Publicado por: Filomena Barata | Março 20, 2012

Isa Pontes, Dentro dos Livros

Cachoeira, Sumbe, Angola. Fotografia Filomena Barata

DENTRO DOS LIVROS

Queridíssimo Daniel
Hoje resolvi falar contigo, falar das nossas coisas, das coisas que ambos gostamos. Sabes onde estou e se aí tenho dificuldade em encontrar alguém que me escute, imagina aqui…
Fui muito bem recebida, à chegada, pelo casal Santos e o calor fez o resto, ou seja, o meu corpo deu sinais de contentamento, fugindo de uma existência reumática, aí em terras do Alto Minho.
Trouxe comigo três livros: “ O Retorno” de Dulce Maria Cardoso; “A Ilustre Casa de Ramires” de Eça de Queirós e “A Estação das Chuvas” do Águalusa. A Dulce Maria Cardoso surpreendeu-me e conquistou-me, estou rendida ao seu estilo. Ainda não peguei na Estação das Chuvas, será uma releitura. Agora vê lá! Pela primeira vez o Eça cansou-me! Achei o livro pesado e um tanto ou quanto enfadonho, com aquele recorrer constante aos antepassados do século XIII e às suas sucessivas lutas, sempre em defesa do bom nome dos Ramires.
Nem sei porque te falo disto, tu sabes da minha paixão pelo Eça de Queirós.
Bem…
Mas, a minha razão primeira de hoje me ter lembrado de te procurar, vem de outro escritor: Julião Quintinha. Tu também sabes, outra das minhas paixões.
Deves lembrar-te que este casal amigo esteve na minha casa, em Braga, há uns 4 anos. Na altura e porque tinha dois volumes iguais, dei ao Carlos o livro “África Misteriosa” do Julião Quintinha. Talvez o seu livro mais conhecido; talvez o mais intensamente vivido pelo ilustre jornalista; talvez o que mais me toca, de toda a sua obra.
Pois bem… Vim encontrá-lo triste. O livro. A capa separada das folhas e, dentro delas, bocados da mesma capa; todo o livro despedaçado. Desconheço a causa de tal maldade.
Então – já estás a ver-me – dediquei o resto da minha tarde a restaurar aquele pobre relicário de história, descobertas, sonhos, desilusões e esperanças. Tudo saído de uma alma nobre, incansável e que lutou com a sua pena contra gigantescos moinhos de vento, como se fora a lança de D. Quixote!
Achas que estou a ser lírica? Não. Lembra-te que até a P.I.D.E. lhe fez a vida negra e acredito que, algumas vezes, o “Lápis Azul” deve ter funcionado sobre alguns artigos seus.
Forrei o livro com uma capa improvisada – nesta casa simples tudo é improvisado – e com um carinho todo festa, comecei a relê-lo.
Ai meu Amigo… Quem me dera ter-te aqui ao meu lado e poder olhar para ti, enquanto lesses de novo – eu sei que também tu já o leste – este tesouro escrito quase há 1 século!
Aqui, em África, neste chão que ele pisou e amou durante dois anos seguidos; aqui onde ele alimentou todas as suas mais puras e ingénuas esperanças, lê-lo, ouvi-lo, é diferente. Uma coisa é eu ter lido este livro na nossa Europa fria, civilizada. Outra coisa é eu estar a escutá-lo em África. A África que ele tanto amou.
Num parágrafo do seu Prólogo, quase no final, diz ele:
“Mais do que o mistério das selvas, do que o panorama das paisagens exuberantes, do que todos os motivos estéticos da graça e da beleza gentílica, avulta esse humaníssimo problema que a Ciência e a Humanidade deverão resolver”
E eu olho à minha volta, vezes sem conta – tu bem sabes que é a quinta vez que me desloco a estas paragens – e estremeço…
Nem os Tecelões de Peito Amarelo, trabalhando incansáveis na construção de seus ninhos (disseram-me hoje que, se o ninho não estiver ao agrado da fêmea, esta desfaz o ninho e ele, pobrezinho, começa tudo de novo) , nem os Rabos-de-Junco, nem as andorinhas que abalaram daí para cá, me acalmam.
À minha volta os mesmos olhares tristes de sempre, o mesmo arrastar de corpos… Só mudaram os donos.
Respiro o ar quente adocicado e piso a terra barrenta, outrora olhada por ele e as mesmas inquietações que lhe tiravam o sono, acredita, são as mesmas que me trazem horas de vigília noite após noite.
A Ciência deu passos de gigante mas o humanismo deu lugar ao egoísmo. E o fosso entre exploradores e explorados é cada vez maior. Mas não se vê, tem uma côr só…
Desculpa atirar-te o meu desassossego para cima. Deveria apenas falar-te do sol, das frutas e das flores; contar-te as minhas descobertas matinais no meio da bicharada, mas…
Obrigada por seres o meu eterno “Ouvidor”. Sorte a minha ter-te.
E, atravessando todo o Continente para o Norte, aí vai o meu abraço, daqui do Sul que é o nosso chão misterioso.

 

Raquel

 

 


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