Publicado por: Filomena Barata | Julho 28, 2011

Ju Jaleco, Chuva em telhado de zinco quente

Fotografia Filomena Barata, Angola 2010

A nossa casa na Chibia tinha telhado de chapas de zinco, assentes em barrotes que eu gostava de ver porque me transmitiam força e segurança, apesar de atacados pelo salalé. Não havia forro, portanto. Mesmo quando não estava deitada gostava de olhar para cima e também gostava de ver os raios de luz que se infiltravam por pequeninos furos e doiravam as poeiras; por esses furinhos, quando chovia forte, entrava água que nos obrigava a espalhar bacias pela casa. Quando chovia forte… Como era bom deixar de ouvir outra coisa que não fosse o barulho da chuva a bater no telhado! Chuva em telhado de zinco quente… Se fosse de noite, fraca ou mesmo forte, embalava-me o sono; se fosse de dia, o cheiro da terra quente molhada entrava por todas as frinchas e eu sentia-me como se estivesse no colo da minha mãe. Eu devia ter menos de cinco anos, o meu irmão Màrito ainda não tinha nascido, o colo era só para mim… A seguir às chuvadas o ar parecia ficar lavado e os sons tornavam-se mais nítidos. À noite, deitada no silêncio, ouvia os pretos a conversarem gritando frases de umas ruas para as outras, indiferentes ao sono dos brancos, “amansados” enfim do seu poder sobre eles…

O meu pai não gostava do barulho da chuva quando queria ouvir as notícias da BBC no rádio zenith que trabalhava ligado a bateria. Às vezes enguiçava mas o meu pai dava-lhe uns murros e ele voltava a soar. O meu pai era anti-salazarista, por isso fazia questão de ouvir a BBC. Ainda me lembro de como fiquei escandalizada quando, vinda da escola, lhe disse pesarosa (os professores tinham-nos “pegado” a consternação) que o Carmona tinha morrido e ele me respondeu: «Então, filha, antes ele do que eu!» e continuou o que estava a fazer!

No tempo próprio, ao cheiro da chuva e da terra molhada juntava-se o cheiro roxo das flores dos jacarandás que existiam ao longo da rua paralela à fachada frontal da nossa casa (nunca soube os nomes das ruas da Chibia). A água da chuva era também recolhida para a bateria e para encher a sanga e o moringue. Não tínhamos água canalizada, claro, creio que só havia na casa do Administrador. Era preciso tirar água da cacimba, com baldes, e transportá-la para casa, para a cozinha e para regar as árvores do quintal. Uma trabalheira… Mais tarde o meu pai construiu uma armação para um depósito em cima da cacimba, a trabalheira passou a ser para encher o depósito de onde partiam canos; mas isso foi muito, muito mais tarde, quando, depois do meu regresso já “formada” (licenciada) em Ciências Biológicas, comprei as louças para uma casa de banho com o meu primeiro ordenado de professora do liceu. Como era antes da casa de banho? Bem… havia uma banheira de zinco e um móvel-lavatório na despensa e… uma casota aonde muitas vezes não nos dávamos ao trabalho de ir porque íamos “no mato”. Para a noite, havia os bacios que tínhamos de despejar no dia seguinte, em buracos abertos no quintal – na Natureza, nada se perde, nada se cria, sem nunca ter ouvido o nome de Lavoisier, contribuía, todos os dias, para comprovar o seu Princípio. Talvez por isso (?) o meu irmão Eduardo, a quem chamo Adinho ou Ado desde pequenina, tenha sido tão expedito a escrever a redacção pedida pelo professor sobre o que fazia antes de ir para a escola. Sei de ouvir contar, o Ado é dez anos mais velho do que eu: “A gente levantamos-se, lavamos-se, penteamos-se, calçamos-se, comemos (-se…?) e vamos-se prá escola”. Esta histórica redacção ainda hoje é pretexto de gozo alegre. A nossa casa na Chibia era uma casa modesta, com “o armário-de-caixote” (era nome próprio, acreditem) na despensa, uma cozinha exterior com um forno por trás e o telheiro com os arrumos e ferramentas do meu pai, a lenha, a tal casota com bacios… E no entanto, tornámo-nos bastante exigentes com a higiene pessoal, não dispensando banho diário. Quando eu andava no 2º ano do liceu, descobri com espanto que não era preciso tirar o umbigo para fora para o lavar todos os dias – é que houve um dia em que ele se recusou a ir para dentro, tive de pedir socorro e, qual bebé, tive de andar com uma ligadura apertada mais de uma semana! O que as minhas irmãs me gozaram! A Néné (Maria doRosário, Rosarinho) passou a contar: “Tenho uma irmã tão limpa, tão limpa, que todos os dias tira o umbigo para fora para lavar!”.

Nos dias de muito calor os tijolos do chão eram regados antes de serem varridos, para não se levantar muito pó e para refrescar a casa. Era bom, o cheiro que ficava. Os tijolos, grosseiros, tinham covas, de tanto serem molhados e varridos. Como eu era a mais nova de cinco raparigas, a única tarefa que me confiavam era limpar o pó, coisa que detestava e que passei a odiar quando descobri que, pelos vistos, não o fazia satisfatoriamente, já que alguma das minhas irmãs, às (mal)escondidas, voltava a passar o pano no que eu já tinha limpo. Ficou assim comprometida, para sempre, a minha formação de rapariga[1] prendada e futura boa dona de casa, esposa e mãe!

A lembrança do tio Álvaro aparece-me também associada à chuva… Meu padrinho de baptismo, era meio-irmão da avó Maria, a mãe da minha mãe, filho de uma das mulheres, parece que todas negras, que o bisavô teve, não sei se em sequência, se em simultâneo. Era muito mais novo que a minha mãe, o que me fazia uma confusão danada, tanto maior quanto se tratavam por tu e pelos nomes próprios. Vivia no Lubango mas aparecia muitas vezes na Chibia, na sua carrinha preta, a caminho das terras “do mato”, Humbe ou ainda mais a sul. Trazia sempre notícias frescas que contava num jeito muito seu, muito pausado, intercalando frequentemente a incompreensível expressão “… e depois… coiso…”. Sempre que ele dizia «No Lubango estava a chover mas depois do “16”[2] já não apanhei chuva» eu ficava intrigadíssima, pensando com os meus botões: «Se a chuva cai do céu e o céu está por cima da Chibia, do Lubango e de todas as terras, como é que não chove em todos os sítios ao mesmo tempo?!»


[1] “Rapariga era a tua lavadeira!”, ouvi muitas vezes. Achei imensa piada quando,em Salvador da Bahia, soube que era um termo «proibido», significando moça pouco recomendável… As coisas que atravessam oceanos!

[2] O “16” fica a …16 km do Lubango, na estrada para a Chibia e podia-se parar lá para beber ou comer qualquer coisa. Também há “o14”, onde até existia um Posto Escolar

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