Publicado por: Filomena Barata | Julho 1, 2011

África, Luís Milreu

A caminho do Nzeto. Fotografia de Filomena Barata

África
África

Menos misteriosa que agreste, grandiosa, imponente e dura,
que se entranha nas almas de quem a habita,
ou apenas visita.
Abençoada por dois oceanos, que na junção são Adamastor
E também Boa Esperança e Amor.
Céu azul límpido, ventos fortes e chuva grossa
Da que pesa, que agride, mas que passa
Em cortinas que avançam imparáveis devolvendo vida aos campos,
água aos rios e fé aos homens.
Calor que não passa, cacimbo que molha. Juntos, iluminam os estendais de branco
Pôr-do-Sol como só lá. Acompanhado de cocktails e aperitivos
para uns poucos.
A beleza, essa, é para todos, e de sobra.
Ruídos ferozes de feras e bestas à solta, a imensidão das planícies,
pontuadas com árvores
de frágeis sombras,
sempre insuficientes para o tamanho do calor que ondula e engana, asfixiante.
E, no entanto, são sustento.
O Natural com as suas leis violentas
a fazerem-nos sentir impotentes, inseguros, inábeis e medrosos.
Aqui não somos nós os predadores.
A Natureza no seu esplendor imperativo,
remete-nos à condição de seus filhos Ilegítimos,
agressivos e estúpidos por não a compreendermos
Quem fica imune a tais referências que o serão para toda uma vida
… e mais…?
Aqui somos elevados do pó e, como ele, sugados de volta à terra,
onde nos transmutaremos em energia pura.
Esta, a energia, esta sim, conhece as regras e harmoniza-se voluptuosamente com o Todo.
E a fruta, meu Deus, a água na boca que nos faz, toda ela, sem excepção.
Seja apanhada no alto ou nem tanto, ao alcance da mão,
mas doce, doce e suave e sumarenta e deliciosa.
A vida, sem dúvida.
E a cor? Que dizer da cor?
Do espanto dos encantos dos tecidos, dos temperos, dos pós da terra, dos verdes, dos azuis
reflectidos
em cima e em baixo, iguais.
A Luz
Característicos odores a peixe seco, a ribeiras menos sãs, às plantas, arbustos e ervas,
aos grelhados – o cafrial bem picante é inolvidável, mesmo herdado das Índias
A moamba!
Quem pode rejeitar estas memórias?
África não se visita, absorve-se, inspira-se, sente-se e traz-se connosco,
sem qualquer contrapartida,
permanecendo misteriosamente intacta e pura na origem.
A transformação, essa, permanece em nós
Explicar África sem a viver, é como tentar explicar um orgasmo a quem nunca aí chegou.
É como julgar um Marciano com as leis da Terra.
Vivi em Moçambique e em Angola a minha meninice e parte da minha juventude.
A dimensão interior que essa experiência proporcionou
é muito maior do que a pele que visto diariamente
e moldou incondicionalmente este ser que aqui estou.
O tema é inesgotável, quase como o território,
Mesmo sem querer olhar e ver o lado oculto das coisas,
muito mais mister dos homens e das suas riquezas,
capazes de sacar do capital da terra todo o juro indevido
porque a empobrece, a desonra, a desfeia e a esteriliza.
Não, disto não quero falar!
Faz-me mal pactuar com os horrores de conflitos, ganância,
Atropelos, maldade e ignorância
Isto não caracteriza África, mas sim os homens
Continente menos misterioso que agreste, grandioso, imponente e duro,
que se entranha nas almas de quem o habita,
ou apenas visita.
Abençoado por dois oceanos, que na junção são Adamastor
E também Boa Esperança
e Amor.

Luís Milreu

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