Publicado por: Filomena Barata | Setembro 26, 2011

Filomena Barata, Folhas Soltas – o meu testemunho

  • Folhas Soltas – O meu testemunho
Folhas Soltas - O meu testemunho
LIVRO VERIFICADO PELO AUTOR

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Folhas Soltas – O meu testemunho

eBook Angola (mauroyange)

Autor: Filomena Barata
Editor: eBook Angola
Editor: Jo Ann Von Haff
Estado: Público
Nº de páginas: 55
Tamanho: 210×297
Miolo: Cor
Encadernação: Agrafado
Downloads: 114

Classificado como: Narrativa   ›   Biografias/Auto-biografias
Palavras-chave:: angola, filomena-barata, portugal, o-meu-testemunho

Hora
Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012 · 2:30 – 5:30

Local

Evento não presencial


Criado por

Mais informação
Está disponível para Download no site da eBook Angola o eBook “Folhas soltas – O meu testemunho” da bloguista Filomena Barata, criadora do grupo “Portugal em Angola – Angola em Portugal”…SinopseO testemunho real de uma rapariga filha de pais portugueses, que nasceu em Malange – Angola. O retrato de uma infância e adolescência vividas em uma Angola antes da independência.DOWNLOAD – http://www.ebookangola.com/products/folhas-soltas-o-meu-testemunho/
  • Bem haja pela partilha. Subjaz da mesma uma qualidade cada vez mais rara nos dias que correm: a generosidade. No caso, é para mim ainda mais gratificante ser-me permitido este acesso, pois sendo eu também angolana e tendo um passado a coincidir, em muito, com o seu testemunho, é sempre um bálsamo para a alma ler relatos como o seu. Obrigada.
    • Olá Filomena gostei do seu testemunho, obrigado por partilhar. Sabe que até me fez lembrar um poema de uma poetisa Angolana não muito divulgada de seu nome Alda Lara, que tem um poema que gostaria de lhe dedicar, ” Presença Africana”, como é um pouco longo não o posso postar aqui, mas pode lê-lo em ” Alda Lara- Poesia Africana- Angola. Obrigado.
      • Tu e EBook Angola gostam disto.
        • Filomena BarataOlá João, bem vindo aqui. E pela dedicatória do poema que já fui ver ao Grupo. Como foi bom encontrá-lo, de novo.

    • Obrigado! Vou ler!

Tu e EBook Angola gostam disto.

Muito generoso da parte do artista partilhar a sua obra, obrigada por tamanha generosidade

Filomena Barata Obrigada Maria Lúcia pelo comentário. E eu tenho que agradecer à EBook Angolao ter viabilizado que essa partilha se fizesse.

  • EBook Angola a EBook Angolaestá aqui para isso…

  • Olá Filomena gostei do seu testemunho, obrigado por partilhar. Sabe que até me fez lembrar um poema de uma poetisa Angolana não muito divulgada de seu nome Alda Lara, que tem um poema que gostaria de lhe dedicar, ” Presença Africana”, como é um pouco longo não o posso postar aqui, mas pode lê-lo em ” Alda Lara- Poesia Africana- Angola. Obrigado.

Tu e EBook Angola gostam disto.

Filomena BarataOlá João, bem vindo aqui. E pela dedicatória do poema que já fui ver ao Grupo. Como foi bom encontrá-lo, de novo.

 

Tu e EBook Angola gostam disto.

  • Muito generoso da parte do artista partilhar a sua obra, obrigada por tamanha generosidade

Filomena Barata Obrigada Maria Lúcia pelo comentário. E eu tenho que agradecer à EBook Angolao ter viabilizado que essa partilha se fizesse.

 

EBook Angola a EBook Angolaestá aqui para isso…

    •  
  • Obrigado pela partilha. Votos de muitos sucessos beijinho;))

Filomena BarataObrigada Cristina.

 

Escreve um comentário…

Estimada Filomena Barata obrigada por disponibilizar o acesso gratuito ao livro. Já fiz download e partilhei a ligação no meu perfil. Li a primeira página e gostei, vou continuar mal possa. Desejo, sinceramente, o maior sucesso! Bjs
  • Escreve um comentário…
  • Obg. Já estamos a ler com atenção e partilhámos com os nossos amigos. Voltaremos. O alentejo não tem fim!

Filomena Barataolá minhas amigas Cantadeiras. É verdade, o Alentejo não tem fim, como não tem o país onde nasci. Um grande abraço para vós.

Filomena , já fiz o download, lerei logo que me seja possível, felicidades
  • Escreve um comentário…

É impossivel mesmo, boa sorte e muito sucesso.
Grata

Filomena BarataGrata eu Luís.

  • LOCAL DE ENCONTRO E TROCA DE INFORMAÇÃO FOTOGRAFIAS, POSTAIS, MAPAS; MEMÓRIAS, TESTEMUNHOS, POEMAS, CONTOS! Visite também ALENTEJO – A NOSSA MÚSICA , uma iniciativa do Grupo ALENTEJANOS NO FACEBOOK…
  • Filomena BarataObrigada meu amigo por ter partilhado nesse Grupo de que é mentor e onde tive o prazer de ter partilhado tanto consigo, pois, como sabe, o Alentejo é o sítio que, em Portugal, me lembra o meu país de nascença. Nunca o esqueço o Grupo e só não vou mais porque o tempo não me tem permitido. A si um grande abraço, companheiro bom que sempre tem sido.

Parabéns mais uma vez à Filomena e obrigada à EBook Angola por viabilizar o download …
O livro só vai ser editado em Angola ?

Filomena BarataCristina, pode lê-lo cá. Deixe-o estar agora onde tem que estar. No meu País de nascença. Um grande abraço para si o obrigada pela companhia no projecto que encetámos.

 

Já baixei, com muito gosto. Obrigado

Parabéns e muito grata pela possibilidade de baixar o livro. Vou ler com toda a atencao. Abraco

Parabéns, Filomena! Isto não é um livro …É um regresso ao passado de cada um de nós…Simplesmente comovente!!!

Filomena Baratalolol, é uma ponte!

  • Parabéns! Estou certo que o seu testemunho é enriquecedor para a memória das relações entre os dois países e as duas civilizações.

Filomena BarataMuito obrigada Nuno.

Cara Filomena, aceite as minhas sinceras felicitações e obrigado pela partilha. Já fiz uma leitura em diagonal e conclui que tenho de regressar com tempo suficiente para poder apreciar e perceber.

De facto, Filomena, és incansável. Onde vais buscar essa força? Abraço-te!!!

Blé Guimaraes‎”Lamechinhas”.;-))

Filomena Baratalolol, olha que uma “lamechinhas fortalhaça”!

Posso só pedir-vos uma pequena correcção? Não nasci em Malanje, mas sim em Luanda, porque o Nzeto onde fui concebida não tinha hospital. Fui viver para Malanje aos 4 anos. Adorei ver. Obrigada.

Anabela Fernandes, Manuela Freitas e Julia Coutinho gostam disto.

  • SEMPRE PRESENTE !!!! BEIJO GRANDE E MERECES ISTO E … AQUILO !!!!

Fatima Alegre MartinhoParabens Filomena,ainda não li bem mas gostei muito do que li e estou toda curiosa!!Beijinho

Filomena BarataObrigada Fátima.

www.movimentofantasma.wordpress.com

movimentofantasma.wordpress.com

Hip-Hop Fantasma Á Escala Universal

Gracias por la invitación Filomena

Irina Manuela Pinto LeiteObrigada Filomena pelo link vou baixar o livro e ler com carinho. bjs

 
  • Viva Filomena.
    Estarei presente com muito prazer. Daqui de longe desejo-te muito sucesso e que seja o primeiro de muitos. Um afetuoso abraço.

Obrigado pelo convite, download, e pela passagem do testemunho….

Filomena BarataObrigada César Barata

Filomena BarataOlá meu sobrinho. Vá lá fazer o download que é dedicado à tua mãe também.

Maria Amelia DiogoObg pelo convite vou fazer tudo para estar presente.Parabens bjs

Posso brincar um pouco? Tenho que fazer o download também ou há uma oferta da editora?

Zarpante Lda, José Borralho e 2 outras pessoas gostam disto.

EBook Angolahehehe.. só nos faltava esa…

Mauro JOrge‎:)

    • Filomena Baratapois Ebook, já fiz o download. Vou ver se gosto (eheheh). Grande abraço.

É muito comovida que venho informar este Grupo, em primeiríssima mão, que terei a felicidade de ver um livro meu editado em Angola – o meu país de nascença e de cidadania – pela Ebook Angola, editora cujo meritório trabalho de divulgação da Literatura em Angola, pois obras como a que estão a empreender em prole da Cultura merecem todo o nosso apoio.
Agradeço à Ebook o ter apreciado o meu testemunho e tê-lo transformado em livro. Sairá no próximo Sábado.

Eileen Morais Salvação Barreto, Adelia Vaz, Manuela Freitas e 36 outras pessoas gostam disto.

  • 50 de 56

Filomena Barata Obrigada Maria Celeste Geralde e à EBook que também inaugurou o seu «Poemário», com um poema semanal. Parabéns a toda a vossa equipa. Cumprimente a autora da capa por ter escolhido esta fotografia de que tanto gosto.

José Carlos MoutinhoParabéns….poesia…ou romance?

Filomena BarataDizem que as mulheres não choram??? Pois eu vou ali mesmo já que o dia tem tido hoje tantas coisas que me fazem continuar a acreditar que vale a pena a vida ser vivida por inteiro, mesmo nos seus momentos maus.

Filomena BarataAntes chorar comovida ou mesmo dorida, em alguns momentos, do que viver a vida “a metade”. Até já a todos.

 

Maria Celeste GeraldSao os momentos maus que sustentam muitas das nossas vitórias.Quando eles surgem ,nós mulheres,temos a mestria de lhes dar a volta e a Filomena tem-nos mostrado que isso é possivel

Luis Milhano

Filomena Barata, Parabéns pela obra editada que desejo partilhar logo que disponível. Quero apreciar esse testemunho de quem com tanto prazer acompanhei, noutra tarefa, o dia a dia. Essa actividade incansável, a dádiva dos seus conheciment…os, foi para o Grupo ALENTEJANOS NO FACEBOOK, um exemplo magnífico de entrega total a um projecto que valeu a pena prosseguir e onde além do mais criou bastantes amizades que reconheceram o mérito da Filomena. Renovo os parabéns com um abraço amigo.

Jorge PeresHá quanto tempo já mereces isto Mena? Mas finalmente foste reconhecida. Yesssss. Beijinho muito grande.

 

Filomena BarataVenho já meus queridos amigos, tenho que apanhar um pouco de ar … dizem que as mulheres não choram??? Pois não ….tranformam-nas em palavras e imaginam o Mundo tentando recriá-lo. Até já.

Salome CamposParabéns, Filomena! Tudo na vida tem o seu Time ! Este momento é o seu !Bjs ♥!

 

    • Filomena BarataSalomé, já agora, peço desculpa amiga, mas vai ser mais logo, quando estivermos 1000 na nossa Causa.

       

Filomena BarataVamos tentar?

Idalina OranthQuerida amiga, parabéns pelo teu merecido sucesso!!!

 

Lito MartinManita….encosta lá a cabecinha no meu ombro amigo e chora á vontade. Parabens amiga, já não era sem tempo…

Teolinda Gersão partilhou uma ligação.
Filomena Barata, Folhas Soltas – o meu testemunho
aeppea.wordpress.com
Folhas Soltas – O meu testemunho Livraria › Narrativa › Biografias/Auto-biografias Ver capa Ver miolo LIVRO VERIFICADO PELO AUTOR <!– Folhas Soltas – O meu t…
 ·Tu e Carlos Ademar gostam disto.
    • Filomena BarataMesmo sendo só um testemunho, fico-lhe grata por ter partilhado.

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já arrumei memórias, tantas e tantas mais
já pari e, por isso, plantei uma árvore feita de esperança
já chorei insónias longas,
mas também muito sorri
fiz os livros que ditam os mandamentos
tentando dar sentido às palavras que se foram cozendo entre si

já passeei por jardins de luz, por entre silêncios e multidões

já vi morrer e matar, guerras da vida que nem sempre são as naturais

enterrei mortos meus, cerrando as portas à descrença
e esqueci dores, transformando-as em lembranças

aprendendo a dizer-lhes até sempre, até já

já viajei, dentro e fora de mim
sonhando prazeres que nem sempre encontrei
e, contudo, cruzei montes, vales e oceanos daqui e dali

julgando que os ia poder abraçar

já tive amores e desamores
mas crente sou ainda que o último é sempre o maior

sei que o será

já fui rica e pobre; fiz contas de somar e diminuir
saldando as que havia a pagar
cigarro aceso noite fora, sem saber como o ia fazer

já avaliei e fui avaliada
testes mais não poderia haver, porque poucos humanos os conseguiriam passar

já me preparei para morrer,
encomendando aos Céus os testemunhos meus

por isso, por isso e tudo o mais, agora quero e sem medo o direito a viver!

E viverei sem esperar a licença de ninguém, porque não a pedirei,

pois seguirei caminho, cruzando os mares da minha fé.

Maio meu, fotografia a partir do Grupo «Angola em Portugal; Portugal em Angola»

Os meus pais (ao centro). A minha mãe está entre os seus colegas do Banco de Angola.

Fotografia do álbum de José Pereira Marques.

«Toda a gente que passou um tempo mais longo nos trópicos, é suspeita (…). Porque passou por esse contágio terrível, ao qual é impossível a gente habituar-se e em que há algo fascinante, como em todos os perigos de vida. Os trópicos são uma doença. É possível a gente curar-se das doenças tropicais, mas dos trópicos nunca»

Sándor Márai, «As velas ardem até ao fim»


















À memória dos meus pais


À minha mãe uma recordação especial, pelo primeiro álbum de fotografias que me dedicou e comentou, dia a dia, como só as mulheres sabem fazer.

Dela retive a ideia e o sentido, e, talvez por isso, ainda guardo os livros que fiz da primeira infância da minha filha.


À minha filha Mariana Lampreia um pouco de mim …

À minha prima-irmã Guida Barata agradeço todo o seu amor e mimos, bem como a possibilidade de ter regressado a Angola, permitindo-me com o seu convite avivar a memória dos meus lugares e cheiros de infância.
Sem ela não teria sido possível ter-lhes voltado! Mas sei que agora sempre lhe regressarei.

Sobre ela  citarei as palavras de um primo recentemente conhecido, via da sorte que a internet por vezes nos proporciona,  que assim a descreveu e ao ambiente familiar que nos envolvia, em Porto Amboim,

como me poderia esquecer da Guida…Ela faz parte
de um dos períodos mais felizes e de melhores memórias da minha infância,
que foi o “período em Porto Amboim e a casa da Ma Canda”, como dizia o Tio Zé Carlos. Com a Guida, lembro-me perfeitamente do Beto, João, Boneca, dos “primos e tios” de Novo Redondo (Marito, JAlberto, Rosita, a Mãe e Pai
deles…), o pessoal da casa, Meneses e Mateus, o Sap sap do quintal, o
> cheiro a pão com manteiga, o café dos padeiros bebido como refresco, a casa de banho lateral com tampo em madeira, a horta da avó….e sempre, sempre a presença silenciosa, e constante, da Tia Cândida, protegendo e cuidando de todos…ah, e o “Tio Paciência” que, apesar do seu pouco tamanho, tudo dominava e administrava….ah, e as idas ao cinema, com os rolos de moedas colocados em cima da arca como “prémio de bom comportamento”…

À minha irmã, Fátima Barata, a Tita, também quero dedicar este meu livro. Por uma vida inteira!

Ao Paulo também esta minha história, porque só com memória se pode ter amanhã… e nunca podemos negar o que somos, sentimos ou fazemos! . Quis o “Destino”, a “Fortuna” que um dia fizesses uma caminhada para o país que me viu nascer. Depois de eu ter conhecido o que te viu crescer a ti. Quem sabe a vida um dia se encarregue de nos fazer de encontar num local qualquer, no meio do Atlântico que nos une agora, ou junto a um rio inundando as margens.

E porque me lembro de tudo isto regressada da viagem que tive a sorte de poder fazer a Angola recentemente?
Não sei, contudo, foi já há tanto tempo, quanto esqueci, que iniciei esta história, esta caminhada, mas que recordo ainda hoje com tanta nitidez.
Foi numa noite memorável pela espera essa: um concerto que mais se assemelhou a uma tensão colectiva, até que finalmente a música começasse a tocar, que me fez tudo reviver…
A sala era grande demais para nos envolver.
Estava presente uma multidão imensa que aguardava poder inalar os odores espirais de “jazz-rock” dos Wheader Repport.
O entardecer era quente. Tão quente que as traves de madeira onde nos sentámos pareciam quase derreter no chão.
Um casal, um tanto ou quanto desconcertante, porque ele trazia um ar de nostalgia mole e ela um sorriso totalmente escancarado, aproxima-se e pergunta: “então como estás?”.
Falar por falar, apenas para que as palavras não perdessem o sentido… não conseguira eu, pois sou o testemunho, apenas o meu.
Somente respondi: “sabes, ando a reaprender os gestos do amor”, mas a medo de me desmentir. “A conseguir libertar o tanto que tentei esconder dentro de mim”.
Foi o vazio, ou o gelo. As pessoas esperam sempre que lhes digamos onde fomos, com quem, o que estamos a fazer, no que estamos a trabalhar, mas, no fundo não querem que lhe falemos de nós: do que sentimos, do que somos e desejamos.
À minha volta estão algumas caras que me são familiares. Mas eu não sei como me libertar deste nó, ou desta película quase transparente que me faz distanciar de tudo o que agora me rodeia.
Alguns deles abraçam-se, como isso fosse expectável ou mesmo obrigatório, mas, no fundo, como se se encostassem a um muro para descarregar o peso da solidão.
O abraço é frágil, mas o muro quer aguentar.
Insistem em dizer “conta coisas”. Mas eu nada tenho para contar, muito menos “coisas”. Estou muda, atordoada, vejo as imagens soltas de todos os meus sítios, de todos os lugares a que pertenço.
A luz está baça do excessivo calor. Anda talvez o cacimbo no ar.
Sentei-me a um canto a esconder o olhar do formigueiro inquieto, porque a música não havia meio de começar.
Tu! Onde estás tu? Não sei. Vejo-te esbatido, do outro lado do mar …
Apetecia-me esmagar o teu corpo no meu. Não era tocar-lhe, esmagar simplesmente, até que lhe sentisse o volume, o peso. Assim, como se, por segundos, pudesse haver a morte da minha memória, morrendo todo o tempo com ela.
Mas tu não estás…, uma vez mais, invento-te apenas nas histórias que vou contar.
Afasto-me ainda mais e, enquanto espero, sento-me a ler Baltazar “Nós vivemos vidas baseadas sobre uma selecção de ficções. A nossa perspectiva da realidade é condicionada pela nossa posição no espaço e no tempo, e não pela nossa personalidade como geralmente se crê”.
Por isso retrocedo, por vezes, para poder avançar. Como agora e aqui.
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Tento exercitar-me e ver as imagens no seu tempo e no seu lugar, esforço-me por sentir a força que têm ainda agora dentro de mim. Só assim consigo, por frágeis momentos, ter a noção do que mudou, do que cristalizou, como que numa paralisia anémica e muda.
Sempre com esta sensação de que o tempo me mantém viva, embora comprimida, como toda a gente, entre paredes estreitas, donde nem sempre é fácil fugir. Corredores que, em alguns dias, se assemelham a labirintos.
Mas há que continuar a procurar o caminho … na senda de uma via que só nós próprios podemos percorrer. O prumo, esse fio fino e perpendicular que ficará quando de tudo nada restar.
Assim fermento os dias, umas vezes quase despida de mim; outras, como se fosse capaz de os possuir integralmente, como se o mundo e o tempo me pertencessem num todo, capaz de o virar ao contrário com uma mão só, fazendo-o dançar sobre si próprio.
Invade-me, depois, uma estranha sensação de que me possuo, apenas a mim, talvez nem isso, com espaço para todos os meus sítios.
No fundo, não “possuimos” nada nem ninguém, apenas nos iludimos, somente da vida retemos o que nos faz falta; o que que conseguimos trocar, partilhar, motivo pelo que não creio nas dádivas puras, pois a tal aspiram os Santos cujos exemplos somente queremos reter.
Somos como um vitral: nem sempre conseguimos chumbar as partes vítreas e dele fazer uma história qualquer.
Por isso não acredito que se consiga amar duas pessoas ao mesmo tempo. Já é demasiado difícil juntar as nossas peças, entender as de outrém e colocá-las no devido lugar.
E quanto mais complexo é o puzzle, menos se consegue fazer dele uma qualquer construção.
Contudo, o amor não é senão esse momento particular em que se consegue juntar companheirismo e prazer, amizade e paixão. O real e o que somos capazes de sonhar.
Como poderia falar disto aos meus distraídos amigos?
Apenas se movem naquele aparente torreão. E com a ansiedade de que alguma coisa exterior aconteça para além dele.
A noite está cheia e tudo é tão passageiro nas suas sombras…
Que responderiam amigos se vos dissesse que me lembro de uma sonata de Bach tocada em Paris entre St. Germain e St. Michael? E estavamos nós. Mais sólidos do que agora, porque pedir dinheiro aos transeuntes nos unia e nos permitia, depois, jantar bem num local de luz ténue e reparadora.
Ali não eramos passageiros ou consumistas de um lugar qualquer: tínhamos que dele nos apropriar.
Desconfiariam da minha memória, mas, não obstante, eu retenho as manhãs frias para “apanhar” um bom lugar, mais difícil ainda quando se decidira que o Louvre seria o sítio indicado para tocar. No pátio, naquele pátio, onde ainda não havia, ao tempo, uma pirâmide a servir de obstáculo aos músicos de todas as raças e nações.
Comigo levava tanta força … mas também levara a angústia de ter perdido, pela primeira vez, alguém que me tinha sido tão querido e que se suicidara!
Podia ter-vos contado que a minha adolescência tinha sido passada entre jogos de aprendiz de mulher e o desejo que fosse ao mesmo tempo filha e mãe de alguém.
E que não tinha conseguido, porque, repentinamente, me obrigaram a ser, quase a tempo inteiro, mãe, sem o ser, e isso eu não conseguia, não podia nem queria ser!
Mas não, eu sabia que em Paris tinha que aprender, que estar entregue ao espaço a descobrir, à música que não sabia tocar, mas vós sim!
Mas aí sorriamos quando podíamos cear nos restaurantes mais caros de Saint Germain, sabendo que, no dia seguinte, podia não voltar a acontecer. Mas havia o momento, esquecendo o ontem e o amanhã.
Há que aceitar o alheamento desta noite. Talvez seja o tal labirinto, onde se embaçará ou se desvendará o fio que gostava de poder tecer.
Ausentes estão, contudo, as mãos que teciam colchas com pequenos retalhos, numa trama fina dos dias, em tear tão velho como o silêncio.
Quem sabe? Apenas sinto que definitivamente alguma coisa tem que acontecer!
Tenho ainda espaços vazios, folhas soltas que não consigo ordenar. Ou são vidros que não consegui definitivamente quebrar.
Há que saber abrir esta caixa, soltar os sonhos e os pesadelos de Pandora… sei que um caminho novo há que percorrer.
Há fantasmas que se espalham quando a luz finalmente se apaga. Reacendem-se depois ténues e eu fico esquecida a olhá-las como fazia em criança assim que a noite começava a cair. Imaginando quem e como seriam os habitantes de certos espaços misteriosos, pois a luz velada criava sombras nas paredes das habitações. Revivi essa sensação na Place des Vogues, mesmo ali, enquanto escutava os sussurros transeuntes cansados regressando a casa.
A música consegue agora fazer-se ouvir. Gritos, gemidos, sussurros.
Quem sabe apenas sonho acordada com os sons da infância! Barimbaus, batuques, marimbas semeando-se no ar.
Aquela infância vivida entre o muito calor húmido.
Sempre numa sofreguidão inquieta de que passasse aquele bafo abrasador, que nem as grandes pás de ventoinhas penduradas no tecto, com o seu som compassado, conseguia fazer afastar, até que a chuva torrencial vinha as nuvens barrentas poisar. No chão, como um manto ou uma mortalha, jaziam depois sem asas milhentos minúsculos corpos de seres que haviam sido voadores e que, depois de o deixarem de ser, serviam de refeição a quem deles se conseguisse alimentar.
Ou naqueles lugares recordados de sombra e luz, onde tive a sorte de muito menina poder acampar. Longe de tudo, dos centros, das luzes e dos ruídos, mas, principalmente, do ninho paternal.
À  noite, algumas noites, uns estranhos brilhos caminhando montanha adentro fizeram-nos imaginar que a morte estava ali, nas mãos de angolanos revoltados com a situação colonial, porque a guerra morava ao lado, mesmo que a quisessemos ignorar, até que, silenciosamente, pois dormiam quietos centenas de nós, guardados por frágeis palavras como “sentinela alerta … alerta está”, e se conseguira deslindar que, afinal, não passavam de sinalizações dos guardas florestais.
Fotografia: Vale dos Macacos, Dalatando (antiga Salazar), da autoria de Jorge Peres
E ficava ainda o pânico da primeira galinha para matar, pois tinhamos que aprender a sobreviver, mas cujo olhar assutado não me permitia que o conseguisse fazer.
Quedava ainda o silêncio de alguém que sabíamos aprisionado numa na noite, numa pequena embarcação a quem os companheiros de acampamanto da Casa do Gaiato haviam resolvido que estava na hora de lhe pregar uma lição, abandonando-o à lagoa.
As ruas da cidade onde vivi a primeira infância eram ladeadas de construções baixas, e, à sua entrada, viam-se casas feitas de colmo e de barro cozido ao sol; frágeis pareciam, mas não o são, são os lugares frescos de habitar o dia e a noite, estendida já a esteira fresca na hora do adormecer.
Quando nos aproximavamos da cidade onde vivi a meninice, Malange de seu nome, havia alamedas de árvores pintadas até meio, com uma cal muito branca.
Nunca entendi bem porque faziam isso. Disseram-me, mais tarde, que era por causa dos bichos que, cobiçosos, sedentos, delas se poderiam querer apossar.


Mas havia bairros, o Bairro Azul e tantos outros, havia cinemas, praças e jardins. A papelaria/livraria Sagres onde o meu pai, porque ali trabalhava já a desoras, para melhor equilibrar a economia familiar, abrira conta aberta para as filhas poderem comprar os materiais escolares e os livros que a curiosidade começava a despertar.
E recordo um dos mais bonitos episódios que a amizade pode conceber. Ter perdido o meu estojo Kern que o meu pai com tanto carinho me oferecera à entrada do Liceu. Envergonhada de não ter sido suficientemente responsável, não fui capaz de lho dizer. Mas depressa encontrara com uma grande amiga, a Milinda, a solução. Falar com o dono da livraria, onde o meu pai para mais contribui para o orçamento familiar fazia a desoras o seu contributo contabilístico,  e pedir-lhe que me vendesse um outro igual a prestações, pagando com a mesada que a minha amiga e eu tinhamos dos nossos pais. E ele acedeu.
Nessa amizade, nessa noção de partilha reside ainda tanto a minha crença nas pessoas que sei amar sem medo.
Havia o café Arcádia, onde, já adolescente, ia todas as tardes, terminadas as aulas no Colégio de que já me fartara, sempre a minha maior amiga, a Bicas, tomar uma coca-cola a meias, pois a contida mesada não nos permitia mais.
Com ela cometi a primeira e quase única façanha de roubar um objecto: uma caixa de pinturas da Lâncome, acto que me pesou na consciência, até que, muito recentemente, tive a sorta de encontrar a dona da loja e de lho poder confessar. Rimos as duas, pois tão habituada estivera a esses furtos episódicos de adolescentes.
Mas, nem nessa altura, o sossego me dava as mãos.
Ria alto e sem medo, para o convencionalismo de alguns rapazes da minha rua, que eram afinal tão rapazes como os de outro lugar qualquer. Usavam apenas calções até mais tarde, porque o clima assim os deixava crescer.
Os seus ouvidos eram demasiado melindrosos ao riso afoito de uma menina que tinha o descaramento de partilhar as brincadeiras, de correr pela rua abaixo: umas vezes recheada de lágrimas, porque havia braços partidos com biciletas sem travões, ou por causa de zangas de ocasião, e outras, tantas outras vezes, de risos alegres e sem pudor.
O que poderia eu fazer se, desde menina, me afastava das refeições que comiam os meus pais para, junto das lavadeiras, comer aquele funge geloso e fantástico molhado com óleo de dendém, com sabor a peixe ou a galinha do quintal?
Aí aprendi as primeiras asneiras que ainda hoje sei de cor e que, num Quimbundo exaltado, ainda uso das poucas vezes que quero insultar alguém. Dá-me prazer sabê-las e usá-las sem que em meu redor as possam reconhecer.


Fotografia de Lito Martin
A casa verde foi onde vivi nos últimos momentos em que estive em Malange.

Mas, continuava a repetir com a Milinda e outras amigas, rua fora, até à exaustão, a palavra mágica que aprendera e que me fazia saltar para um outro lado encantatório da vida, mudado que estava o vento e de feição: supercalifragilisticexpialidoce!
Agora, ainda mesmo ontem, abraçando-a entre lágrimas de comoção, sei que baixinho dissemos a mesma palavra, dando novamente um salto que fez girar o mundo.
Imaginava-me naqueles sítios, pela mão de um amor sem regras, sem tempo e sem medos, como os dois feiticeiros da Mary Poppins conseguiam inventar, pois, estou certa, seriam assim essas duas personagens principais.


Já aí o amor me queria trocar as voltas.
Não, não olhes para mim de olhos falsamente arregalados, de pasmo ou escândalo fingido, por to estar a contar, pois amores múltiplos sabe-los de cor. Não me espreites quando estou a escrever, com receio que as minhas palavras atraiçoem os teus gestos, ou por conseguir dizer que já antes amei. Sabes bem que creio que o último amor é sempre o maior, pois terá afugentado finalmente todos os medos, todos os fantasmas que a vida semeou e só assim se pode consumar a entrega.
É verdade, entre os saudáveis “saltos ao eixo”, as corridas de trotineta com rolamentos rua fora, como tanto gostava, as voltas em contravoltas em bicicletas mesmo sem travões e os mergulhos meio assuntados da última prancha da fantástica piscina onde aprendi a nadar, não havia para mim lugar àqueles amores enfadonhos e casadoiros que tantas meninas da minha idade suspirando alimentavam. Sempre sonhei outros amores bem mais densos, ou, quem sabe, se no fundo de mim não imaginava o amor de um irmão! Ou de uma grande paixão … No meio, nesse meio cinzento em que tantos assentam a ilusão ou o utilitarismo, para mim não havia lugar ao que chamam «amor convencional».
Quem sabe fosse isso, sonhara um estranho amor de irmãos de um pacto feito em comunhão.
Como imaginei o sentido da paixão a primeira vez que visitei o Mosteiro de Alcobaça.
De ambos os lados do transepto encontrei um túmulo. Desenhados na pedra calcária branca, num gótico rico, mas de uma austeridade que só a pedra lhe pode dar, despojada hoje das pinturas medievais e talhas barrocas com que o tempo a havia envolvido. Soube que eram os túmulos de Pedro e de Inês de Castro, a história que Camões tão bem cantou no Canto III d’ Os Lusíadas .
Tu, só tu, puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.
Camões, Os Lusíadas, Canto III

Arrepiou-me sempre aquele Mosteiro de paredes altas, onde no silêncio parece ainda entreouvir-se os cânticos de frades cistercienses: as laudas, as matinas, vésperas acordando ou adormecendo a construção.
Porquê Pedro e Inês naquele local? De lados diferentes, mas, no entanto, tão perto na morte. D. Pedro, o Crú, que coroou a sua rainha depois de traiçoeiramente assassinada. Arrancando o coração dos criminosos, como talvez pudessem merecer todos os traiçoeiros, se a justiça humana existisse e não nos pudesse enganar amargurando depois o remorso.
Pensei no frio que a morte tem. Mas senti claro que nem sempre é um fim triste.
Aqui era a coroação desse amor que tinha algo de incestuoso, adúltero, proibido, enxameado de medos, de urdiduras, mas cujas amarras os tinham prendido para sempre naquela pedra branca.
Porquê Pedro e Inês, essa bela Inês de Castro, que, em 1355, é morta às mãos dos ministros do rei D. Afonso IV de Borgonha, pai de D. Pedro, seu amante?
No entanto, a minha história de amor era algo era diferente, porque nela Inês tinha um irmão de olhos claros e tristes. Daquela clareza que se não vê o fundo, tão profundamente se encontra que dá vontade de espreitar para imaginar o que para lá deles existirá.
Dormia Inês num quarto contíguo ao seu, paredes meias com a solidão.
À noite ficava à espreita até tardias horas, na expectativa de entreouvir os passos do irmão.
E as noites cresciam sempre à dimensão da ansiedade calma de quem gosta de esperar.
Embrulhava-se toda nos lençóis, ou nela mesma,corpo nú e janela aberta.

Pois tanta cor havia que reter, ou tanto o calor.
Lá fora havia sombras e transeuntes lentos, cambaleantes. O ladrar ou o uivo de um cão, nas noites em que a lua se tornava cheia e redonda, o beijo clandestino de um casal. Nada a assustava. Nada a entusiasmava. Gostava de ficar apenas a espreitar.
Inês nunca sabia onde o seu irmão Pedro passava as noites. Sonhava-o quieto em sítios de pouca luz, observando as mãos e o corpo desarticulado dos clientes habituais de um bar qualquer. Absorvendo os ruídos abafadores desses lugares, como quem escorrega num copo de Genebra ou de Gin.
Talvez em qualquer canto de um jardim. Bêbados, mulheres fáceis ou prostitutas de gargalhadas estridentes. Ou murmurando, quem sabe, um segredo a mais uma furtiva mulher. Numa esquina qualquer.
Pedro regressava sempre tarde. Quando ela já dera a volta ao mundo e finalmente se deixara perder. Perdia as mãos, as pernas, os cabelos. Ficava numa dormência lenta e depois deixava de se sentir. “Quem sabe a morte seria assim”, pensava. Mas ela não queria morrer, mas simplesmente ficar quieta por entre os sonhos que todas as noites inventava.
Diziam que Inês dormia de olhos abertos. O porquê nem ela conhecia. Talvez acreditasse que, deste modo, a noite não a apanhasse desprevenida: quem sabe temesse que Pedro a pudesse encontrar já adormecida ou ela não conseguisse escutar-lhe os seus passos quase insonoros gomo o dos gatos. Ou então era a forma de melhor interpretar o recado dos sonhos que tinha, pois ela sabia que os conseguia decifrar.

Aí via Pedro no alto-mar. Marinheiro seria, ou somente um passageiro tranquilo. Dias a fio. Mar e mar, céu e céu. De noite tinham ambos cor de chumbo. Sem saber onde acabava e começava um e outro. Não fossem aquelas pequenas pintas brilhantes no céu que também se viam do quarto de Inês.
Pedro passeando-se no convés. Música distante, talvez nem fosse do interior do navio, como eu ouvira nas travessias do Atlântico nos paquetes da minha infância. Ou percorrendo-lhe todos os cantos, no meio dos botes de salvação, das bóias cor branca e laranja, vendo-se somente a nuvem do seu cigarro.
Com os olhos sempre brilhantes, como se fosse, de facto, um gato pronto a atacar.
Pedro costumava pôr-se de cócoras, olhos esbugalhados. À beira da cama de Inês, os olhos de Pedro adquiriam uma força explosiva. O seu corpo tornava-se tensamente elástico, preparando-se para o salto que só os gatos sabem dar. Outras vezes ficava parado assim, horas a fio, só para a fitar. Como se a quisesse conher, pois dentro dela havia tantas coisas ainda para descobrir.
Inês nunca tivera a certeza da verdade das histórias que Pedro lhe contava. Eram todos os dias outras, diferentes, sem nunca terminar.
E Pedro voltava sempre para lhe beijar as mãos. Cobria-lhe então o corpo com os lençóis já amarrotados da noite.
As suas mãos eram grandes. Ligeiramente quadradas, tinham a força de quem é capaz de puxar as amarras de um navio. Talvez Pedro fosse mesmo um marinheiro de alto-mar!
Um dia contou-lhe que um marinheiro tinha caído ao Oceano. Talves o sono, o álcool, ou apenas a vontade de mergulhar na infinitude do mar …
Um alarme tocara feroz! A tripulação inquieta viera ver. Botes e mais botes se fizeram ao mar. Pedro remara até à exaustão. Mas o corpo não aparecera. Só Pedro vislumbrou o segredo. Na noite desassossegada boiava sobre as águas um tecido muito branco. O marinheiro despira finalmente a roupa de si. Quisera morrer corpo nú, todo entregue ao mar. Ao lado boiavam papéis. Cartas talvez: quem sabe o marinheiro apenas tinha perdido a vontade de se escrever.
Inês ficava triste quando ouvia estas histórias. Mas pedia-lhe que contasse mais e mais. Como se desejasse que as histórias tivesem um fim feliz. Mas ela sabia tão bem que a morte poderia ser também um bom final!
Porque ela nunca tivera um amor, daqueles cor-de-rosa de que se costuma falar. As histórias de amor de folhetim pareciam-lhe sempre monótonas e banais.
Nunca compreendera o ciúme. Talvez porque soubesse que Pedro voltava sempre, para lhe contar histórias diferentes e com os olhos a brilhar.

Imaginava enviar-se por telepatia a História da Rainha das Neves, pois sonhara-o também na terra do gelo e das renas, fascinado entre as salas do palácio real. Outras vezes, não sabia bem, essa rainha não era a Rainha da Neve, mas a rainha do calor, quem sabe a tal Ginga de que contavam coisas terríveis também.
Um dia Pedro foi a um baile de máscaras. No meio das pessoas assim escondidas, ele vira então uns olhos iguais aos seus. Perseguira-os toda a noite, no meio dos convidados. Uns fumando cigarros, outros cigarrilhas ou charutos, bebendo copos de champagne.
Parados nos enormes corredores da casa, havia personagens garridas mas, no fundo, todas iguais.
Pedro desconfiara, por momentos, que Inês pudesse esconder no seu silêncio um segredo. As noites que, afinal, ela nunca lhe contara … porque a imaginava sempre quieta, ali, como quem gosta de esperar…
Mas talvez Inês não estivesse à espera como aparentava. Receou que ela o tivesse perseguido naquela noite, da mesma forma e com a mesma ansiedade calma de quem sabe aguardar, até que desistiu, cansado, de a procurar. E voltou para casa mas, desta vez, com o coração a bater, quase a explodir, sem saber se a encontraria ou não.
Alguns dias, muito poucos, Inês fingia que não estava quando ele regressava. Não pelo prazer de o fazer sofrer. Sabia que não o fazia sofrer!
Gostava apenas de se esconder, enrolando-se na cama quente. Sentia prazer no jogo que jogavam. Como se fosse às apanhadas.
Sabendo Pedro que ela estava escondida em si mesma, procurava-a pela casa. E ela enrolava-se cada vez mais, como a proteger-se de um ladrão imaginário. Só para jogar, pois eles gostavam de brincar!
Certas noites Inês desencantava um xadrês velho. As peças eram de marfim e de pau preto: as brancas estavam já amareladas de tantas vezes serem jogadas ou escondidas. E a cada jogada, a cada passo da rainha, do bispo ou dos peões, inventava caminhadas longas por entre jardins de um palácio antigo.
Num chão com tapetes de veludo vermelho, imaginavam-se princípe e princesa.
Talvez fosse um castelo ameado, um quadrado interior, de onde desafiavam os inimigos que inventavam. Seriam impenetráveis.
O castelo era fresco, musgoso em alguns lugares, mas compartimentado em minúsculos quartos e salas labirínticas onde se podiam encontrar ou perder.
À volta era a planície.
Sabiam bem que não havia nenhum inimigo a combater. Nem a morte. Se existisse seria sempre dentro de si. E, portanto, não havia que o inventar.
Era esse o seu segredo, e mantinham-no calados. Nunca falavam dele, talvez com medo de o deixar esfumar-se por entre as gretas das janelas. Depois adormeciam cansados, sonhando com outros lugares. Até que o dia os vinha espreitar.
Por vezes, Pedro chegava cheio de risos inquietos, intranquilos. Ela estranhava-o então. Parecia que os seus olhos ficavam elouquecidos, fixos e presos num lugar que não conseguia deslindar. Nessas alturas, o seu rosto mudava de cor e ela ficava de voltas trocadas sem o conseguir focar.
Tinha que lhe falar, então, docemente, como se fizesse festas vagorosas no gato que nele despertava em algumas noites de vendaval.
Descobria-lhe depois os pelos, festejando-o, como se descobre as ruas por onde não anda ninguém ou os becos onde se possuem amantes, apenas tendo a Lua como visita.
Outros dias, serenos, vinha ainda dar-lhe comida à boca, como se ela de um pássaro se tratasse. E dizia-lhe como se falasse com uma andorinha «anda pequenina, anda comer à minha mão». E Inês ia, provando-lhe assim que sabia confiar no seu amor. Parecia assim que estava junto a um abismo, a uma falésia, horizontes abertos até ao seu mar de menina. Mas Inês não tinha medo desse abismo.
Ela sabia que o irmão tocava um instrumento qualquer. Nunca o vira tocar. Pressentia apenas uns sons vagos no ar. Ora melodioso, ora gritos selvagens, como uma alma penada pairando na noite. Imaginava-o também tocando numa orquestra.
Mas aqueles sons vinham do jardim. Uma banda tocando no seu próprio jardim. Vento ligeiro. Gostaria que fossem umas baladas dançando com o vento. Pedro vestira-se de negro.
Ela já ouvira falar de jazz. Na rádio que raramente ligava, enumeravam estranhos apelidos e temas e depois passavam a ouvir-se sons e mais sons.
Pedro tentara ensinar-lhe o que queria dizer jazz, acordes, escalas, desmontando-lhe nota a nota a música, como um puzzle de peças difíceis de colocar.
Não sei bem se seriam como os sons do concerto que me recordou a infância os que encantariam mais Inês. Uns dias sim, outros não.
Mas Inês não gostava de saber como era construída a música. Preferia aquela sensação de que ela existia por si, como o vento rodopiando entre as árvores, as fragas que conhecera em menina ou a da rebentação do mar.

Pedras Negras, Malange, Angola
Inês não gostava de escalas, como não gostava de histórias complicadas, de fim triste ou sempre iguais.
Preferia que as histórias não tivessem um fim, como esquecer que a música tinha dós, rés, fás, mis, sóis …
Seriam assim sempre diferentes. Como as letras do alfabeto hebraico as combinatórias de sons deviam soltar-se aleatoriamente como que conduzidas apenas pela centelha divina, sem que os humanos lhe descortinassem o sentido.
Só o seu quarto era sempre igual. Ela não se importava com isso. E os lençóis eram brancos, sem uma mácula qualquer.
Algumas noites Inês divertia-se passeando pelo tecto, de tanto esperar. Cabeça para baixo, descia depois pelas paredes. Passo a passo, vagarosa, olhando as sombras que a luz do candeeiro fazia nas paredes. Contornava-as, ou dava altos de sombra em sombra, tocando-as ora com as mãos, ora com os pés.
Os móveis, poucos, ficavam engraçados quando vistos assim de cima.
A cama surgia-lhe então toda embrulhada em si própria e Inês ria-se, porque parecia não lhe pertencer.
Outras vezes, deixava que o seu tamanho diminuisse. Tanto, tanto que ficava como uma letra minúscula de um livro. Talvez fosse um a, um u, ou um i, porque lhe era simpática aquela pinta que algumas letras têm.
Entretinha-se daí em diante a baralhar as palavras todas, saltando de livro em livro, até que ficassem ilegíveis ao comum das pessoas.

“No lui cheuo focum os sombrus pouces”.
Inês tinha poucos livros e não gostava de os emprestar.
Queria tê-los sempre à mão, brincar com eles, espreitar-lhes e deslindar-lhes as palavras, trocar-lhes os sentidos, abri-los de repente, um após outro, retendo apenas algumas frases ….
Pedro havia-lhe contado que uns senhores, não se lembrava bem do nome deles, abriam os livros à toa e depois juntavam palavras ou frases e com elas faziam um texto. Como as letras combinadas do alfabeto hebraico faziam a História.
Inês achara piada à ideia e costumava fazer o mesmo. Depois punha as letras do fim para o princípio a tentar que elas fizessem algum sentido! Mas nunca as escrevia. Pensava que as palavras têm graça simplesmente para jogar com elas no ar.
Por vezes, quando Pedro chegava a casa, soprava-lhes com tanta força que parecia um vendaval.
Um dia apanhou uma frase que dizia «O ROMA ETSIXE ERPMES AN ETION AIRÁTILOS».
Reteve-a, repetindo a frase, como se bebesse as palavras e depois num grito como nunca se lhe ouvira disse: Já sei. Finalmente sei. O amor é assim!
Outras vezes Inês imaginava-se embrulhando os objectos perdidos da sua infância. Tentanva recordar-lhes as formas, acarinhá-los imaginariamente, pois perdidos haviam ficado na travessia que fizera do Oceano.
Ficaram depois como que assustados a olhar para a noite demasiado adiantada.
Pedro tinha boa memória. Como toda a gente, reinventava sempre a memória.
Lembrava-se dos jardins e das ruas da sua infância. Não era o mesmo de Inês. Mas ele pensava que lá teriam brincado juntos.

Fotografia do Album de Lito Martin «Malange».
Inês tinha conseguido voar. Ali naquele jardim. Mandava-se do alto muro, como eu fazia do galinheiro que havia no meu quintal de menina. Era bem alto para a idade pouca. Abria os braços simplesmente e depois ficava a planar. A partir daí, toda a vida voou a sonhar.
Por cima das árvores, das casas e das ruas da cidade onde habitara ou dos campos de algodão.
Sabia que o clima era húmido e que, no fim da viagem, o seu corpo era água densa escorrendo e as suas asas como as de Ícaro perdido. Uma espécie de poça que se formava à sua volta. Talvez o prenúncio do mar. Do céu e do mar. «Um dia ainda te vou levar», disse Inês daquela vez, tentaremos os dois Pedro. Mas Pedro nunca chegou a tentar.
Um dia, sem que ela entendesse porquê, Pedro não voltou.
E Inês adormeceu finalmente, diluida na sua própria água, sentindo que talvez a morte a tivesse vindo buscar.
Desta vez, não deu conta nem da dormência, nem da sua perdição. Não sentiu as mãos, a cabeça ou o corpo. Adormeceu, e os seus olhos da cor do mar finalmente bem fechados se deixaram ficar.
Pedro, quem sabe, seja aquele marinheiro entregue ao alto-mar. Apenas tenha perdido a vontade de se contar e mergulhou fundo, tão fundo, que finalmente se deixou engolir!
Mas recordo tão bem esse dia em que visitei, pela primeira vez, o Mosteiro de Alcobaça, como ter chegado a Alvalade de comboio apanhado no Barreiro, após travessia do Tejo, tendo por companhia, para o mergulhar da noite, já em pleno Alentejo, o meu leitor de cassetes com headphones.
Para trás ficavam os amigos e familiares que, em fins de tarde domingueiros, a casa iam recolher.
Mas, não ficavam só os amigos, os hábitos, as minhas “geografias afectivas”, mas também o trabalho que gostava de fazer, porque a outra tarefa havia que me dedicar, pois não podia correr o risco de perder o vínculo à Educação de onde me encontrava afastada por destacamento.
Recordo as primeiras chuvas do Outono, sair num apeadeiro mal iluminado; parar e recomeçar de novo a caminhar com os sacos de viagem na mão, num percurso onde apenas pontuava a luz da fábrica de descasque de arroz e, alguns dias, confesso-o, quase nem sabia se o que me corria no rosto eram lágrimas ou as bátegas que mo fustigavam.
Julgo ter sentido na pele, nos primeiros tempos, a sensação que deve ter tido o Padre Jorge Oliveira, quando para Alvalade foi morar, pois para mim representou, nessa fase inicial, como que um sítio de “degredo”, onde apesar de já não grassar o paludismo, ainda se podiam refugiar mal amados (ou mal “comportados”) da antiga corte ou da urbe actual.
E assim assentou arraais em Alvalade uma urbana convicta, pese as inúmeras e cíclicas incursões de trabalho no Alentejo, mas que apenas duravam temporadas.
Lembro-me depois que poisava sacos e malas em casa, já noite feita nas ruas do aglomerado.
E, por chegar a horas tardias, quantas vezes imaginava poder comer num sítio qualquer. Mas em vão procurava um restaurante. Apenas uma pequena tasca, nas imediações de minha casa, vendia umas bifanas para quem chegava a desoras.
Tenho ainda dentro de mim essa sensação de lá entrar … era a única mulher!
Homens, apenas vultos de homens apinhando o espaço, olhares intrigados por ver entrar aquele ser estranho, ainda por cima mulher.
Recordo esse frio, a somar ao frio de ter conseguido ali finalmente chegar. Mas nunca desisti de lá ir. Sempre que me apeteceu, ou a necessidade o exigia.
Como não desisti de conhecer o sítio onde estava e que, devagar, devagar, me foi dando a conhecer os segredos que o Sado construiu ao longo dos séculos, nem de olhar com atenção os telhados cobertos de gelo com que acordava nas manhãs de Inverno.
Vinte anos mais tarde reencontrei ali um outro sítio e encontro os amigos que me ajudaram a conhecer um outro local, tão diferente se demonstrou do das primeiras impressões.
Mas, para que assim fosse, houve que desbravar o tempo e o espaço naquele sítio, em seu redor.
Houve que marcar as horas, cerrando as portas a tudo o que fosse desperdício de tempo, pois havia um estágio a fazer; um trabalho a desenvolver e um Clube Europeu de Arqueologia para implementar na escola, para que não se esbatesse da memória dos alunos a memória do seu lugar.
Aí colectámos peças arqueológicas de vários lugares: da casa do Povo que, de boa fé, os cedeu; de particulares e outros, avulsos, encontrados em visitas efectuadas a sítios deixados ao abandono.
Aí catalogámos e marcámos pequeninas peças, tentando ensinar e aprender que cada uma delas tem uma história para contar e organizámos conferências, falando de Egípcios, de Romanos e da Conquista Cristã.
Em Alvalade descobri que a ponte não era senão a passagem para outros lugares. E reforcei a ideia que resistir, continuar é o sítio de quem não quer parar.
E, porque a vida se encarrega de tudo nos fazer reencontrar: as coisas e as pessoas que aprendemos a amar, abrindo e fechando círculos, melhor, abrindo-se em espiral com os anos carregados do que nos fiz viver e aprender, só posso manifestar aqui e agora a minha alegria ao saber que a história do Sado e do território que ele banhou de uma forma mais aprofundada irá ser contada, em Setembro, na Misericórdia de Alvalade.

Alentejo: fotografias de Filomena Barata

Não sei se foi esse Alentejo que aprendi a amar, porque outro mais também conheci, anos mais tarde, longe desse Sado que lhe alaga as margens, fazendo adocicar as memórias, pois as terras ribeirinhas ou as palustres são férteis na produção mas não na recordação …
Com elas se coadunam melhor os campos de sequeiro, as poucas sombras onde se abrigam contos e se escondem alegorias por baixo de cada pedra, de cada oliveira.
No entanto, sei que esse Alentejo está ainda tão presente, como um pano de fundo, em todos os lugares que visito, talvez porque nele senti mais próxima a África que me viu nascer.
E porque há viagens que, depois de empreendidas, não têm retorno, nunca se dão por terminadas!
Há apenas que dar aos caminhos que vamos percorrer uma força redobrada pelo que, entretant,o fomos capazes de aprender. E iniciar nova peregrinação!
Porque o que perdura, o que vale, um dia se reencontrará. E o que tem que morrer, morrerá.

Sei que o Alentejo é um lugar cheio de sol de espaço, onde perduram ainda oliveiras em alguns dos seus lugares e semeadas houve, em tempos, searas trigueiras.
Isto nas planuras, porque esse espaço era tão, tão grande que nele também havia lugares cheios de esteva, infestando hectares e hectares, e outros, onde o montado teimava em sobreviver, abrigando as “zorras” quando anoitece, e onde escavam tocas os coelhos bravios, e sobrevoam as sobranceiras águias ao alvorecer.
E sei ainda que, uma vez, nesse lugar habitualmente raiado de um Sol que quase tudo queima, o céu resolveu esconder-se e, durante dias e dias a fio, molhar searas, estevas, montados e arrozais, uniformizando tudo com uma luz cinzenta no céu e tudo tapando com uma lamacenta superfície na terra.
Os tímidos ribeiros transformaram-se, de repente, em tumultosos rios e os açudes e barragens, usualmente brandos, espumaram uma água torrencial que arrastou para as suas margens barrentas tudo o que nas águas havia a boiar.
E, de repente, o frio foi tanto tanto que até, em alguns locais, a chuva se transformou em neve e cobriu o resto dos campos e os lugares sagrados.

Esse lugar, habitado por um povo de tez morena, onde se cruzaram romanos, mouros e ciganos, estranhou tais fenómenos da natureza, pensando mesmo que, desta feita, os deuses os haviam definitivamente abandonado.
Os poucos habitantes que já o ocupavam chegaram mesmo a julgar que era um convite dos céus ao abandono definitivo do seu lugar.
Só alguns deles teimaram em ficar.

Entre eles, um, provavelmente de remota origem cigana, notória, quer na tez, quer na altivez do porte e das atitudes, bastanto a cicatriz entre os olhos para confirmar a sua natureza, resolveu empreender uma viagem, porque era a única forma de um dia poder voltar.
Esse habitante sabia que, para apaziguar os deuses, havia que visitar os lugares sagrados que, antes dele, as divindades haviam semeado nos inacessíveis sítios do seu território. E, tal nómada de sangue, decidiu percorrer esses sítios, enfrentando chuvas e torrentes.

Um a um, visitou-os. E em cada um deles homenageou a divindade, quer fosse uma força anímica, as forças que protegiam os mortos num abrigo rupestre, o orago de uma anta outrora cristianizada, Vénus e Marte num templo romano qualquer, ou numa ermida dedicada a S. Torpes, na Senhora da Boa Nova ou às águas da antiga represa Romana agora cristianizada que em Cuba se pode encontrar.



Fotografia Escoural: Manuel Ribeiro

Contudo, o tal habitante de origem cigana não foi só. Ele sabia bem que para apaziguar a natureza e as divindades precisava da companhia de uma mulher.
Poderia ter escolhido uma da sua raça. Teria sido quase natural fazê-lo. Mas não. Levou consigo alguém que o ajudasse a descobrir outros tantos sítios sagrados que para ele eram desconhecidos. Porque, face a tanta calamidade, a viagem tinha que ser longa e muito prolongada.
Atravessaram caminhos e estradas, algumas vezes quase foram levados pelas enchentes. Espreitaram amontoados de pedras, onde abrigados haviam dormido deuses e descansado homens. Em alguns deles jaziam mesmo mortos milenares.Viram casas onde o abandono dava lugar às almas penadas.

E espreitaram também santuários muito antigos e outros mais recentes dentro dos quais ainda suavam velas que os orantes haviam deixado ficar.

Viram castelos encantados ou talvez de encantar.
Alguns falavam de grandes tranças femininas a aguardar o resgate, prisioneiras que o tempo transformou em deusas solitárias, ou moiras enfeitiçadas que, de noite, escondiam tesouros e segredavam murmúrios.
Chegaram mesmo a visitar o mar também revolto. E aí vergaram-se perante forças tão antigas como a própria terra.
E em todos os sítios deixaram oferendas. Em todos eles oraram de acordo com o que um sabia e cria, pedindo que o Céu voltasse a sossegar.

Fotografia: Manuel Ribeiro

E um dia, depois desse longo, muito longo, périplo, o Sol voltou a raiar forte e cheio de luz.
O homem e a mulher cantaram e dançaram juntos em honra dele e ficaram acordados um dia inteiro, até o verem, de novo, nascer.
Depois despediram-se. Porque a viagem tinha que terminar. Dela ficou o Sol e este conto que é a melhor forma de sonhar.

Cientes que, um dia, o périplo poderia recomeçar, pois novas fúrias divinas haveria que apaziguar.
Desde aí estão o homem e a mulher estão distantes: cada um partiu para seu lugar, mas sempre juntos, como os dois magos da Mary Popins, pelas palavras que juraram um dia de que se voltariam a encontrar, logo que houvesse necessidade de nova viagem empreender.
Porque há viagens eternas e, como tal, nunca terminarão, como este meu testemunho que jamais findará e me acompanhará até partir.

E por isso ainda tantas outras viagens, uma das quais a Antuérpia, uma das mais bonitas cidades que conheci, tiveram, anos mais tarde, que empreender.
Já ali havia estado, tantos e tantos anos atrás. Esbatida a memória, dessa primeira vez, recordava a praça onde se situa a mais bela estação de comboios que conheci, e as casas de telhados recordados como em histórias infantis.

Antuérpia (zona portuária)

Quase como a história de umas alianças de latão que ali estando, uma segunda vez, me fizeram esfumar da memória tambéns os primeiros dias que lá vivi.
Um árabe vendera-mas, num Domingo em que praticamente todas as lojas se encontravam fechadas. Foi difícil encontrar aquela, mas o seu dono, um muçulmano, conseguiu superar em simpatia a dificuldade de encontrar aquele lugar aberto na perifeia de Antuérpia.
Perguntei num inglês estranho. Tem alianças??? Quase não me entendeu e trouxe-me anéis de fancaria e de muito mau gosto. Até que consegui fazer-me perceber.
Eram poucos os exemplares e todos de latão. Mas lá encontrei uns que me pareceram ser adequados à minha intenção.
O árabe embarala-as muito cuidadosamente, depois de ter experimentado no seu dedo, para ver se se adequaria.
Com eles trouxe um chaperon azul, de um azul côr do céu que ainda guardo comigo, como se de preciosidade se tratasse.
Chovia imenso e comigo trazia tanta vontade de chegar a uma casa que, sendo-me estranha, me foi tão familiar.

Antuérpia. Fotografia PP.

Abri os embrulhos cuidadosamente e coloquei as alianças sobre o chaperon. Colocámo-las nos dedos e pensei que o Eterno estava ali.
Contudo, Antuérpia foi a cidade onde me lembro de ter chorado mais na minha vida. Ao ponto de confundir as lágrimas com a chuva torrencial. De ter pensado fugir; de não querer lá estar. De ter decidido, apesar de tudo, ficar, mesmo com a ajuda de alguém que de Amsterdão viria de propósito buscar-me, pois nem dinheiro tinha suficiente para a viagem poder antecipar.

Antuérpia. Fotyografia PP.

Do colégio onde estudei recordo,

para além da aprendizagem esmerada e de algumas fortes amizades que ainda hoje me acompanham, alguma sensação de revolta pois, exigiam de mim que me comportasse como uma menina atilada que pouco se compaginava com o que eu sentia ser. Por três vezes estive para ser expulsa de um colégio onde pontuavam as austeras Freiras de S. José de Cluny, para desolo da minha mãe.

Coisas inocentes seriam nos nossos dias, tais como tentar entrar conduzindo uma amostra de moto mini-Honda no colégio (e ter entrado, de facto); puxar a farda azul tanto para a encurtar e assim ficar de acordo com moda das mini-saias; fugir por várias vezes ao terço, pois não aguentava já tanta beatitude e enfiar-me na casa de banho, fugindo porta fora!!!!

Nos escuteiros, Fotografia de Beto

Exactamente como ela, talvez um pouco mais alta, plantada naquele quintal africano onde me geraram, cuja cidade hoje quase fantasma, outrora o Ambrizete, hoje o Nzeto, tive a sorte de poder revisitar.
Caminhando quilómetros e quilómetros numa paisagem quase desértica, por entre restos arqueológicos de uma estrada de alcatrão, saltos e saltos sem findar, sem encontrar ninguém, até finalmente encontrar a quieta e repousante missão do Tombôco onde fui baptizada.
Ali orei e chorei convulsivamente, como já há tanto tempo não fazia, mas num choro mudo, porque foi a alegria de me reencontrar naquele local de sossego como poucos conheci.
De lá regressei com uma certidão na mão e, no peito, um terço que me ofereceu o missionário polaco que ali encontrei, o segundo branco que o Nzeto tem. Ou outro, mais velho, assitira já à guerra colonial e a todas as que lhe seguiram, pois por ali dominou a UPA/FNLA, a UNITA até que, finalmente, se intalou o MPLA.
É uma terra dura, sente-se ainda no subsolo dos caminhos que ali vão dar que o terreno pode estar ainda minado, aqui e ali.
Mas não há praias mais bonitas no mundo do que aquelas onde os meus pais se namoraram, passeando-se de mora na areia.

Era ali, em Angola, que brincava aos bolos de terra que comia às escondidas da minha avó. Às vezes, raras, porque o controlo era férreo sobre os bens do lar que “administrava”, pois como viúva precoce e doméstica que era todo o tempo do mundo dedicava a tal função, roubávamos açúcar e farinha e comiamo-los depois em forminhas metálicas.

Fora casada com o meu avô Peres, que morrera cedo, ao que me foi dado saber, fruto de um tumor de uma queda de uma embarcação, pelo que dele recordo apenas uma memória vaga, as histórias contadas pela minha avó e as fotografias que ela sempre conservou.

Era ele um pequeno construtor naval e arranjava os cacilheiros, num estaleiro que existia antes da LISNAVE se tornar a grande proprietária daquele espaço todo, acabando com esses pequenos construtores.

Restou-lhe rumar a Angola, para continuar a sua actividade de construtor.

Lembro-me de a minha mãe de me falar das docas secas e, coisas certamente de uma memória de bastante nova, que as placas metálicas quando dos arranjos serem enormes. Sei que ficavam na direcção da Cova da Piedade, junto ao rio de onde ela vinha, atravessando o Tejo para estudar no Atneu Comercial.

Mas regressando aos bolos de terra, era das poucas brincadeiras de menina, para além das correrias de bicicleta e de trotineta, que me conseguiam prender algum tempo e partir os braços, em momentos de menos sorte e de dor!

Nesse quintal que agora não fui capaz de reconhecer por entre uma fiada de casas baixas e coloniais dizia-se que, um dia, tinha aparecido uma cobra cuspideira, que apenas teria atingido, por sorte, os óculos do meu pai deixando-o incólume à cegueira que se vaticinava a quem de tal ataque pudesse ser vítima.
Mais tarde, já num outro quintal, malas feitas rumando ao interior, pois a guerra quando se iniciou no Ambrizete fora violenta demais, nesse outro quintal em Malanje, onde vivemos a partir de 1962, era na zona mais próxima da casa que se faziam grandes festas de aniversário; mas era também o local onde, sorridente, a minha mãe preparava as nossas festas de aniversário e de baptizado das bonecas como só ela sabia organizar, fazendo os próprios vestidos para a ocasião; se dançava em noites de Carnaval, tornando-se nesses dias um lugar envolvente e especial.

Mas lembro com particular nitidez as tardes quentes, quando ela ali se sentava só, a tomar finalmente repousada o seu chá gelado ou o «mazagrin» habitual, pois toda a vida lhe conheci empenho profissional, exercido anos a fio num edifício rosa-colonial que agora tão bem reconheci.

Fotografia do jardim público do album de Lito Matin «Malanje».
Ao fundo o Banco de Angola, onde trabalhou a minha mãe. Lembro que era a única mulher do Banco de Angola em Malange. E recordo tambémcom um certo orgulho que foi a primeira mulher a tirar a carta de condução nessa cidade.
Ali, no quintal da minha casa, o “Zorba” era treinado, vezes sem conta, por senhoras que se afoitavam a dançar uma música que só aos homens pertenceria dançar, dedicando-se depois a fumar finos cigarros de cores ténues de salmão, rosa ou azul. Tossindo, tossindo como quem fuma por estrita obrigação social.
Lembro os vestidos vaporosos de flores de alças, tal como mais tarde os encontrei no primeiro piso de um paquete qualquer, balançando em movimentos pendulares ao som de uma música suave. O Infante D. Henrique seria, pois, anos mais tarde, recordei as cores de fórmica das suas mesas, os talheres de alpaca, já ancorado e semi-abandonado que estava num porto de mar português. Felizmente parece que voltou a fazer-se ao mar.
A luz nunca é muito azul em Angola. O calor tira-lhe sempre o brilho da luz que no Ocidente europeu conheci e comigo cresceu esta névoa abafada.
Um pouco como a música que agora oiço. A percursão leva-me àquelas zonas de floresta densa onde o verde rouba espaço à cor do Céu.
Faz medo a selva, porque são tão intensos os seus sons, os gritos das aves e os pios e silvos cuja proveniência não conseguimos identificar. Contudo, invadem-nos, tomam conta dos nossos sentidos. Apenas temos a noção de que estamos num lugar qualquer, perdidos do Astro Sol para nos orientar.

Ah, os pirilampos a bailar, enchendo o espaço de luz!

Pirilampos. Fotografia Maria Manuela Mateus

Pirilampos. Fotografia Maria Manuela Mateus

As pessoas que aqui se arrastam cambaleantes podem ser os espíritos da floresta, deambulando na noite deserta de gente, porque não encontram alma onde se possam infiltrar.

Ou o vento soprado por entre esse forte de formações rochosas do Pungo Andongo, Malanje, que em menina visitei, onde dizem ter reinado, numa época em que não era nada fácil a uma mulher governar, a mítica rainha Ginga Nzinga Mbandi Ngola. Disseram-me também nesse extraordinário local que foi a sua astúcia e a capacidade de as armas bem manejar que lhe permitiu construir um reino a que muitos atribuem a origem de Angola.

Ou quem sabe seja o rugido que fazem umas quedas de água ao tombar na terra e que se torna verdadeiramente ensurdecedor.

(Fotografia gentilmente cedida por Lito Martin, a quem aproveito para agradecer do fundo do coração o que tem feito para conseguir manter juntos amigos de infância. Com ele tive a alegria de poder fazer um livro sobre a cidade que tão bem conhecemos, Malanje).
Magestosas como as que tu e eu já vimos, junto ao Sumbe, e ainda bem maiores. O rio formando-se depois, em ímpetos de terra lamacenta, inundando tudo em seu redor. Por vezes lá longe já, em águas mais tranquilas, passeavam-se hipopótamos com ar de quem nos queria cumprimentar.

Ou será o gemido de um rio de águas calmas, mas que tudo inunda, quando chove torrencialmente, jorrando a força vital da água lamacenta em seu redor? Ou as trevoadas daquele clima tropical, que em menina me faziam invadir de um pânico do tamanho do céu, pois não entendia que do mesmo céu pudesse tanto estrondo, tanta luz aparecer! Essas mesmas, para que olhava a minha mãe com um fascínio e desassombro que nunca consegui entender.
As “calemas” em Porto Amboim galgando até às palmeiras do areal? O aquele estranho som que fazem as lagostas desse local, quando em molhe são cozidas em grande panelão condorcionadas no estertor de uma morte que vem devagar.
Quem sabe silêncio de uma lagoa onde se esconde a vida inteira?
Ou os imensos campos de algodão da Baixa de Cassange, esse tapete verde ou branco, quando o algodão já se mostra ao céu, e que se confunde com a neve de que ouvira falar, mas que, só anos mais tarde, pude reconhecer?



Mas foi em África, nas avionetas que tentei aprender a conduzir, numa Cessna e Auster, que passavam “rapadas” por cima desses campos sem fim, comigo destemida lá dentro, porque a meu lado ia quem me estava a ensinar, fazendo “loopings” no ar, que aprendi que o mundo é simplesmente do tamanho que lhe soubermos dar …


Quem sabe fosse do tamanho do oceano, prenhe de calemas na zona pesqueira de Porto Amboim? Rebentando com tanta força que perde quase o sentido falar-se de terra e de mar, pois momentos há que se enredam num vendaval …
Foi aqui, com um temporal assim que temi perder, pela primeira vez, a minha mãe, envolta nas ondas, para cá e para lá, até que uma maior a tratou como uma coisa qualquer cuspindo-a na areia. Era a minha mãe que se reanimava ali, viva, inteira, tendo apenas como dano maior o susto e uma omoplata partida. Chorei ali nesse dia como o pranto que de mim se apossou missão do Nzeto que pude agora visitar.

Sentei-me mais atrás. Apeteceu-me fugir. Esta música faz-me assaltar a mente de memórias que há tanto tempo ando a tentar esquecer.
Mas se as noites são noites que, ao menos, nos deixem espaço para sonhar.
Sabes, tenho saudades tuas, como gostaria destas coisas te poder falar, tu que já foste conhecendo alguns dos espaços onde a terra parece não acabar!
Aqueles de que me lembrava e te falara, quando em terras bem mais próximas de nós contigo via o pôr so sol em dias de calor.
Quem sabe o teu corpo daria sentido ao meu, ausente que anda de si, fixado numas mãos.
Já perdeu o sentido o que te escrevo? Mas eu ainda me redescubro nas palavras com que te repovoei.
“Dormes ou talvez passeies numa rua paralela à minha?
Deixaste as marcas nos passeios por onde te senti os passos, mas não te vi.
Nos vidros ficaram os resíduos dos bafos quentes que não respirei. Vi a rua descampada de seres e sôfrega cruzei-a até à infinitude da noite, mas perdi o teu rasto, o teu gosto de sabor acre e cru.
Se calhar andavas apenas, como eu, à procura de gestos que te coordenassem outros gestos de sentido uno, tão claro como a Luz que não foste capaz de enfrentar.
E a rua foi apenas um espaço de evasão que não se cruzou com o meu.
Estás adormecido agora ou apenas pousas a tua mão noutra mão, receando que a tua possa arrefecer?”
Já semeei tantas noites de ti, inventando-te. Embaciando os vidros com a boca encostada à janela fria: crio-te e apago-te como o faço a mim própria. Para depois tudo recomeçar.
Ficou-me a folha em branco, o papel e as noites sem fim.
Não, já não as cubro inteiras com o teu cheiro que tanto quis reter.
E, contudo, precisava de umas mãos que me afagassem o rosto agora. Que o alisassem, pois o tempo foi já deixando as suas marcas.
São fortes as tuas mãos, mas, contudo, não estão.
O amor de que falavas? Essa tal ideia a que, por vezes, nos agarramos para não nos sentirmos sós! Por isso ele existe sempre de noite, invadido da sobreposição de imagens pouco nítidas. A noite é este estranho lugar de trevas para eu estar só!
E gosto de lhe sentir as horas, os minutos e de a encher de mim.
O dia, esse sim, será pleno de risos claros, da Luz de um novo tempo para respirar!
Aí sim, longe e perto de tudo, talvez nos possamos novamente encontrar.
Passearemos de mão dada, reconhecendo finalmente o valor das palavras que em segredo nos sabemos dizer.
E mergulharemos, depois, em silêncio no Miradouro da Lua até que o dia venha findar-se ….
Num papel já gasto entregar-te-ei a história que tinha para contar, para que a guardes, como se temesse que, na noite, a Luz se pudesse findar.
Mas sei que não, que sempre me iluminará!








Fotografias:
Várias com os meus pais e irmã
Na última fotografia: A minha mãe está à direita, com a Avó Olívia, a segunda mulher do meu avô Raúl Barata, e a minha Tia Henriqueta, no Ambrizete, (actual Nzeto), 1957 e 1958

Em 1974, com desassete anos, em Malange.

Com o António Martinho, que me fotografou e fixou em papel de todas as cores, e me ensinou o gosto pela imagem retida, pois com ele aprendi a revelar, esse milagre de transformar o papel branco numa imagem usando líquidos, tanta, mesmo tanta, coisa aprendi. Ensinou-me que em Portugal havia, na clandestinidade, pessoas que se opunham ao regime e chamou-me a atenção, de uma forma mais sistematizada do que a forma intuitiva como já me revoltava, para os soldados, jovens varonis, que iam para África combater, tal como lhe tinha acontecido a ele. Aprendi ainda o que era a «Seara Nova», o movimento de «Largo do Rato» e despertou-me para as lutas travadas nas Universidades em que participara, nomeadamente no Instituto Superior Técnico. Aprendi o que queria dizer falar de convicções!
Infelizmente, perdi-lhe o rasto, como nunca mais aconteceu com nenhum dos homens que amei.
Ficaram somente imagens fotográficas desse tempo em que descobri o que queria dizer uma mulher desejar um homem pela primeira vez.


Em África, nas cidades, só havia rumores da guerra e apenas através dos relatos dos soldados que tinham estado no “mato” nos apercebíamos que havia muita gente a morrer para que a paz morna dos meios urbanos se mantivesse e para que pudesse florescer a riquíssima arquitectura moderna que enxameou as “restingas litorais” de Angola ou dos fabulosos edifícios e espaços públicos de lazer com que me habituei a conviver desde menina, como cinemas, piscinas e tantos outros lugares.
Piscinas de Malange, a partir do Album «Malange» de Lito Martin


No entanto, o que nos era contado por quem vivenciava a guerra no interior de Angola era de arrepiar, de tal forma que nos fazia pensar se seria efectivamente assim ou não.
Mas de tal forma devia ser a violência do vivido que cheguei a conhecer soldados que, alucinados pela prolongada estada no “mato”, passeavam camaleões a quem davam estatuto de confidentes e companheiros de infortúnio. Um deles que tão bem conheci acabou por suicidar-se um dia, porque não aguentou as memórias da guerra e a ausência de cartas da namorada que havia deixado na “Metrópole” e que o acabara por esquecer.
Com essa idade aprendi tanto, que me julguei quase mulher, se bem que os anos me tenham mostrado como era ainda tão adolescente e cheia de sonhos, como todas as outras da minha idade.
Aprendi o que era a guerra, mas soube também o que queria dizer o amor; o que era perder pessoas e ganhar outras mais. Desde que conheci o António Martinho jamais larguei a minha primeira máquina, uma Voitlander que o meu pai comprara nas Canárias, ou outra qualquer, nem nunca deixei de ter sempre à mão um caderno de anotações, a que, de certo modo, este blogue roubou algum lugar.

                                                                                       A minha primeira máquina fotográfica

Em Dezembro de 1957. Tinha sete meses.
Nos momentos em que redescubro as fotografias do meu primeiro album de fotografias, tento entender-lhe o momento, descortinar-lhe os afectos e os símbolos e fico, por vezes, confusa.
Não sei, por exemplo, ainda hoje, para que serviria o toucado que me colocavam em bébé nas terras quentes de Angola, mas certamente seria para o sol, porque, nesta altura do ano, o calor era muito.
Os Natais em Angola também eram muito quentes. Não sei se lhe conhecerás agora o travo pela primeira vez. Talvez sim, ou talvez não.
Mas sei que se comia também bacalhau cozido com grelos e que a minha avó Assunção acrescentava à árvore já enfeitada com belas bolas de vidro vermelhas e prateadas que o meu pai trazia da África do Sul os seus flocos de algodão, para matar saudades da neve da sua terra Natal, beirã que era de natureza, fibra e carácter.
Ensinou-me o que era a pertinácia e uma certa forma de poder das mulheres que têm a chave da casa e que marcam sempre as horas das refeições e das entradas e saídas de casa aos demais, ensimesmando antigos rancores, ciúmes ou paixões.
E contou-me tantas histórias fantásticas e fantasmagóricas da sua Serra da Lousã.
Rezas e benzeduras, orações que se devia saber de trás para a frente, combatendo assim qualquer malfeitoria. E só com elas, com o efeito que trariam, pois não há afirmação sem negação, o quebrando ou olhado se poderia desfazer.
Mas das mulheres reza também a história da família dos Baratas. Como afirma o meu primo Paulo Barata Dias «a família “Barata” é muito matriarcal…plena de mulheres “fortes”, “marcantes”, os tais nós que permitiram que todas esta malha de vida se tecesse com tanta “substância”…preguiça para encontrar palavra melhor! Mas, em todas estas gerações (3/4), identificamos perfeitamente todos esses momentos sempre à volta de “mulheres”.

Foi em Vila do Conde e em tantos outros lugares que nessa viagem visitei, em 1964, com um braço ao peito, partido a bordo do Infante D. Henrique, paquete que nos tinha conduzido a Portugal, que foi que me foi apresentado Portugal.
Ainda me lembro das festas da passagem do Equador com mulheres de vestidos assetinados e decotados de flores e homens garbosos a dançar, os sons da música e do bingo, bem como das paragens e pequenas incursões ao Funchal, onde mais tarde regressou parte da minha família, por parte da minha avó Inês Albarran, e às Canárias. Nessa altura, nesse exacto momento, alguém ia à piscina parar, pois dentro de água fria havia que o Equador saber cumprimentar.
Recordo a primeira chegada a Lisboa, lançando-se sobre o rio uma construção ainda inacabada. Era a Ponte então denominada “Salazar” que, com tal grandeza, pretendia dar a conhecer ao Mundo que este país “à beira-mar plantado” também se conseguia afirmar.
Primeiro fora uma imponente exposição, António Ferro a concebera, que tinha tentado mostrar quão grande era esse país pequeno e tão amesquinhado. Dela pouco restava, mas um padrão recordava ainda a epopeia de destemidos heróis do mar, uma praça com uma fonte luminosa que dançava ao som da valsa, e o espaço onde hoje é o Museu de Arte Popular.
No cais, saudavam chorando os familiares da alegria de ver chegar quem há tanto tempo não encontravam. Mas também jorravam lágrimas amargas de quem dos seus apenas via apenas uma “caixa de pinho”, como diz a canção.
Chegara a Lisboa, a cidade onde hoje tenho a sorte de viver. Porque sempre a amei, mesmo sem a conhecer: as ruas de que me falava a minha mãe; o café Nicola; o Chiado ou o Atneu Comercial onde ela estudou; os gelados italianos que comia nos Restauradores, pois nunca, nem nos dias mais felizes que me lembro de ter visto a minha mãe em Angola, onde viveu mais de metade da sua vida, deixei de ouvir falar da sua cidade natal.
Sempre imaginei que ficava ali, mesmo quase ao lado, tantas vezes dela ter ouvido falar. Havia uma ponte atlântica que a fazia estar quase perto de mim.
Reconheci-a logo. Com uma estranha nitidez: era a cidade de que sempre ouvira falar.
Mas lembro também a Almirante Reis soturna, mulheres cerzindo meias de seda em caves de prédios, como na Angola que eu conheci ninguém ousaria viver ou trabalhar.

Ao chegar, tinha os dois braços ao peito: um deslocado, numa turbulenta queda de bicicleta sem travões, em vésperas de atravessar o Atlântico rumo a Portugal. E ou outro partido, como recordação, no paquete que me trazia ao Continente. Dessa viagem guardo ainda treze pontos de uma inestética cicatriz no braço esquerdo que muito estimo e que comigo vai morrer, tal como a segunda que orgulhosamente me lembrará sempre que fui mãe!
Mas, não me perguntem como me salvei, consegui nunca partir qualquer outro osso entre mergulhos de pranchas de uma piscina onde, em Malange, se mostravam as novidades do vestuário e as habilidades de mergulhos de uma terceira prancha de onde partíamos em voo planado, nem sabendo bem como íamos cair.
Retenho dessa viagem a Portugal, as Pedras Salgadas, onde o meu avô ia sempre para as termas, pés mal acabados de chegar. O fantástico hotel, onde se jogava às cartas nos momentos livres.
E as viagens à Sertã, onde garbosamente chegava com a sua prole, provando que os milhares de Baratas não eram só da Beira Interior, mas também já de um mundo bem maior, cruzados que tinham sido os mares.
Depois rumava Portugal fora, em tournée, mostrando a si mesmo e à família o apego que tinha ainda pelo torrão natal, mas também o sucesso da sua carreira de despachante oficial em terras longínquas de Angola.

Dele me ficaram como herança centenas de postais.





Nas Pedras Salgadas e na Sertã com a minha mãe, irmã e avós.

Mas, nesta noite desassossegada, nesta noite de Luar, recordo também a minha avó Inês Albarran com o seu cabelo sempre apanhado numa banana. Para ciúmes da minha avó materna Assunção Santos que, pela intimidade de viver connosco ou pelo seu feitio beirão, não lhe permitia mostrar mimos “em demasia” e não tinha mordomias, a minha mãe ia levar a avó Inês ao cabeleireiro diariamente, para se pentear, quando de férias nos vinha visitar.

Casou-se três vezes a minha avó Inês, duas delas com o mesmo marido, o meu avô Raúl Marques Barata.
Falava com os seres do Além como quem fala com uma vizinha qualquer, o que me habituou, desde menina, a saber que o cá e lá só existem para quem não consegue entender que não há lugar antes e depois de nós, mas que é sempre o mesmo: o que construimos bem ou mal.

Talvez os seus casamentos e divórcios se devessem ao seu método a mais do meu avô, misturado com uma certa forma de ser de “self made man” e o carácter de um homem português típico, para quem o mundo do trabalho ou das visitas ao Clube Naval apenas ao sexo masculino pertenciam, mas que, por ser despachante oficial em Porto Amboim, me ensinou tantas coisas: imaginar o mundo dentro de enormes navios que traziam coisas de todos os lugares. Com ele ouvi, pela primeira vez, contrariada, a Callas, recordando ainda dele o escritório onde me deliciava a ver os livros catalogados, os selos tipo “Ceres” que sabia zelozamente e à lupa, descortinando invisíveis tramas, catalogar; o crapot que tão bem sabia jogar, recordo as suas mãoes de dedos esguios, sempre um pouco trémulas, os fins de tarde que me levava à pescaria para ir buscar as lagostas acabadas de apanhar,  escuto ainda os sonoros passos que dava, em dias de chuva torrencial, à volta de casa até perfazer os 2 km que estava habituado a andar, calcorreando a povoação e arredores; contudo, porque colidia com a vontade de viver da avó Inês que não se compadecia com tantas esperas em geniceu, pois sabia o que é o valor da paixão e da determinação, pouco admissíveis a uma mulher da sua época, e, um facto é, aqueles casamentos acabaram sempre por terminar, sob o sol tórrido junto às salinas de Porto Amboim.
O seu último marido soube-a fazer feliz, de tal forma que, ao que consta, na hora exacta do dia em que faleceu, se partiu um enorme espelho da sala da minha avó, fazendo com isso um estrondo aterrador.
Daí me ficou também a crença de que o último amor será sempre o maior!
A minha avó Inês soube sempre ser uma boa contadora de histórias e misturava um catolicismo praticante e assíduo com as crenças dos espíritos do “outro Mundo”.
Ensinou-me a fazer paciências e dizem que fazia batota à canasta e noutros jogos de azar que nunca consegui aprender.
Sabia que a vida valia a pena ser vivida e escolhida.
Por causa das suas “travessuras”, não conheci parte da minha família, porque os seus irmãos nem sempre delas gostaram e até com ela chegaram a cortar relações.
Correspondia-se com o Marcelo Caetano, porque a sua mulher era, como a minha avó, participante das actividades femininas das “Vicentinas” nas suas prolongadas estadas em Portugal.
Com o 25 de Abril rasgou as cartas a correr, não fosse o diabo tecê-las …. mas nunca deixou de fumar nem de sonhar! Acabou os últimos anos sendo directora de um lar, na Quibala, Quanza Sul, Angola, pois o espelho que se havia partido na sala tanto a fez sofrer, até que se retirou para a Madeira, onde, certamente, uma prima minha poderá ler este meu relato e, quem sabe, o continuará.
Com as minhas duas avós aprendi como o mundo pode ser tão diverso, afinal.
E soube que no meu sangue tanto corre a Beira Interior, por entre os ribeiros e açudes da Serra da Lousã, como se espalha a Espanha do Levante, a Extremenha, ambas recheadas de tantas histórias que me deram sentido ao crescer.

Mas foi em Angola que me moldei.
Nesse país grande, de poucos frios, mas muitos calores e forte luz.
Aí o calor puxava à rua que era também o sítio de encontro e de bricadeiras. As poupas eram frescas e claras.
Havia festas nos quintais e os amigos reuniam-se a pretexto de tudo e de nada.
O king era o jogo de muitos, o dos meus pais, pois o bridge pertencia a só alguns, os das elites ou os que as queriam mimetizar. As reuniões marcavam-se semanalmente para continuar o jogo e quem perdia pagava a garrafa de uisque da vez seguinte.
Em casa e nas festas do Atlético de Malange aprendi a dançar. As pessoas punham as mesas fantásticas com o que levavam de casa. Cada uma mais bonita do que a outra … Depois tocavam as doze badaladas e os pais orgulhosamente iam buscar as filhas que, em idade já de “olhar para a sombra”, não se negavam ao orgulho de dançar com os garbosos progenitores. Só depois estavam autorizadas a ir ver quem por lá andava, entre olhares trocados por entre as mesas.

Os meus pais numa passagem do ano em Malange.

Foi aqui que usei pela primeira vez um vestido vermelho até aos pés de que ainda sinto o toque do tecido e o corte decotado.


Fotografia do Album de Lito Martin, Facebook.

Recordo também os “assaltos” do Carnaval.

Aos fins de semana longos passeios e picniques nos faziam conhecer o espaço que nos rodeava. Rios cheios e quedas de água fresca e milagrosa.

Quedas do Mussulege, Malanje.

Foi tal a mágoa e apreensão desse silêncio sepulcral que ainda hoje me dói quem silencia, sem saber o efeito que isso tem.

Mas, dizia, vivos os soube no Huambo, até que a belicosidade não permitiu novamente que se restabelecessem e, contrariados, pois acreditavam que era possível ficar em Angola, acabaram por ser evacuados para Portugal, tendo aterrado em Lisboa, por tramas que só aos deuses cabe fazer, no mesmo dia do que eu, que partira de Luanda, pois na sua mensagem me haviam recomendado que abalasse também, deixando em Angola todos os bens e muitas saudades.

O Zorba era uma das músicas que tantas vezes vi a minha mãe dançar com as amigas.

Mas foi com o meu pai, em noites de passagem de Ano, que aprendi a dançar o tango, a valsa o poso doble que hoje se aprendem nas «Danças de Salão».

Mas recordo o cheiro forte e quente que inalava da terra, assim molhada da chuva torrencial. E das gretas que se abriam por debaixo dos pés após o vendaval. Bem como daquelas estranhas “formigas” com asas que invadiam depois o céu, até que cansadas se tornavam seres da terra, perdendo as asas que se acumulavam nas ruas e quintais.

E dos morros de salolé que, por entre as picadas, mais pareciam torres cónicas que nos inibiam tantas vezes de passar.

Os meus pais conheceram-se em terras de calor. Do dia do seu casamento restou apenas uma fotografia, tirada por um amigo, pois o rolo das do fotógrafo estragara-se.

As voz juntou-os, porque foi assim que se falaram a primeira vez, ao telefone: um do Ambriz, outro do Ambrizete (Nzeto), essas duas povoações que passado quase cinquenta anos consegui rever. Um amigo comum acabou por os apresentar, porque,segundo contava o meu pai, tinha querido conhecer a “dona daquela voz”.

Casaram em Junho de 1956, apenas após seis meses de namoro, depois de muitos passeios de mota junto à praia e às salinas do Ambrizete e, em Maio de 57 … bom a vida existia para mim.

Viveram sempre juntos até o primeiro deles resolver partir para o Céu.

Da sua história ficou também uma lindíssima e grande carta, páginas e páginas escritas pelo meu pai e que um dia hei-de ser capaz de reler. Mas ainda não chegou a altura de ser capaz!

E ficou também a suave recordação de toda a vida o ter ouvido chamar por “linda”.

Muito recentemente tive a sorte de poder ir ao Nzeto e visitar a missão do Tomboco, onde fui baptizada. Foi dura a travessia de Angola, até chegar à província do Zaire. Horas e horas numa estrada de terra batida, que a partir da barra do Dende, se torna uma imensidão terra árida, onde os imbondeiros imperam, restando apenas junto aos rios um pouco de verde para nos recordar que o céu ainda reside ali.

Não sei se por forças divinas reconheci a missão, ou se a vivi como quando fui baptizada, sei apenas que senti que pertencia também tanto áquele lugar.

Finalmente soube ali desabar a chorar e rezar como há muito não me lembrava!

E pensei que esta história teria que continuar.

E sei que a continuarei devagar até que se calem os sons da música de fundo que consigo ainda ouvir nas pás das ventoinhas de Porto Amboim …

Poema «Havemos de voltar», Agostinho Neto, Fotografia Filomena Barata

A minha mãe (grávida de mim), o meu avô Raúl Barata, o meu pai e um amigo no Ambrizete.

Fotografias tiradas no Ambrizete, hoje Nzeto, Província do Zaire, em 1957 e em 2010.

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Angola, 2010

E quis o destino que, em 2013, lhe pudesse voltar. Foi uma viagem que jamais terá fim, procurando a serenidade interrompida por anos!

Ouvi o mar rebendanto e as calemas de Porto Amboim. Guardei os murmúrios das ondas para as poder comigo trazer.

Sei que um dia a contarei. Ainda não é o tempo …

DSC00583

]Porto Amboim, 2013 Porto Amboim,  2013


Responses

  1. […] Teolinda Gersão partilhou uma ligação. […]

  2. very clear article, thanks a lot

  3. Great blog.Really thank you! Really Great.

  4. Espetacular Filomena, parabéns mais uma vez,pelo trabalho fantástico.

  5. gosto muito

    José carlos ceitil


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