Publicado por: Filomena Barata | Maio 28, 2013

Álvaro Silva, Maio

Mussende
Mussende
Fotografias: Alvaro Silva
Igreja-de-Vila Terreiro Bolongongo. Kuanza-norte-Angola.

Igreja-de-Vila Terreiro Bolongongo. Kuanza-norte-Angola.

Aos meus amigos, sem prumos nem arrumos, de forma espontânea convosco partilho este meu sentir da alma. Para os amigos a vénia pela complacência, para os críticos minha mão a palmatória.

Bom dia, bom dia meus amigos, bom dia , bom dia meus amigos de cá e de lá.

Estamos em Maio, nos finais deste bonito mês do ano que tudo muda, muda estação em Angola, passamos do tempo das chuvas para o tempo seco, tempo do cacimbo, tempo do frio, tempo das queimadas, tempo da caravana como diziam os antigos.
As manhãs são frias e cinzentas, com o cacimbo espesso pintando de branco imaculado a paisagem, deixando ver por entre os seus retalhos os contornos negros das árvores e das construções que contrastam com o fino e branco manto do cacimbo.
No ar a brisa fresca matutina, leva os odores do fumo das queimadas e as cinzas do capim para lugares distantes. Um perfume característico invade-nos as narinas e trazem-nos as saudades dos tempos que o tempo levou.
Escuta-se o chilrear dos passarinhos na sua faina para alimentar os filhotes que ainda implumes e indefesos aguardam impacientes com agudos piares a primeira refeição do dia.
Nas estradas cobertas de pó os pés descalços das gentes do povo madrugador, calcam com firmeza a terra amarelada amaciada pelo pó que a seca provocou. Caminham firmes com passos determinados levando a cabeça as bacias plásticas, contendo as ferramentas para a faina na lavra e os parcos ingredientes para a preparação da refeição no campo. Nas costas, amarrados com panos de cores berrantes os bebés que fazem do balançar do corpo da mãe o embalo para o sono inocente até o despertar para a primeira mamada, nos seios magros e caídos da mãe que com amor os transporta.
Seguem em fila indiana as mulheres a caminho das lavras em busca do sustento. Na alma a vontade e determinação desta incansável mulher angolana, cuja única ambição é ter mandioca, quizaca , milho e fuba para alimentar os seus. São magros os seus anseios , como magros são as suas ambições. São felizes e vivem satisfeitos com o que a vida e a mãe natureza lhes dá. Vivem fora do mundo, mas dentro do seu mundo, onde ainda a civilização não inundou com os males de que o mundo civilizado padece e reclama.
Caminham com a certeza de que o amanhã será outro dia e que depois do cacimbo virá a chuva que trará a abundância e os sacrifícios e suores vertidos neste cacimbo serão recompensados com o verde exuberante das suas culturas.
O Sol desponta tímido no horizonte, rasgando com a sua luz amarela o branco frio do cacimbo que teima em permanecer ainda por sobre as copas das árvores mais altas.
No ar ficou o chilrear alegre dos pássaros que quebram a monotonia do ambiente.

Bolongongo,28 de Maio de 2013.

Varito.

 

Fotografias abaixo de:


Responses

  1. Gostei!


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