Publicado por: Filomena Barata | Julho 18, 2011

Álvaro Silva, Este Domingo foi assim

Alvaro Silva
Este Domingo foi assim…não sei… e nem o saberei dizer porquê…mas é isto.

É domingo, dia do Senhor, dia de descanso.
Acordei cedo e, quando cheguei lá fora o dia apresentou-se-me cinzento, triste como minha alma, com o cinzento do cacimbo batendo nas copas das árvores mais baixas. Meu estado de espírito assemelha-se ao que o …ambiente que me cerca me faz sentir e a tristeza, a solidão invadem-me de forma pungente. Sento-me no sofá da sala, ligo a televisão, tentando endireitar minha mente e compor o meu estado de ânimo. Sintonizo a TV, procuro a Missa e dou com a transmissão da Homilia Dominical no canal dois na TPA. Apanho a cerimónia a meio e minha fé leva-me a assistir até ao fim, livrando-me momentaneamente, dos males que me ensombram a alma.
Regresso ao meu quarto de paredes brancas. Olho ao redor e vejo da posição onde me encontro, a rústica mesa de madeira prensada que tenho como secretária, do meu lado esquerdo a janela de caxilharia de alumínio em cujos vidros foram colocadas cortinas de uma tonalidade laranja esbatida pelo tempo. Atrás de mim, a cama ainda desfeita, com as cobertas em desalinho. À frente, tenho o meu computador e do meu lado direito um porta-esferográficas metálico de rede, preto onde, também está o lindo crucifixo que minha mulher me ofereceu pela altura da minha curta estadia entre eles. É um crucifixo muito lindo, com a cruz feita em madeira, imitando bem a rusticidade que por certo teria na altura da crucificação, com a imagem sofrida de Cristo em porcelana, perfeitamente trabalhada, encimada com a inscrição JNRI e letras pintadas de negro como que incrustadas num pequeno rectângulo, também em porcelana, pintado de cor doirada.
Lembranças várias e recordações de tudo fustigam o meu cérebro e de repente vêm-me a memória as situações vividas nos poucos dias entre os meus entes queridos.
O Verão surgiu como sempre com o sol irradiando alegria, espargindo sua luz doirada pelos lugares mais recônditos, desse pequeno e grande Portugal. É notória a alegria no rosto dos habitantes que de roupas desportivas e propícias para os dias de calor, gozam o prazer que o astro rei lhes oferece. Libertam-se dos agasalhos dos tempos frios e libertam também suas almas de algo que possa ensombrar ou diminuir a alegria que esta estação brinda. Tudo é luz, tudo é alegria. Há alegria no sorriso da criança e no olhar do mais adulto, no chilrear dos passarinhos, no cantar da rola, no balir monótono da ovelha, no relinchar do cavalo. Há alegria em tudo. Paira no ar o odor convidativo da cozinha portuguesa, levantam-se os fumos que perfumam o ambiente com os cheiros da sardinha assada, das carnes de grelha. Nalgumas varandas veêm-se estendidos tapetes e outras tapeçarias para os livrar da humidade dos tempos de chuva ou mesmo de alguma lavagem que foram submetidos. Roupas, brancas e coloridas esvoaçam nos estendais dançando ao ritmo do vento quente que sopra agradavelmente, de tempos em tempos, tornando enxuta as roupas, os campos e as almas dos citadinos. Mudam-se alguns hábitos, pois nesta altura os dias são mais compridos e perde-se até a noção do tempo.É contagiante a alegria das crianças que se soltam nas brincadeiras propícias a esta época. Nos campos é também visível a azáfama, com o roncar dos motores dos tractores que cortam e enfardam o feno destinado aos animais de curral. Levanta-se muito pó nessas operações e esse pó mistura-se com o pó da palha que poluem o ambiente, criando certa irritação ans mucosas de muitos habitantes, alguns dos quais praguejam ruidosamente contra os donos dos campos, onde tal trabalho se faz.
O céu azul limpo e generosamente iluminado é riscado pelo passar de algumas aeronaves que no cruzar para destinos desconhecidos, deixam no imenso azul do céu um risco branco que chama a atenção do cidadão mais atento, assim como, o esvoaçar majestoso de um bando de pombos correios, que com as repentinas mudanças de direcção no seu gracioso e cadenciado bater de asas de ruído característico enfeitam o azul do firmamento com pontinhos brancos e escuros dos seus pequenos corpos.
Ruidos vários se misturam nesse ambiente de verão e até a voz de uma senhora irritada chamando pelo filho que tarda no regresso do recado mandado, ecoa no ambiente.
– Oh Luís! Oh Luís tu não me oubes?! – Oh Luís tu não me oubes caraças! Ah cum catano, tu andaje a pedi-las e bais te-las, ai bais, bais…
Espreito pelo vidro da minha janela e vejo a minha vizinha que de joelhos se esfalfa na colheita das batatas no seu pequeno campo. É também chegada a época das saborosas e apetitosas cerejas que são vendidas em todos os cantos com mercadores ambulantes montando as suas tendas ou abrindo os taipais das carrinhas onde expõem esses e outros outros produtos dos seus campos. tais como as suculentes ameixas, tão do meu gosto.
Estas lembranças trazem-me a memória a saudade que sinto dos meus e o imenso peso da solidão cai sobre os meus ombros, pintando de nostalgia os meus pensamentos e o meu sentir.
São tristes os dias cinzentos,trazem-me sempre uma sensação muito grande de nostalgia de que não me consigo libertar com facilidade, sobretudo se esse estado do tempo coincide com o Domingo, dia de descanso , dia de nos refarzermos das canseiras da semana inteira de labuta e é precisamente esse nada ter que se fazer que me leva a esse estado da alma.
Na rua corre o tempo, passam os transeuntes, circulam os veículos, alheios ao que cada um de nós leva consigo. Relanço o meu cansado olhar para o laranja da cortina entreaberta da minha janela e mantendo os meus dedos sobre o teclado do meu portátil, onde matraqueio este escrito e pelos meus ouvidos entram o som da buzina de uma mota de fabrico chinês e o bater de palmas no brincar das crianças, a gargalhada alegre de um homem alto de fato domingueiro, com a cabeça coberta com um chapeu castanho de aba curta, por dito de alguma graça da mulher de panos com uma bacia de cor castanha a cabeça e o filho amarrado às costas. Volto novamente, as minha atenção para o escrito , mas ainda antes de meus dedos voarem céleres sobre o teclado para registar as ideias que me afluem a mente, sou ainda distraído pela voz queixosa do segurança que do portão da entrada para os carros da casa onde estou se queixa do tempo cinzento e do vento frio que se faz sentir.
Escrevo vertiginosamente e num repente, lembro-me do meu amigo Quito que no dia anterior me convidara para hoje Domingo comer uns lagostins pescados no Rio Cuanza- Dondo. Tal lembrança, desperta em mim o apetite e faz-me olhar para o relógio de parede , cujo mostrador tem como fundo o retrato de minha amada filha Alzira, que me brinda com o seu lindo e gracioso sorriso e uma onda de ternura e uma réstia de alegria me invade ao fixar-me na inscrição no cantinho da foto “Feliz dia do pai.Amo-te muito papá.” na letra incerta dos seus nove anos e momentaneamente,essas letras tremem e uma incontida lágrima, rola e molha-me a comissura dos labios crispados, levo os dedos aos olhos e limpo-os da névoa que os toldou por escassos segundos.
Um sorriso apagado surge-me no rosto de barba por fazer ao lembrar-me do meu filho Álvaro e de minha amada mulher se naquele momento me pudessem ver.
Meus pensamentos são bruscamente interrompidos pelo susto que o toque do meu telemóvel provoca.
Atendo.
Do outro lado responde-me a voz do meu amigo Quito :
– Como é mó kamba? – ainda estás a a dormir? Estamos a tua espera.!
– Vou já,- respondo precipitadamente, levantando-me sem saber porquê e tropeçando no fio do carregador do meu computador mumuro um impropério contra mim mesmo e desligo.

Alto Dondo,17 de Julho de 2011. 12h30.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: