Publicado por: Filomena Barata | Julho 6, 2011

Álvaro Silva, E foi assim que parti

 
E foi assim que parti.O dia despontou com um sol radioso e alegre, pintando no ceu azul celeste desse lindo Portugal, os raios doirados que são nesta época do ano a alegria e o despertar tambem para uma etapa diferente da vida que se esfuma com o passar do tempo, este tempo que corre célere e impiedoso para alguns destinos que não nos… trazem as alegrias desejadas.
Uma aragem quente anunciava o calor que se faria sentir nesse dia de príncipio de verão. Os pássaros chilreavam e contagiavam com o seu cantar aquele que se encanta no apreciar destes simpáticos seres da Natureza.
Um raio de luz doirada filtra-se pelo vidro da janela, por entre o cortinado vermelho de tecido simples com motivo de flores simpáticas, anómimas para mim e deixa sobre o naperon de renda alva e branca que cobre a mesa um redondo doirado.O balancear da ameixieira do meu quintal com os carregados ramos de vermelhas ameixas, no roçar da parede, faz-me desviar o olhar e contemplar os deliciosos frutos e pensar que deveria colher alguns para levar para o meu próximo e longinquo destino, o destino da terra onde nasci.
Relanço o olhar para os frutos vermelhos, suculuntos e deliciosos e vêm a memórias as ameixas secas de que tanto gosto e que fazem as minhas delícias nas festas natalinas.

Abro a porta da minha cozinha e saio para o quintal munido de um saco de plastico branco com as cores verde e preta de letras que dizem “Pingo Doce” e sou recebido de forma calorosa pela Lacy uma cadela de pêlo preto e luzidio, muito bonita de dentes branquinhos e ponteguados que meu filho recolhera da rua há alguns anos atrás.
Ajoelho-me e retribuo com satisfação a calorosa recepção, afagando com a minha mão livre o pelo negro e macio da fiel amiga do meu filho.
Meus olhos por detrás das lentes dos óculos escuros de sol, fixam-se no mostrador do meu relógio Citizen -eco Drive e as horas indicam-me que me deverei apressar pois ainda tinha em mente algumas coisitas para fazer.
No ar o vento quente e o dia soalheiro convidava a desfrutar dos prazeres do verão, mas esse não era para mim o dia para isso. Da Cozinha vinha-me o odor das batatas cozidas e do cheiro das caras de bacalhau que minha mulher tão carinhosamente preparava para o nosso almoço do meu curto verão em terras lusitanas.Não posso deixar de dizer-vos, carissimos amigos ,que “as caras de bacalhau” à nossa mesa são diliciosamente desgustadas com inegável satisfação. Um silêncio confragedor pairou por um curto lapso de tempo entre mim, minha mulher e meus filhos Álvaro e Alzira, mas logo, logo tudo passou , quando minha mulher com indisfarsável comoção e com a voz trémula disse.
– Vá meninos toca a comer, toca comer que o dia não acaba por aqui hoje.
Lá fora a Lacy ladrou três vezes, pois sabia que terminada a refeição dos donos caber-lhe-ia a ela o repasto que reivindicava.
Na rua um barulho irritante do escape de uma motorizada barulhenta , afungentou os passarinhos que estavam pousados no arame que segura a parra,que ladea a rua, nesta altura com alguns frutos a despontar já.
Ao longe o barulho de uma motoserra ,o cantar do galo e o balir das ovelhas no pasto, o dobrar do sinos da Igreja, confundem-se com o silvar da sirene do carro dos bombeiros que se dirige apressado para o lugar, onde uma densa nuvem de fumo expesso e negro, que parece brotar das entranhas da imensidão de pinheiros que se vislumbram ao longe, não presságia nada de bom.
Meu Audi preto corre a velocidade moderada, pelas mãos da minha mulher na auto estrada que me leva a Estação de Espinho, deixando tudo o que fora o encantamento dos poucos dias do meu descanso.
Percorridas que foram as ruas estreitas da bela e simpática Espinho, com o seu cheiro de mar e de sardinha assada, eis que surge o moderno edificio da estação. As pernas se me entorpecem e meus cansados joelhos, castigados pelas mazelas de futebóis passados, negam-se a corresponder a demonstração de agilidade que pretendia comunicar aos meus, para desfarce do que me ia na alma.
Carinhos e afagos rapidos, são trocados e alguma atrapalhação entre o beija e abraça, testemunha bem o momento de comoção que se vive, a algumas lagrimas brotaram teimosamente de nossos olhos , embaciando-nos a visão e o indisfarsável gesto do dorso da mão no olho lacrimejante são bem o testemunho do que se pretendia disfaçar.
Linha 01,Carruagem 22 lugar 117, comboio intercidades, partida 15 h e 17.
Depositei minha magra bagagem no lugar respectivo e dirigi-me para o lugar que me correspondia. No corredor uma linda e simpática rapariga de olhos verdes e radiosos como o sol que deixara lá fora, brindou-me com um sorriso , simpático e as covinhas nas bochecas rosadas acentuaram ainda mais a beleza do seu rosto, quando por delicadeza a ajudei a abrir a pesada porta de comunicação entre as carruagens e quando no gracioso rodar da linda cabeça, seus longos cabelos da cor de trigo espanaram o meu rosto e um suave e doce odor perfumou o meu olfacto.
A voz do pica, distorcida por alguma anomalia nos altifalantes da locomotiva, tiraram-me das minhas lucubrações, quando anunciou:-“Senhores passageiros dentro de momentos Estação do Oriente.”
Uma corrida rápida de táxi, um cruzar vertiginoso de panoramas, um monótono comentário do sisudo taxista, de cabelos ralos, testa enrrugada,olhos claros e vivos, estatura baixa e com um peculiar bigodinho fininho e cinzendo encimando-lhe o lábio superior, com a barriga quase encostada ao enorme volante do moderno Mercedes Benz , foram a minha distração ao longo da curta corrida até ao Aeroporto.
Um café, uma garrafa pequena de água fresquinha,fizeram as minhas delicias e aliviaram-me do começo de um certo cansaço que sentia prematuramente a avizinhar-se.
Nos aeroportos, como em todos os lugares onde há algomeração de gente, as esperas são sempre muito aborrecidas e esgotantes,por isso e para minha distração adquiri o hábito de nessas alturas fazer o seguinte, olhar para o rosto das pessoas e tentar ver na expressão do rosto o que lhes vai na alma.Não vos sei dizer porquê, nem a mim mesmo. Talvez seja esse exercício uma forma que encontrei de procurar nos outros algo parecido com o que penso e com o que sinto.
Na corrida inexoravel do tempo, meus pensamentos e meus sentires se perdem na imensidão do mundo , do meu mundo interior,onde tudo tem lugar, as legrias e as tristezas, as lembranças e as saudades, os sonhos sonhados e os sonhos que se pretendem realizados. O calor que se reina dentro do aeroporto acelera o meu mal estar, um limpador de chão motorizado, habilmente conduzido , por uma senhora de cerca de quarenta anos de cabelos loiros oxigenados , prendem momentaneamente a minha atenção e vem -me a memória o que num longinquo e perdido dia de galhofa nos tempos na minha juventude um primo meu dissera a uma linda rapariga loira que connosco se cruzara no passeio da rua da nossa cidade:
“Que lindos cabelos loiros/
que linda pinta doirada,
será milagre de Deus
Ou da água oxigenada.”
Não pude evitar um sorriso.
Atenção passageiros, última chamada para o Voo TAP 257 com destino a Luanda.
E lá fui eu, como tantos outros como eu.Alvaro Silva.
Alto Dondo 05-Julho-2011 -23h29.

(Sem correcções. Espontâneo . Aberto a críticas)

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Responses

  1. Alo Colega Alvaro,

    Gostei do poema, muito bonito

    Carlitos ( Rocha Monteiro,Lda)


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