Publicado por: Filomena Barata | Agosto 4, 2011

Tomás Gavino Coelho, Bébé a bordo

 

BÉBÉ A BORDO! (ou, como não se pode mandar na Mãe-Natureza)

Depois de uma prolongada licença sem vencimento, e na sequência de diversas vissicitudes, o meu pai viu-se obrigado a requerer a readmissão no funcionalismo público, mais concretamente na Fazenda Nacional. Requerimento deferido, foi colocado em Lândana, pequena vila no enclave de Cabinda, no extremo oposto da cidade onde vivíamos, Moçâmedes, minha terra natal e local de momentos felizes da minha família.
Assim, os meus pais, a minha avó materna e eu saímos de Moçâmedes, em fins do mês de Março de 1958, embarcados no “Império”, um navio misto de carga e passageiros pertencente à Companhia Colonial de Navegação, que faria escala nos portos do Lobito, Luanda, Ambriz e, finalmente, Cabinda. Eu tinha cinco anos e meio e esta viagem era para mim uma grande e desejável aventura, onde já me imaginava a combater piratas e a apanhar gigantes marinhos à mão.
No primeiro dia de viagem deliciei-me a ver golfinhos seguindo a proa do navio, lindos, em movimentos de tremenda rapidez e elegância; de vez em quando via também cardumes de peixes-voadores, rasando as ondas, procurando escapar a um qualquer predador. Eram visões de um mar que desconhecia, que me absorvia e me desligava do resto do mundo. E era tal a atenção que eu prestava ao mar que um marinheiro, ao passar por mim, disse, brincando:
– Se vires alguma baleia avisa!
Na minha inocência não percebi que ele brincava e, tomando-o a sério, redobrei na vigilância às águas que nos rodeavam. Posso garantir que nunca aqueles mares tiveram um vigia tão atento e prescrutador! E assim foi, enquanto o sol reinou. Mas a noite chegou, inevitável, e é aqui que a história começa.
A minha mãe embarcara já no final da segunda gravidez e ninguém esperava que o parto viesse a acontecer naqueles três dias de viagem. Mas na Mãe-Natureza ninguém manda e o que tem de acontecer… acontece mesmo. Eu conto: foi-nos atribuido um camarote minúsculo onde apenas havia um beliche. Eu dormia com a minha avó na parte de cima e os meus pais na parte de baixo. Nessa noite acordei com um grande alarido e confusão no camarote, com a minha avó e o meu pai a entrar e a sair com um ar esbaforido! Assustado, sem preceber o que se passava, encolhi-me todo até que chegou um homenzinho magro, todo fardado de branco, de calções e meia alta: era o médico de bordo. Mal entrou, apontou para mim e virou-se para o meu pai:
– O que é que esta criança faz aqui? – gritou, algo histérico, porque nunca assistira a um parto. Logo de seguida voltou a gritar para o meu pai:
– Vá chamar o Costa!
– Qual Costa? – respondeu o meu pai, meio atarantado.
– O enfermeiro, homem! – e lá explicou, aos berros, onde era o camarote do tal Costa, atitude que atrapalhava todos, inclusivamente a minha avó, a única com alguma experiência daquelas coisas. Rapidamente o meu pai agarrou em mim e levou-me para fora do camarote, não sem que antes desse uma grande cabeçada no vão da porta que, como sabem, são muito baixas nos navios (acho que era a terceira cabeçada que ele dava…). Lá descobrimos o Costa, que nos seguiu meio estremunhado e sem perceber bem o que se passava, até porque as explicações do meu pai também não seriam grande coisa. Mas o Costa, depois de ouvir mais uns berros do médico, que lhe perguntava pelo material necessário para a tarefa, lá despertou e foi de todos o mais incansável. Recorda o meu pai que, se não fosse o enfermeiro Costa (e a minha avó, diga-se), as coisas talvez não tivessem corrido tão bem.
Como já não havia nada que o meu pai pudesse fazer, pegou em mim e afastámo-nos dali. Foi então, sentados cá fora no “deck”, que fiquei a saber que o bébé que a minha mãe trazia na barriga ia nascer. Não fosse o médico dar por mim e eu teria assistido ao nascimento da minha irmã. Enquanto estávamos ali sentados, à espera, os marinheiros que passavam olhavam para nós e sorriam. É que, na balbúrdia que se gerou, o meu pai tinha perdido um chinelo e devia ser cómica a sua figura com aquele ar atarantado, um grande galo na testa, de pijama e comigo ao colo, todo despenteado e só com um pé calçado. Por fim, alguém nos foi chamar dizendo que o bébé já tinha nascido. Mas não valeu a pena termos corrido que nem loucos (o que valeu mais uma ou duas cabeçadas do meu pai, nas nas tais portas baixas dos navios): fomos os últimos a ver a minha irmã! Havia uma fila enorme de pessoas em frente à porta do nosso camarote: eram os tripulantes, desde os cozinheiros aos oficais e marinheiros, que queriam ver a menina, a primeira criança a nascer a bordo daquele navio. Vale ainda a pena referir o trabalhão que teve o meu pai para dissuadir o comandante de registar a minha irmã com o nome de Maria do Império(!!!). Acabou (que remédio!) por concordar com o desejo dos meus pais e registá-la com o nome que hoje tem: Maria da Luz.
Nessa manhã aportámos no Lobito, onde a minha tia, irmã do meu pai, e o marido nos esperavam, depois de terem recebido um cabograma enviado do navio pelo meu pai, pondo-os ao corrente da situação. Mas só acreditaram quando viram a minha mãe descer a escada de portaló, de maca, transportada por dois marinheiros, e o enfermeiro Costa logo atrás com a minha irmã nos braços: é que tudo isto se passou na madrugada do dia 1 de Abril de 1958, o dia das mentiras!

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Responses

  1. Tomás, foi mesmo bom imaginar a fila de gente para verem a bebé tua irmã… Não sei se isto te chegará, tentarei também por outra via. Obrigada por me teres mandado.
    Um grande abraço
    Ju


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