Publicado por: Filomena Barata | Novembro 3, 2012

Tomás Gavino Coelho, A PRODUÇÃO LITERÁRIA DOS AUTORES DE ANGOLA NO REGIME COLONIAL

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DOS AUTORES DE ANGOLA NO REGIME COLONIAL

 

Enquanto decorria a elaboração da Bibliografia de Autores de Angola, naturais ou naturalizados, logo se evidenciou uma situação que antes poderia não ocorrer com tanta clareza: a do peso castrador que o sistema colonial exerceu sobre a produção literária dos filhos de Angola.

A população nativa era olhada e usada apenas como força de trabalho e só muito poucos, os filhos de uma pequena elite já aculturada e europeizada, conseguiam sobressair. Foi o caso de José da Silva Maia Ferreira, homem culto e viajado, filho de um português e de uma senhora de Luanda que, após os estudos concluídos em Portugal e no Brasil, publicou em 1849 aquela que viria a ser a primeira obra de um filho do país: “Espontaneidades da minha alma”, um livro de poesia com dedicatória às senhoras da sua terra, mas onde a forma, o estilo e o vocabulário pouco têm de África, de Angola.

Só após um longo hiato de quarenta e dois anos um outro angolano publicaria a sua primeira obra, também um livro de poesia intitulado “Delírios”, em 1891: Joaquim Dias Cordeiro da Matta. O livro foi lançado numa época de forte efervescência popular à volta do ultimato britânico sobre a questão do Barotze e do mapa cor-de-rosa, um tempo em que jornalistas e outros literatos apenas viam os seus escritos impressos nos jornais, revistas e almanaques da colónia, mas onde já expunham claramente ideias autonomistas e independentistas. Nomes como Pedro da Paixão Franco, Urbano de Castro, Silvério Ferreira ou Francisco Castelbranco, entre outros, foram muito importantes para a discussão dessas ideias, amplamente difundidas pela imprensa da época, debate que se prolongaria ainda para o século XX.

Mas voltemos aos livros. No ano seguinte, em 1892 portanto, um outro angolano conseguia ver o seu livro publicado, depois de inicialmente o ter visto em folhetins, tanto em jornais de Portugal como em jornais de Angola. Tratava-se de Pedro Félix Machado, também ele mestiço e estudante em Portugal onde cursou Direito. O seu livro, intitulado “Scenas d’África: ? – Romance íntimo”, já se destaca por conter um forte cariz regional, já é de Angola e dos seus costumes que se fala, ainda que escrito num estilo algo queirosiano, europeu portanto.

A seca de produção, contudo, continuava, e só dezassete anos depois, em 1909, Augusto Thadeu Bastos, o filho de um abastado comerciante da Catumbela, publica “Traços gerais sobre a etnografia do Distrito de Benguela”.

Três anos depois, em 1912, Pedro da Paixão Franco publicava em Portugal o seu livro “História de uma traição”, um libelo acusatório contra antigos companheiros, jornalistas como ele, fruto ainda do rescaldo dos debates na imprensa angolana iniciados em finais do século XIX.

Continuando na senda dos grandes hiatos temporais surge, quinze anos depois, em 1927, a primeira obra de Óscar Ribas, um livro de poesia intitulado “Nuvens que passam”. Dois anos passados, em 1929, vem a público “História de Angola”, a primeira abordagem do tema sob o olhar de um filho do país: o luandense Alberto de Lemos.

Entramos na década de 30, período em que quatro autores conseguem publicar: Francisco Castelbranco, também à volta da história, publica, em 1935, “História de Angola: desde o descobrimento até à implantação da República (1482-1910)”. No mesmo ano, António de Assis Júnior estreia-se com o seu “O segredo da morta”. Dois anos depois, em 1937, Geraldo Bessa Victor aparece com “A poesia e a política” e, mais dois anos passados, em 1939, surge Tomaz Kim com “Em cada dia se morre”.

A década de 40 abre com bons prenúncios: logo em 1940 o benguelense Ralph Delgado publica “A famosa e histórica Benguela: catálogo dos governadores (1779-1940)”, e Maurício Soares, um descendente de colonos madeirenses, publica “… e Ramiro também ficou”. Em 1944 vem a público uma outra obra, desta vez de uma mulher que será a primeira angolana a publicar um livro: Lília da Fonseca com “Panguila”. Mas só no fim deste período, em 1948, três novos títulos surgem: “Silêncio” de Humberto da Sylvan, “O imbondeiro maldito” de Mário Milheiros, também este descendente de colonos madeirenses da Humpata, e do malanjino Alfredo Diogo Júnior o livro“Angola: a ocupação holandesa e a restauração: factos determinantes”.

Já se revela mais pujante a década de 50 onde os assomos de uma elite literária começam a surgir. Logo em 1950 Manuel Júlio de Mendonça Torres redige “O Distrito de Moçâmedes nas fases da origem e da primeira organização”; em 1953 Mário Pinto de Andrade colige uma “Antologia temática de poesia africana”; no ano seguinte, em 1954, dois autores se revelam: o moçamedense Joaquim Pedro Arroja Júnior com “Flores negras” e a luandense Maria Joana Couto com “Braseiro ardente”. Em 1956 mais três autores vêm as suas primeiras obras publicadas: Cochat Osório escreve “Calema”, Mário António de Oliveira publica “Poesias” e Roberto Correia edita “Assim somos todos”. Em 1957, vindo também das terras quentes do Namibe, Clodoveu Gil mostra-se com “Temas eternos: poesia” e Eugénio Ferreira, um madeirense que viria a naturalizar-se angolano, publica “Feiras e presídios” em 1958. Também em 1958 António A. M. Cristão, outro moçamedense, publica “Memórias de Angra do Negro: Moçâmedes”. Em 1959 o emérito historiador Ilídio do Amaral inicia o seu rico percurso histórico-literário com a publicação de “Subsídios para o estudo da evolução da população de Luanda”.

Mas, se é na década de 50 que surge o movimento intelectual “Vamos descobrir Angola!”, apenas na década seguinte este apelo começa a dar frutos. Aqui fica a lista dos autores desse período e das suas primeiras obras, onde já despontam nomes importantes da luta contra o colonialismo, por paradoxal que isso possa parecer dada a repressão do regime, ou talvez até por isso mesmo, onde a poesia, a arma literária de resistência por excelência, tem a maior preponderância nas publicações:

1960 – Arnaldo Santos com “Fuga”; Cândido da Velha com “Quero-te intangível, África”; Carlos Alves “Cave” com “O povoamento de Angola”; Costa Andrade com “Terra de acácias rubras”; Henrique Abranches com “Cigarros sujos”; Inácio Rebelo de Andrade com “Um grito na noite”; José Luandino Vieira com “A cidade e a infância”.

1961 – Agostinho Neto com “Poemas”; Alexandre Dáskalos com “Poesias”; Amaro Monteiro com “Vozes no muro”; António Jacinto com “Poemas”; Ernesto Lara Filho com “Picada de marimbondo”; Lourenço Mendes da Conceição com “Portugueses de direito e portugueses de facto”; Manuel dos Santos Lima com “Kissanje”; Tomás Jorge com “Areal”; Viriato da Cruz com “Poemas”.

1962 – António Cardoso com “Poemas de circunstância”; Gonzaga Lambo com “Cancioneiro popular angolano: subsídios”; Henrique Guerra com “A cubata solitária”.

1963 – Américo Boavida com “Angola: cinco séculos de exploração portuguesa”; Maria Helena de Figueiredo Lima com “Em torno da Guiné e de Cabo Verde”.

1964 – Maria Eugénia Lima com “Entre a parede e o espelho: poemas”; Maria José Pereira da Silva com “Labaredas em prece”.

1965 – Rui Burity da Silva com “Ochandala”.

1966 – Alda Lara com “Poemas”, publicação póstuma; Jorge Macedo com “Tetembu”; José Manuel Mendes com “Enquanto cresce este rio audaz”.

1967 – David Mestre com “Kir-Nan”; Manuel Rui com “Poesia sem notícias”.

1969 – Manuela Cerqueira com “Menina do deserto”.

Depois, já entrados na década de 70 e até à independência de Angola, outros nomes irão afirmar-se, muitos deles também perfeitamente engajados na continuação da luta anticolonialista pela via intelectual. Aqui fica a lista:

1970 – Carlos Ervedosa com “Arqueologia angolana”; Carlos Martins de Castro Alves com “Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro: boquejo biográfico do colonizador de Moçâmedes”; Eleutério Sanches com “Tuque-tuque de batuque”; Wanda Ramos com “Nas coxas do tempo”.

1971 – Honorinda Cerveira com “Kiangala”; João Abel com “Bom dia”; João Maria Vilanova com “Vinte canções para Ximinha”; Manuel C. Amor com “Na rota do Quinaxixe”.

1972 – Domingos Van-Dúnem com “Auto de Natal”; Eduardo Brazão Filho com “Cidade e sanzala”; Fragata de Morais com “Terreur en Verzet”; Maria do Carmo Marcelino com “Obra poética”; Olga Gonçalves com “Movimento”; Ruy Duarte de Carvalho com “Chão de oferta”; Samuel de Sousa com “Poesia”.

1973 – Aristides Van-Dúnem com “A última narrativa de vovó Kiala”; Jofre Rocha com “Tempo de cicio”; Leonor Correia de Matos com “Origens do povo Chope segundo a tradição oral”; Mário Lopes Guerra “Benúdia” com “A bola e a panela de comida”; Pepetela com “As aventuras de Ngunga; Severino Moreira com “Flores no charco”.

1974 – Adriano Botelho de Vasconcelos com “Voz da terra”; Monteiro dos Santos com “Corpus”; Raul David com “Colonizados e colonizadores”; Rui Romano com “Poesia”; Uanhenga Xitu com “O meu discurso”.

1975 – Arlindo Barbeitos com “Angola Angolê Angolema; Jorge Arrimar com “Ovatylongo”.

Só então, com os bons ventos da independência, a pujança livre e sem amarras dos autores nascidos em Angola se revelou na sua plenitude e, até hoje, são já em grande número os novéis escritores com obras publicadas, seja no país natal, seja na diáspora.

Pelo meio, para além dos que escaparam ao crivo da minha pesquisa, ficaram muitos autores de reconhecido mérito, homens e mulheres com obra dispersa por jornais, revistas, almanaques e publicações diversas, sem alguma vez terem visto editado algum livro seu. Para esses autores, também, uma homenagem.

 

Tomás Lima Coelho

 

 

 

 


Responses

  1. Tomás, obrigada pelos frutos da tua trabalheira… Gostava que tivesses referido as edições da CEI (Casa dos Estudantes do Império) e mais obras do Luandino, várias, dentro do período que cobres (p.ex. “A verdadeira história de Domingos Xavier”, “Luuanda”, tão importantes nesta “história”)

    • Minha querida Maria Júlia Jaleco, só menciono o primeiro livro de cada autor para sublinhar a data em que surge a público. Beijinhos!


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