Publicado por: Filomena Barata | Março 20, 2013

Álvaro Silva, Março, este mês

Meus amigos, aqui partilho convosco este pequeno texto com os dizeres da espontaneidade da minha alma, escrito sem prumos, nem arrumos.

Março, mês da mulher, mês também do pai.
Num dia deste Março, fim desta hora vespertina com um calor sufocante que entorperce o cérebro e dá moleza ao corpo de alma cansada pelos amargos do dia a dia perco-me nas minhas lucubrações.
O céu azul, rendilhado por nuvens densas e escuras, anunciam a chuva que se avizinha. Ouvem-se o ribombar dos trovões ao longe lá para os lados do Uíge.
Aqui em Bolongongo a quietude da tarde no seu passar de tempo lento e melancólico, onde o silêncio opressivo é cortado pelo encantador chilrear das andorinhas no seu incessante passar, levando o barro com que pacientemente constróiem o seu ninho no cantinho debaixo do alpendre de paredes brancas do escritório, é o espectáculo que me é dado a apreciar.

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O denso arvoredo de copas exuberantes no balançar suave dos ramos de verdes folhas acariciadas pelo vento, transmitem a sensação de movimentos fantasmagóricos no horizonte entre-cortado pelas sombras da floresta tropical que dá a este recanto perdido do mundo uma singular e peculiar beleza natural.
Os cheiros da chuva e do mato, espargem o seu característico perfume no ambiente, deixando no ar o prazer de saborear estes fugazes momentos, mesmo tendo por companhia a solidão e a nostalgia que o vento transporta para caminhos desconhecidos, levando no seu imaginário regaço as doces lembranças dos momentos felizes outrora vivos com os meus amigos e o retrato do rosto amado de doce sorriso e olhar terno, na terra distante, cuja saudade traça sulvos indeléveis na minha atribulada alma, com a falta do inefável carinho e do toque cálido e suave da mão macia da minha amada.
O vento sopra forte, zunindo nas persianas das janelas e nos tectos das poucas casas aqui existentes. No horizonte o cinzento do céu anuncia a eminência de uma forte enxurrada, próprias da região nesta altura do ano. As copas das árvores frondosas emitem o som característico das folhas despenteadas pelo toque do vento. Uma ténue nuvem de poeira deixa no ar o tom amarelado da terra e convida a recolhimento a todos. Uma andorinha cruz em voô razante o espaço diante dos meus olhos e o meu inexpressivo olhar acompanha o voô que termina debaixo do alpendre de paredes brancas do escritório,onde o ninho tinha acabado de ser construido.
De repente uma intensa luz azulada rasga o negro do céu e o barulho ensurdecedor de um trovão ecoa ruidosamente no ambiente escuro. Uma janela bate forte testemunhado a negligência de quem deveria ter fechado. Grossos pingos de chuva fazem baixar a poeira e pontilham o chão de terra amarela, desta terra amada, que tantas saudades nos corações de quem a ama deixou.
A chuva cai copiosamente, cobrindo de uma branca névoa o espaço e o lugar de onde me encontrava. A terra bebia com sofreguidão a água que a mãe natureza tão generosamente oferecia. Com a testa colada ao vidro da janela meu mundo de sonho parou nas águas pluviais que corriam para destinos incertos, tal como vida que no tempo se esfuma.

Varito.
Bolongongo, 20 de Março de 2013.


Responses

  1. Gostei! Onde fica Bolongongo?

  2. Varito, essa imagem não é do Bolongongo, pois não? A minha memória não pode estar assim tão mal. Eu nasci aí, em 1952…
    Um abraço

    João Cabral

  3. Obrigada. A tua escrita transporta-me, em segundos, para terras de Malange


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