras. Eu achava que ele tinha que parar, eu então o canhão ficava sem munição…
Ele, não me respondeu logo. Olhou para o chão, limpou o nariz com as costas da mão e bebeu mais um gole.
Então, de que tem medo?, insisti.
Ele olhou para mim, depois olhou ao redor, parecia ter medo que o ouvissem e balbuciou algo que não percebi nada.
Desculpe KarbolovuloKiala, (conforme pronunciava o nome, esforçava-me por parecer natural)não entendi.

“Estou a crescer!”, disse-me ele quase ao ouvido e já deitando um bafo de cerveja, capaz de embebedar qualquer um!

De facto, um anão só tem emprego num circo por ser pequeno. Quanto mais pequeno, melhor.
“Estou a crescer quase todos os dias!”
Verdade?, mas olhe que eu tenho-o visto há uma semana todos os dias e não noto nada.
“Mas eu sei!”disse perentoriamente!
Karbo, deixe-me tratá-lo por Karbo, pode ser?
“Claro!”
Olhe, você vá descansar um pouco, porque logo tem trabalho e você não pode faltar. Aí, sim, pode ser despedido. Ele concordou e foi embora, pegando na sua bengala de madeira e cambaleando um pouco.
Fiquei a matutar no assunto e em conversa com Kalukembe, contei a estória do anão. “Eh pá, ele já é kota e bem kota, já não pode crescer!”

Tens razão, deve ser um problema na cabeça do sócio KarbolovuloKiala! (ao pronunciar o nome, o velho Kalu, começou a rir bué e não conseguia parar) Sabes como é são estas coisas desta gente diferente. Têm complexos que chega! Vamos tentar ajudá-lo, coitado. Vamos medi-lo todos os dias, que dizes?
“Boa! Vou fazer umas marcas na parede com a fita métrica.”

Bem, o circo tem sido um sucesso há meses.Todos os dias com enchentes e o Homem-Bala era o maior sucesso. Mas Karbo, continuava triste apesar de nós o medirmos todos os dias e nem um centímetro crescia! Aliás, fizemos a marca da altura dele e da bengala.
“Como pode ser isso, se eu sinto a bengala mais baixa e o Maló nota que eu estou mais alto?!”, quase que gritava com desespero!

Óh pá, isso é outra coisa! Já podias ter dito!- com o convívio, já nos tratávamos por tu! Esta conversa fazia-me pensar noutra coisa entre os anões. Os sapatos, têm sempre um salto muito alto, para disfarçar a sua pequena estatura, por isso eles usam duas bengalas; uma mais alta, para fora do circo, outra, mais baixa, para quando estão no circo.
Karbo, tu achas que o Maló está mais alto que tu?
“Claro, ele já fez a medição várias vezes, no quarto onde dormimos os dois e ele está mais baixo que eu!”
Bem, nesse caso, estás a crescer, não há dúvida!
Kalu olhou para mim e fez uma careta, dando a impressão que duvidava. Quando Karbo se foi embora para o trabalho, perguntei ao Kalukembe o que ele pensava.
“Então pensa comigo, nós há quase um ano que medimos o kamba Karbo todos os dias e ele não cresceu nem um milímetro, como é que o outro está mais baixo que ele? Só se é o outro que está a minguar, o que não acredito. Portanto, aqui há coisa…”
Fazia sentido isto! Fui para casa pensar no assunto.

No dia seguinte, Karbo não apareceu. Nem nos dias seguintes.

Um dia cheguei ao Bar, um pouco mais cedo, porque lá na fábrica não se pôde trabalhar, porque a luz faltou e não voltou. Mais um dia sem trabalho, mais prejuízo para a nação. Sentei-me na mesa habitual com os meus colegas e esperámos pelo pitéu para pancarmos.
Veio o velho Kalukembe, a disparatar com a mulher porque ela estava a demorar a fazer a feijoada e o pessoal à espera. Ele sentou-se connosco e ficou ao meu lado enquanto o empregado veio atrás dele com a cerveja para todos. “Hoje vamos beber, como está, melhor não há!”, rimos todos com a piada dele. Não perdi tempo e dei-lhe uma cotovelada para ele olhar para mim e disse-lhe que era preciso falar do Karbo.

Entretanto D. Maiomona, trouxe a desejada feijoada. Cheirava que era uma delícia. Enquanto nos servíamos, vejo pela janela que ficava à minhha frente, o pequeno Karbo, quase sem bater com bengala no chão, muito sorridente, atravessando a rua na nossa direcção.
Ao entrar, mandei-lhe uma boca chata, daquelas que não dão tempo de pensar, “não me digas que agora encolheste!”, ele e os outros olharam para mim como que a reprovador o que disse, enquanto eu fazia um sorrizinho estúpido, metendo o gargalo da garrafa, como se isso trouxesse a palavra já dita.
KarbolovuloKiala, com o ar mais feliz de sempre, falava a gritar, tal era o entusiasmo.
“Descobri!, o sacana do Maló, invejoso do meu sucesso, estava a tentar que eu fosse despedido. Ele estava a serrar, de vez em quando, a bengala, para eu pensar que eu estava a ficar mais alto.”
Mas nós avisámos-te que não estavas a crescer!, nós medimos-te, nós sabiamos!
“Pois, mas ele não aguentou a pressão e notou que vocês me ajudaram cada vez mais, e sentiu que a qualquer hora seria descoberto”.

Eh pá, isso não pode ser meu kamba, tu mesmo disseste que ele estava mais baixo! Portanto, não pode ser, não venhas agora endrominar-nos.
Karbo, olhou para nós, bebeu uns bons goles, com um à-vontade nunca visto. Todos ficámos à espera, ansiosos, da resposta dele. Ele levantou-se, isto é, colocou-se em cima da cadeira, e disse com voz grave e calma:

“Também serrava os tacões dos sapatos dele.”

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Publicado por: Filomena Barata | Novembro 17, 2012

A Música, Filomena Gomes Camacho

 

Kissange. Fotografia de Filomena Barata

 

A MÚSICA

A música africana, sobretudo a de Angola, foi-se introduzindo, na Europa, de forma subtil e paulatina. Hoje, músicos Angolanos são aplaudidos, entusiasticamente, e o ritmo da dança vai fazendo vibrar cada vez mais grandes camadas de jovens e não só!

Ao fazermos uma retrospectiva, no tempo, de centenas de anos, iremos encontrar instrumentos musicais, ligados a cada um dos povos de Angola. Instrumentos que, na sua forma primitiva, rústicos, não perderam, através dos tempo, a sua actualidade.
Façamos aqui uma pequena explanação:
…Quissangue: mais vulgarizado entre os BANTOS, era o que mais se adaptava para acompanhar qualquer tipo de canção. Não era dispendioso o seu fabrico, nem difícil o seu transporte. As notas ressoavam dolentes e melodiosas. Era o confidente, sempre à mão, nas noites de nostalgia…nas longas e penosas viagens…no saudosismo à terra…à família…
Batuque: instrumento hoje difundido, mundialmente, em todo género de música e generalizado, desde sempre, entre as várias etnias que compõem a grande Família Angolana: QUIMBUNDOS, UMBUNDUS, QUIOCOS, LUIMBES, BANTOS…
Os tocadores de batuque, fazem-no ecoar, por toda a floresta, num misto de temor, sedução, embriaguez, magia… Ele é o mensageiro da guerra, dos bailados, das festas da puberdade, dos cultos à Natureza!… (Que saudades do batuque!!)
Para além destes dois referidos instrumentos, existiam ainda: o chiuáiauáia, o canguxi, o chingufo, o cacoche, o mucupiela e a marimba, estes mais ou menos conhecidos entre todas as regiões daquele País imenso!
A escola – para a aprendizagem de música – não existia, mas cada Africano nasce já com a vibração do ritmo no corpo e na alma…Filmena Gomes Camacho

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