Publicado por: Filomena Barata | Março 11, 2014

Luanda despertou molhada, Álvaro Silva

Alvaro Silva
Bom dia , Bom dia meus amigos.
Quero aqui partilhar isto que aqui escrevo , de forma espontânea, sem prumos nem arrumos.Luanda despertou molhada.
A chuva caiu devagar, lentamente e molhou a terra sedenta. Os pingos refrescaram os escaldantes tectos de zinco das casas dos musseques que clamavam por uma trégua ao calor sufocante dos últimos dias. A chuva tamborilou e arrancou o som característico no seu bater na chapa de zinco, trouxe a saudade lembrada dos tempos de criança e molhou alegremente as ruas empoadas da cidade.
As crianças brincam inocentemente nas águas vermelhas de terra que arrastam o lixo para os esgotos de céu aberto. A água caída das nuvens carregadas acumulam-se em autênticas lagoas formadas nos buracos das ruas ainda sem asfalto. A lama salpica as paredes caiadas de branco das casas do musseque, levantada pelas rodas dos carros que transitam displicentemente pelo chão irregular das estradas de terra batida.
Mulheres e crianças depositam apressadamente os recipientes de plástico de cores diversas nas goteiras para o aproveitamento da água que escasseia e assim aumentarem o suprimento do tão procurado líquido.
Nos bairros pobres a chuva é alegria , mas é também preocupação, pois traz trabalhos e cuidados acrescidos as mães cujos filhos irrequietos em grupos de miúdos encontram nas lagoas perigosas o local ideal para os seus folguedos de criança. É vê-los de olhos brilhantes , corpos franzinos , magros ,nus de sorrisos rasgados mergulharem , alegremente nos charcos de água que arrasta o lixo e os dejectos onde inocentemente brincam, alheios a tudo.
Na cidade de asfalto, o céu cinzento de nuvens baixas, descarrega generosamente a água que lava o negro tapete e deixa no ar o cheiro de terra e asfalto molhados.
Homens, mulheres e crianças de batas brancas vestidas a caminho da escola abrigam-se apressadamente da chuva debaixo dos prédios e dos alpendres das ruas por onde passam . É grande a confusão. Passeios apinhados de gente que sobe, de gente que desce, gente que corre, gente que caminha apressada, . Trânsito desordenado onde os candongueiros são ao actores principais desta peça na sua forma indisciplinada de conduzirem a margem do que as regras de trânsito preceituam.
Do alto dos prédios a água cai , generosamente, escorre pelas paredes de betão e ruma em direcção as sarjetas, desaparecendo no interior do tapete asfáltico.
O céu escuro deixa a sua cor cinzenta triste que cobre a cidade e esconde na sua imensidão o horizonte para lá do mar, para lá da terra distante, onde a minha saudade morre na lembrança daqueles que amo.
A chuva amainou o calor, secou os suores, refrescou a terra e as suas gentes.
A chuva trouxe a saudade, trouxe a nostalgia dos tempos que o tempo marcou no passado.

Luanda, 11 de Março de 2014.

 

Fotografia Filomena Barata

Fotografia Filomena Barata


Responses

  1. Quem me dera ter despertado nesta Luanda… e depois seguir logo para o Lubango e Chibia, a minha terra! Obrigada, Álvaro


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