Publicado por: Filomena Barata | Outubro 4, 2011

Maria José Franca, As Mulheres da República: Maria Veleda

Grupo das Treze, fundado por Maria Veleda, em Maio de 1911, para combater a superstição. Em 1.º plano, sentadas a partir da direita: Judite Pontes Rodrigues, Carolina Amado, Ernestina Pereira Santos, Lídia de Oliveira, Maria Veleda, Antónia Silva e Adelina Marreiros. Em 2.º plano, em pé: Honorata de Carvalho, Mariana Silva, Filipa de Oliveira, Berta Vilar Coelho, Lénia Loyo Pequito e Carolina Rocha da Silva. (Foto legendada por Natividade Monteiro in «Memórias de Maria Veleda»)

Maria Veleda com o Jornal «República» na mão
Foto de família – em 1953: Sentados, da esq.ª para a direita: prima Justina, tia Alice, MARIA VELEDA, avó Arminda e a minha mãe (Laura, neta de Maria Veleda); em pé, da esq.ª para a direita: tio Pedro e tia Ester (netos de Maria veleda), avô Cândido (filho de Maria Veleda e do meu bisavô Cândido Guerreiro, poeta algarvio), tia Leonor e tio Cândido (netos de Maria Veleda)Maria Veleda
 
 
Homenagem a MARIA VELEDA – uma das mais notáveis Mulheres Republicanas
Maria Veleda é o pseudónimo de Maria Carolina Frederico Crispin, que nasceu em Faro (26 de Fevereiro de 1871) e morreu em Lisboa (8 de Abril de 1955). Pertencia a uma família da classe média, muito conhecida no meio social e cultural de Faro.

Maria Veleda - Há 101 anos, Maria Veleda já tinha começado a sua luta (desde 1905) em prol da República e dos ideais de «Liberdade, Igualdade, Fraternidade». Participou no «5 de outubro de 1910». Sofreu, chorou, também foi feliz. Viveu com intensidade todos os momentos da sua vida. Dedicou-se de alma e coração à sua família, que se prolongou na minha mãe, nas minhas tias, em mim, nos meus primos, no meu filho. Hoje e sempre - respeito, orgulho e AMOR por esta mulher de aspeto frágil mas de enorme fortaleza interior!

Aos quatro anos já sabia ler e escrever. Aos sete estreou-se no Teatro Lethes, represe…ntando um pequeno papel. Como o pai era responsável cultural da Sociedade Teatral de Faro, levava Maria Carolina muitas vezes para assistir a espetáculos, o que despertou nela a paixão pelo Teatro.
Com a morte do pai, em 1882, a família ficou em situação económica difícil. Assim, aos quinze anos, decidiu começar a trabalhar para ganhar a vida para não sobrecarregar a mãe e conquistar independência. Na época, as escolhas profissionais para as jovens eram muito limitadas: ser professora era uma das poucas profissões “aceitáveis” numa sociedade preconceituosa. Devido à sua pouca idade, esta rapariga tão corajosa optou pelo ensino particular, também devido à sua afetividade e amor pelas crianças.
Mais velha, e já numa carreira de intervenção pública, Maria Veleda acreditava no poder da educação sobre a sociedade, como fonte de felicidade e fator de progresso.
O amor pelas crianças levou Maria Carolina, com apenas dezanove anos, a adotar um bebé de catorze meses, filho da caseira da quinta dos pais, criança que ela levou para todo o lado e que educou como seu filho autêntico. Chamava-se Luís Frederico – bisavô do meu filho.
Sonhando ser escritora, começou a publicar poesia, contos e crónicas nos jornais regionais algarvios e alentejanos, ao lado de Francisco Xavier Cândido Guerreiro, mais conhecido pelos dois últimos nomes, poeta por quem teve uma paixão enorme. Deste grande amor, nascerá o meu avô Cândido Guerreiro Xavier da Franca (em 19 de Outubro de 1899), autor do livro No Sertão dos Diamantes, crónicas sobre os seus primeiros anos em Angola.
Maria Veleda recusará casar-se com o poeta, por não se julgar suficientemente amada. Acreditava que um casamento se devia fazer por amor e não por conveniências sociais. Assim, assumiu-se como mãe solteira num tempo cheio de preconceitos, criando e educando sozinha os dois filhos: Luís Frederico (adotivo) e Cândido Guerreiro (filho biológico).
Entre 1899 até 1905 foi professora do ensino primário em Odivelas (onde nasceu o filho) e Serpa. Continuou a publicar artigos, poemas e contos na imprensa regionalista. Em 1902, publicou a coleção «Biblioteca Infantil – Contos Cor-de-Rosa», em fascículos, com o objetivo de distrair e formar as crianças.
Em 1905, Maria Veleda vai para Lisboa: tinha trinta e quatro anos. Levava os dois filhos e a sua mãe. Passou grandes dificuldades económicas para alimentar a sua família. Trabalhou, como professora, num asilo e depois num colégio, de onde foi despedida porque tossia muito e desconfiavam que ela estivesse tuberculosa.
Mas como nem tudo corre mal, um dia, desempregada, soube por acaso que precisavam de uma professora no Centro Escolar Republicano Dr. Afonso Costa. Aceitou imediatamente e toda a família foi viver para o Centro, onde estava a escola. Data desta época o início do contacto de Maria Veleda com as principais personalidades republicanas da época, como Magalhães Lima, Ricardo Covões, Afonso Costa… quando ainda se vivia em Monarquia – era Rei D. Carlos I. Começou a minha bisavó a escrever para alguns jornais de Lisboa e a ter intervenções políticas nas sessões e comícios a favor da República. Alguns destes discursos e conferências foram publicados no livro A Conquista, prefaciado por António José de Almeida, sexto presidente da República Portuguesa.
E mesmo antes da Revolução do 5 de Outubro de 1910, inicia Maria Veleda a campanha em defesa da emancipação da mulher, em defesa da mulher grávida e das crianças exploradas e abandonadas.
Em 1908, organiza o 1.º Congresso do Livre Pensamento e é uma das sócias fundadoras de um movimento chamado Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, em 28 de Agosto de 1908.
Sempre preocupada com o bem-estar das crianças e lutando para salvaguardar os seus direitos, fundou a Obra Maternal para acolher e educar crianças abandonadas ou em perigo moral, instituição que se manterá até 1916, graças à solidariedade da sociedade civil e às receitas obtidas em saraus teatrais, cujas peças dramáticas e cómicas Maria Veleda também escrevia e levava à cena. Dirigiu a revista «A Mulher e a Criança». Criou cursos noturnos no Centro Republicano Afonso Costa, onde era professora do ensino primário, e nos Centros Republicanos António José de Almeida e Boto Machado, para ensinar as mulheres a ler e a escrever e as educar civicamente, preparando-as para o exercício de uma profissão e participação na vida política. Combateu a prostituição, sobretudo a de menores. Fundou o “Grupo das Treze” para combater a superstição, o obscurantismo e o fanatismo religioso que afetava sobretudo as mulheres e as impedia de se libertarem dos preconceitos sociais.
Do Centro Republicano da Ajuda assistiu à implantação da República. As notícias contraditórias sobre quem ganhara, levaram-na a destruir documentos.
Depois do 5 de Outubro de 1910, integrou o Grupo Pró-Pátria e percorreu o país em missão de propaganda, discursando em defesa do regime ameaçado ainda pelos monárquicos resistentes. Envolveu-se também na propaganda a favor da entrada de Portugal na 1ª. Guerra Mundial.
No entanto, a instabilidade governativa e divergências internas entre republicanos, o assassinato do Presidente da República Sidónio Pais, em 1918,e os acontecimentos da «noite sangrenta» de 19 de Outubro de 1921 (em que foram assassinados, por forças da GNR, os heróis do 5 de Outubro) levaram a que Maria Veleda desistisse da vida política, desiludida com os sucessivos governos republicanos que não cumpriram os ideais de «Liberdade, Igualdade e Fraternidade». No entanto, continuou a publicar artigos em defesa da mulher e da criança e também poemas.
A desilusão com os caminhos políticos do seu País levou a que Maria Veleda se tivesse dedicado ao espiritualismo: fundou o «Grupo Espiritualista Luz e Amor» e, em 1925, dinamizou a organização do I Congresso Espírita Português e participou na criação da Federação Espírita Portuguesa. Fundou as Revistas A Asa, O Futuro e A Vanguarda Espírita; colaborou na imprensa espiritualista de todo o país, publicando poesia e artigos de pendor reflexivo e memorialista. Em 1950, publicou as «Memórias de Maria Veleda» no jornal República.
Desde 1912, que estava ao serviço da «Tutoria da Infância», primeiramente como Delegada de Vigilância, depois como Ajudante de Secretário, tendo-se reformado em Fevereiro de 1941 (quando completou setenta anos de idade) com uma pensão muito pequena. Morreu em 1955.
Em Abril de 2011, foi publicado, finalmente, o livro «Memórias de Maria Veleda».


Responses

  1. […] Baratahttps://aeppea.wordpress.com/2011/10/04/maria-jose-franca-as-mulheres-da-republica-maria-veleda/ Maria José Franca, As Mulheres da República: […]

  2. Quando da celebração da 1ª República e sabendo que tinha familiares defensores dos seus ideais iniciei uma busca na net, começando pelo poeta Cândido Guerreiro. E comecei por aqui, numa 1ª fase, para tentar saber se o parentesco que o liga à minha família era do lado do meu avô ou da minha avó. Nós sabíamos que um deles era primo do seu bisavô em 1º grau mas não sabíamos qual. Quem nos poderia ter dito isso já não está entre nós.
    É, agora, minha convicção que a minha bisavó seria irmã do seu bisavô a julgar pelos seus últimos apelidos (da Franca), E são todos naturais de Alte.
    Também a família da minha avó era de Alte.
    Tinha conhecimento da relação da sua bisavó com Cândido Guerreiro e que estes haviam tido um filho em comum (o seu avô).
    Desde então já li muita coisa e fiquei com um conhecimento mais profundo das suas vivências e de algumas obras de Cândido Guerreiro, que desconhecia.
    Em relação a Maria Veleda confesso que só agora tomei conhecimento do seu percurso e não sei onde possa ter acesso à sua obra. Mas, com o tempo, lá chegarei.

  3. Recomendo vivamente a leitura desta obra sobre a vida de uma mulher extraordinária!


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