Publicado por: Filomena Barata | Abril 26, 2013

O que foi para mim o 25 de Abril, Filomena Barata

A todos os que acreditam que é possível existir maior IGUALDADE, LIBERDADE E FRATERNIDADE, sabendo que para isso é preciso continuar a lutar todos os dias.

Sei que nasci em Angola, numa família maioritariamente constituída por Despachantes Oficiais, que já aí vivia há três gerações.
Ao meu pai ouvira falar do seu envolvimento, julgo que distanciado, mas atento, com o que defendia Humberto Delgado.
Mas tive quatro pessoas que me marcarão toda a vida, pelas longas reflexões sobre a situação que se vivia no país que me viu nascer, Angola, então colónia portuguesa e que me ajudaram a moldar a mentalidade e o pensamento político:
Bicas Mira, com quem partilhava a inquietude ou mesmo a irreverência, ainda sem saber bem de que forma a canalizar.
Aloisio Cruz, amigo de bairro e colega de filosofia, mestiço de cor e de todas as cores no coração. Ingenuamente ainda e sem que um pensamento político nos estruturasse de facto, tecíamos considerações sobre a igualdade e a desigualdade, sobre o sentido das coisas e do viver.
Contudo, foi com ele que fui gritar no dia 25 de Abril pela Liberdade, junto ao Governo Distrital de Malanje, cidade onde vivíamos.

O António Martinho que tanto gostaria de reencontrar um dia e que me ensinou o milagre da fotografia revelada com líquidos e que produziam milagrosamente imagens, e que, porque em Portugal já acompanhava o “Movimento do Rato”, me ensinou o que era a seara Nova, o Jornal do Funchal, de que curiosamente e pese todas as dificuldades da descolonização, ainda consegui trazer alguns exemplares (poucos) para Portugal.

Nunca mais deixei de ler e se a vida me ceifasse o que dela deixaria seriam livros e histórias contadas.


Com ele ouvi, pela primeira vez, «O soldaninho não volta … do outro lado do mar» que muito o comovia, pois aos 20 anos, por ter reprovado no Técnico, porque as suas actividades políticas o haviam desviado do estudo, à “guerra colonial” havia ido parar.

O António Manuel Natividade Coelho também estudante do IST e que, pelos mesmos motivos, à tropa não pôde fugir, pese todas as tentativas familiares de disso o isentarem.
Sofreu as agruras de uma zona longínqua e um dos palcos mais ferozes da guerra em Angola: Zala. Ainda conservo comigo alguns slides desse “acampamento militar”, onde jovens soldados elouqueceram do que viram, passeando-se alguns com camaleões presos por um cordel.
Com ele pintei, para o cinema de Malanje, uma faixa do Primeiro Congresso do MPLA nessa cidade.
E assim me tornei eu simpatizante desse movimento, mais particularmente da OMA embora me tenha desiludido numa fase posterior com o célebre julgamento popular de Luanda, entre outras coisas terríveis que a guerra sempre traz.
Dessa altura me ficaram os poucos objectos que consegui trazer para Portugal e que ainda hoje conservo comigo (na fotografia).
Mas quem me deu a notícia do golpe de Estado, rua fora apitando no seu “Mini” foi a Lurdes Alves, ainda hoje minha amiga, e que assim dava voz pela cidade de um acontecimento cujos contornos não conhecíamos, mas que muitos de nós acreditámos poder significar uma mudança desejada.

Não vos falarei das desilusões, da monstruosa guerra civil que vi rebentar em Angola, de algum espírito de vingança, compreensível mas atemorizador, a que se assistiu contra os Portugueses, “culpados” ou não da situação vigente até aí! Eram afinal o rosto dos “colonos” naquele momento.
A História disso se encarregará, não este testemunho.
Sei que durante muitos anos senti a estranheza de afinal não pertencer a país nenhum, pois o da minha origem tive que abandonar, com o agravamento da guerra.
Esse que, em período colonial até os seus maltratava, chamando-lhe «portugueses de segunda», como ainda constara no BI do meu pai.
Em Portugal fui depois “retornada”, coisa que nunca entendi o porquê da designação, pois aqui a nenhum lugar tinha retornado, porque apenas de férias o conhecera.

Hoje sei que sou Angola e Portuguesa em qualquer lugar do Mundo.
Acredito na DEMOCRACIA que Abril instalou e creio que o meu lugar é o Atlântico, ou num Templo onde estão de todas as cores e credos os que acreditam que é possível lutar pela IGUALDADE, LIBERDADE E FRATERNIDADE.

Hoje, ainda no rescaldo de ter ouvido ontem quatro testemunhos extraordinários e comoventes sobre o que tinha representado o 25 de Abril, sei que pertenço a esse lugar onde me reconhecem também.

Mas guardo também esta enorme capacidade de pertencer a um Mundo que é de todos, mas não de ninguém em particular!

VIVA O 25 DE ABRIL. SEMPRE!

(Foi escrito a “quente”, sem pensar, mas a este testemunho voltareiImagem


Responses

  1. Filomena, gostei muito do teu testemunho. Distraí-me com as notificações dos posts, que deixei “escorregar” para baixo, empurradas por tantos e-mails só com “coisas” que vários amigos mandam diariamente (o que me impacienta um pouco, confesso). Hoje resolvi começar pelos antigos. Coincidência: acabei de ler um livro, mal editado e mal distribuído, que deu ecos destas tuas (e algumas minhas também, deixa-me dizer) vivências, embora se “situe” na Guiné-Bissau: vale a pena ler “Rosa no país das flores da luta”, de Maria do Céu Mascarenhas.
    Um abraço e obrigada

    • Obrigada pelo comentário. Tentarei ler também o testemunho de que falas.


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