Publicado por: Filomena Barata | Maio 11, 2012

Isa Pontes , Descobrindo

DESCOBRINDO
 
Peguei no livro “ Chão de Kanâmbua “ e parei. Já ia a bem mais de metade do volume, mas era imperioso perceber o que se estava a passar na minha mente; saber a causa de tanta interrogação, justificar tanta agonia.

Não era a primeira vez que me acontecia ficar assim, um pouco tonta, na procura de causas para tal efeito. Por vezes sentia sensações semelhantes ao passar sob as minhas laranjeiras em flor, ou perto do jasmim frente à entrada da casa, todo ele um esplendor de brancura. Ficava como que levitando num êxtase interno, que disfarçava, na esperança de ser só meu e não parecer tonteira quando houvesse gente por perto. Até as glicínias que rebentaram agora, num grito de lilás, por esses muros fora, vieram transtornar-me os olhos e a alma. Quase me apetece dizer: o desassossego de Março. E, por ser Março, a inquietação aumentou e fez-me parar a meio do livro.

Penso que, finalmente, descobri: são os livros!

Fotografia Filomena Barata

Pequenina, agarrava-me aos livros da Condessa de Ségur – “A Pousada do Anjo da Guarda” e aos de Jules de Peyrrany – “Dois Corações Generosos” e este último até me tocava mais, já que uma das personagens principais tinha o meu nome.

Depois, jovem, procurava os livros da colecção azul e li “John, o Chofer Russo“ e “A Cabana do Pai Tomás“ de Harriet B. Stowe. Aí encarnava as personagens que iam aparecendo, imaginando fazer, finalmente, justiça, defendendo os humilhados.

Mais tarde, mulher feita, abracei “Teresa Batista Cansada de Guerra“ e “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, deixando-me embalar e viver a sensualidade daquelas mulheres tão bem imaginadas pelo baiano Jorge Amado, abençoado pelo Senhor do Bonfim e por todos os Orixás.

Naveguei, e muito, pela vida de José Mauro de Vasconcelos, de quem tenho todos os livros, e aprendi com ele a ver anjos passarem junto a mim em momentos muito especiais, bem como a arte de falar com lagartixas.

Há poucos anos enveredei por outras vidas, na fome de saber, beber, mais. Assim, parti com Kapuscinski nas suas “Andanças com Heródoto”, o que foi para mim, como já alguém disse, um regalo para a alma.

Depois de acompanhar a sábia espera de Garcia Marques em “O amor nos tempos de cólera”, ainda parei por Ortega y Gasset para tentar descobrir se a circunstância que me tem rodeado ao longo dos anos me tem formado e moldado na mulher que sou hoje.

Foi quando resolvi partir em grandes viagens. Assim, acompanhei a fantástica Cristina Morató nas suas “Memórias de África” e fiquei a conhecer a vivência africana nos finais do séc. XIX e princípio do séc. XX; tomei gosto pelo prazer da aventura que envolveu as vidas de Karen Blixen, Delia Akeley, Livingstone e Sir Francis Burton, todos seres únicos.

A seguir, e para tratar os meus desvarios, entreguei-me a Eça, o meu Eça de Queiroz. Subi, lentamente, toda aquela serra até chegar a Tormes, deliciando-me com o mais belo livro escrito na nossa língua: “A Cidade e as Serras”. Aí, aprendi o segredo da transformação de um homem quando tem a sorte de possuir um bocado de terra, de chão. Talvez tenha sido nesta viagem que comecei a procurar os cheiros que chegam com a Primavera.

Fotografia Jorge Peres

Agora, ando em novos achados. Parto quase sempre para África, lá é o meu refúgio. Pego n’ “A Verdadeira Estória de Domingos Xavier“ de Luandino; n’ “Os Predadores” de Pepetela; n’ “A Estação das Chuvas“ de Águalusa, e devoro as páginas de Julião Quintinha, notável jornalista português que veio mostrar-nos África, quando em Portugal esse era um tema para aventureiros.

Neste momento olho a capa de “Chão de Kanâmbua“, de Tomás Lima Coelho; sentada sob a oliveira velhinha sinto-me a viajar naquele comboio, abarcando todo o espaço de capim rasteiro onde, aqui e ali, surgem um imbondeiro ou catedrais de salalé. Parece-me que volto à minha terra… ao meu chão… Malanje.

Fotografia Filomena Barata

 

Talvez tenha descoberto, talvez… Toda esta emoção que me envolve ao entrar nos livros deverá ser… será?… o meu crescimento como mulher, como pessoa; sou eu a formar-me ao longo dos anos; a fazer descobertas nos meus encontros; sou eu a aprender com quem já viveu muito; sou eu a despir disfarces preferindo ser transparente; a constatar o peso do poder, mas também a força inabalável da verdade; sou eu, sempre, a querer chegar mais além.

E porque tocam as ave-marias numa capelinha perdida lá ao longe, entre as faldas das montanhas, desperto.

Feita a descoberta que me apazigua o corpo e me lava a alma, volto ao comboio que vai a caminho de Malanje.

Isa Pontes

Friande – 23.4.2012

 
 

Responses

  1. Muito bonito!!


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