Publicado por: Filomena Barata | Junho 21, 2011

Filomena Barata, a propósito S. João Baptista, pois não tarda está também o dia do Santo a chegar (actualizado)

Hoje, abrindo o site do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, a propósito da nota anteriormente feita, encontrei como uma das “peças” notáveis deste Museu a pintura intitulada “Salomé” de Lucas Cranach.

Pintura: Salomé, Lucas Cranach, MNAA, IMC

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E recordei um texto que já havia dedicado a esta personagem,

Este Santo que purifica através da água do baptismo, ao que saba tendo ele próprio baptizado Jesus, está também associado aos célebres «Fogos de S. João», pelo que é hábito saltar-se à fogueira nesse dia, juntando-se rosmaninho e alfazema para depurar.

As festividades deste Santo correspondem também ao Solstício de Verão.

S. João é o padroeiro da cidade do Porto que nessa noite não dorme festiva, entre balões com fogo a iluminar e martelinhos que batem de supresa na cabeça dos transeuntes.

Nem sei porquê, lembrei-me de um dia em que, no Porto, assisti serenamente às festas de S. João, no último andar de um Hotel, e que as gaivotas assustadas com o fogo de artifício se dirigiam para terra, para o lugar onde me encontrava a ver a cidade que se estendia até ao Douro.

Por esse dia de S. João, por tudo o que representa o Solstício de Verão, decidi-me retomar a história do Santo e da mítica Salomé.


Imagem: Oscar Wilde como Salomé.WIKIPÉDIA

«Por aquele tempo, a fama de Jesus chegou aos ouvidos de Herodes, o tetrarca, e ele disse aos seus cortesãos: “Esse homem é João Baptista! Ressuscitou dos mortos, e, por isso, tais poderes miraculosos se manifestam n’Ele”. Herodes, com efeito, depois de prender João, algemara-o e metera-o na prisão, por causa de Herodíade, mulher de Filipe, seu irmão, pois João dizia-lhe “Não a podes ter contigo”. Quisera mesmo dar-lhe a morte, mas teve medo do povo que o considerava um profeta. Ora, quando Herodes festejou o seu aniversário, a filha de Heroíade dançou em público e agradou a Herodes, pelo que ele se comprometeu, sob juramento, a dar-lhe o que ela lhe pedisse. Induzida pela mãe, respondeu: “Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João Baptista”. O rei ficou penalizado, mas devido ao juramento e aos convidados, ordenou que lha trouxessem e mandou decapitar João Batista na prisão. Trouxeram num prato a cabeça e deram-na à jovem, que a levou à mãe. Os discípulos vieram buscar o cadáver e sepultaram-no, depois foram dar a notícia a Jesus». Envangelho Segundo S. Mateus, Execução do Baptista

A história de Salomé, como é mais divulgada, é uma história de luxúria e perversidade, e Salomé foi sempre tida como o abismo da sensualidade.

Salomé foi, depois de Eva, considerada a mulher mais “malvada” da história judaico-cristã. Há poucas figuras femininas no Antigo Testamento que tenham merecido por parte de escritores, autores de teatro, gravadores, pintores e compositores musicais a atenção que mereceu a jovem Salomé, filha de Herodias e sobrinha do tetrarca da Galileia – Herodes Antipas.
À partida, pela sua beleza e sendo de estirpe real, Salomé teria nascido para fazer feliz qualquer mortal, mas o capricho de exigir a cabeça de João Baptista, transformou-a numa proscrita: a jovem que, sob um ar angelical, é possuidora da pior das perfídias, por usar o dom da sedução e o erotismo para conseguir os seus intentos. A Natureza, rezam os historiadores e a lenda, dera-lhe dons magníficos – um corpo escultural, cabelos negros sedosos, olhos de pantera, boca, braços e pernas perfeitos, como os de uma Vénus – e foi todos estes atributos que usou para mandar executar João Baptista.
(in Wikipédia).

Herodes Antipas, nascido no ano 10 a. C., era filho de Herodes o Grande, a quem o imperador romano Calígula dera o governo da Galileia e de Pereia.
Herodes Antipas repudiara a mulher legítima e passara a viver com Herodias (ou Herodíades) sua cunhada, tendo com ela casado, violando a lei que o interditava.

Herodes e Herodias viviam um idílio que era denunciado pela voz de um estranho homem, de nome João, que, vindo do deserto, parecia disposto a perturbar o tetrarca e a sua recente esposa. Esse homem vivia numa pobreza assumida, como forma de despojamento dos bens terrenos, e tinha como indumantária apenas uma pele de camelo, apertada com um cinto, alimentando-se no deserto da água da chuva, frutos silvestres, gafanhotos e mel, como conta a tradição.
João tinha uma imensa multidão que o seguia, que ouvia as suas palavras e não deixava de clamar contra Herodes e Herodias, pelo modo como viviam, ao ponto de ser odiada por Herodias. Era conhecido por João Baptista, porque baptizava nas águas do Jordão todos aqueles que acreditavam que um dia a lei dos homens seria alterada com a chegada de um “messias”, anunciando a chegada do Salvador – Jesus Cristo – a quem acabou por baptizar.

Por sua vez, a bela Salomé, filha de Herodias, fora viver com a mãe para o novo palácio, depois de o pai ter sido preso pelo irmão, passeando-se, segundo reza a lenda, com vestes finas, deixando tudo e todos envoltos no poder da sua sensualidade, a que não ficavam alheios os olhos seduzidos do tio, dos guardas e de todos os servidores do palácio.
Só que Herodes tinha poder e usá-lo-á de forma pérfida, satisfazendo os caprichos da jovem Salomé.

Flaubert, Oscar Wilde, Mallarmé e Eugénio de Castro, Carlos Saura, para só citarmos alguns criadores, vestiram e despiram Salomé como o símbolo da perfídia e da sensualidade.

Deram-lhe e tiraram-lhe ingenuidade e candura ou carregaram-na com paixões mórbidas e a mais repugnante perfídia, conforme a veia criativa os inspirou.
É certo que esta bela jovem da Galileia teve existência real.
Para lá dos mitos criados nos 20 séculos passados sobre a sua morte, Salomé mantém-se uma figura histórica inesquecível e para sempre ligada ao nome de João Baptista.
No Evangelho de Mateus, aparece apenas com uma simples referência (…) O historiador hebreu Flávio Josefo também se refere a ela, dizendo: Aquela que pediu, por conselho da mãe, Herodias, a cabeça de S. João Baptista, por ter dançado airosamente” (Tesouro Bíblico ou Dicionário Histórico – do Antigo e Novo Testamento, p. 263, Lisboa, 1785).
Bailarinas e escravas, não eram consideradas convivas e estavam ali para o prazer dos convidados (in Wikipedia).

Herodes era um homem pouco culto, medroso, ignorante, pouco mais do que um nómada, e tinha medo do profeta. O tetrarca mandou que o trouxessem à sua presença, pois queria ouvi-lo. João repetiu-lhe o que já dissera antes, que o casamento dele com a cunhada era “sacrílego” segundo as leis. E mais, disse-lhe que a repudiasse e que voltasse para a mulher legítima, que expulsara injustamente, e que, se não o fizesse, cairia a maldição sobre Israel. Herodes, sob pressão de Herodias, mandou-o encarcerar numa prisão-cisterna.
(…) Herodes (…) vivia torturado entre o prazer e o dever. Era fraco. Não resistia às artimanhas da cunhada, agora sua mulher, que se dizia ter casado com ele apenas por interesse. Ora Herodes nada tinha que se comparasse com o pai, Herodes, “o Grande”, que, na religião católica, ficou conhecido por ter ordenado a “matança dos inocentes”, isto é, ter mandado executar todas as crianças com menos de dois anos, quando ouviu dizer que um novo rei viria. Esse rei era afinal e apenas “o menino de Nazaré” e o seu reino não seria deste mundo.
(…)
Herodes Antipas quis esquecer que as palavras de João o torturavam e não o deixavam dormir. Era o seu aniversário e quis festejá-lo com toda a pompa (…)Foram convidados todos os príncipes, que acorreram da Judeia e da Galileia e trouxeram os seus séquitos. Bailarinas de longes paragens vieram com a sua graça animar o banquete. Foram preparadas as melhores iguarias.
Entre cada prato servido, tocava-se música e as bailarinas núbias e egípcias, ao som de alaúdes e flautas esvoaçavam entre os convivas. Os vinhos de Chipre e da Grécia enchiam taças de metais preciosos e reinava a alegria. Na sala do banquete só era permitida a entrada a elementos do sexo masculino
(in Wikipedia), pois bailarinas e escravas não eram consideradas convivas e estavam ali apenas para o prazer dos convidados.

Reza a lenda, que a meio da festa, para surpresa de todos, aparece uma bailarina desconhecida, de beleza sem rival, acompanhada de escravas – era Salomé – que foi dançar. Perfumada com sândalo e outras essências tinha nos braços e nos tornozelos pulseiras. Eram as suas vestes tules e finas musselines transparentes … e então Salomé começou a dançar.

Eugénio de Castro, no seu poema lírico, descreve-a assim:

“Radioso véu, mais leve que um perfume,
Cinge-a, deixando ver sua nudez morena,
Dos seus dedos flameja o precioso lume
E em cada mão traz uma pálida açucena.
E a infanta avança. ao som dos burcelins…
Como sonâmbula perdida
Em encantos, místicos jardins,
Dir-se-ia que dança desmaiando
Ao perfume das flores que estão em roda…
Dir-se-ia que dança e está sonhando…
Dir-se-ia que a estão beijando toda…”

Quando Salomé termina a dança, os convidados de Herodes entusiasmados querem mais. E Herodes, louco de desejo, pede: “Salomé, dança mais uma vez!” Ela recusa, esquiva, mas de novo o tetrarca seu tio insiste: “Dança para mim outra vez! Se o fizeres, pede-me o que quiseres que te darei, nem que seja metade dos meus reinos. Tudo será teu!” Salomé hesita, mas depois, num relance, percebe que tem, naquele momento um poder imenso e vai usá-lo. Como? Caprichosa, e sem pestanejar, como quem tira um fruto maduro de uma taça, diz: “Quero a cabeça de João Baptista numa bandeja de prata.” Herodes Antlpas fica branco, quase petrificado, não acredita no que ouve e diz-lhe para escolher algo diferente. Que peça jóias, tecidos caros mandados vir de longínquas paragens, os luxos mais inatingíveis, mas a cabeça do profeta não. Herodes tem medo, não é a bondade que o faz agir assim, ou talvez, lá no fundo, pense que aquele homem não merece a morte, porque não é um criminoso, não atentou contra a vida de ninguém, embora nesse tempo mandar matar fosse quase uma banalidade.
Imperturbável, Salomé repete, sem hesitar: “Danço outra vez para ti, se me trouxerem a cabeça de João Baptista.” E Herodes cede. Tem de cumprir a palavra dada perante tantas testemunhas e manda que as suas ordens se cumpram. Entrega ao chefe da guarda pessoal o seu anel, para que este o mostre ao carrasco e para que este execute, sem demora, a sentença. A prisão onde estava João Baptista distava ainda alguns quilómetros do palácio. (…)
Um pouco mais tarde, a cabeça de João Baptlsta é trazida à presença de Salomé. Esta olha-a, ainda ensanguentada. A partir daquele momento, João Baptista é um mártir, é o santo que tantos séculos depois a humanidade não esqueceu.

(…)
Para Oscar Wilde (1854-1900), o autor da mais famosa peça sobre Salomé, escrita para o teatro e para a actriz francesa Sarah Bernhardt, Salomé é a encarnação da perfídia, porque ela amara João, que a não desejou, por isso ela agiu por vingança. Quando lhe trouxeram a cabeça do mártir ela beija-o na boca, desesperada. A peça é tão impressionante e tão contra os cânones da época que foi proibida em Inglaterra, na Áustria, na Suécia e noutros países. Só em França foi representada, com sucesso, em 1896.
Depois da peça de Oscar Wilde, Richard Strauss fez a música da ópera do drama de Salomé e João Baptista. Houve quem compusesse bailados sobre o tema, mas é na iconografia sobre Salomé que encontramos o maior e mais diversificado número de interpretações: gravuras, desenhos, telas de pequenas e grandes dimensões, esculturas. Quase todos os grandes museus do mundo têm quadros com João Baptista e Salomé. Há representações remotas, sendo conhecidas obras de toda a Idade Média. De referir, em particular, um belíssimo quadro de Filippo Lippi (1406-1469), uma gravura de 1583 da Bíblia Sacra de Antuérpia e outra, também de Antuérpia, de 1715.
Portugal tem no Museu de Arte Antiga quadros sobre o tema e o museu de Tomar alberga, da Escola de Gregório Lopes, do século XVI, um exemplar belíssimo sobre o tema da mulher má e do santo degolado.
Em Guimarães, no Convento de S. Francisco, existe também um notável fresco representando a «Degolação de S. João Baptista» que vale a pena conhecer.

Leonardo da Vinci, Ticiano, Caravaggio, Bernardo Luini, Veronese, Pedrini, Rembrandt, Regnault, Eduardo Toudouze, Max Slevogt, Hugo von Habermann, Delacroix, Otto Friedrich, Klimt, Lovis Corinth, Fritz Erler, Juana Romani e Ella Ferris Pell são alguns artistas que se deixaram seduzir por Salomé. Até Picasso e Dali não resistiram ao seu erotismo. Uns vêem uma Salomé sanguinária, a completa encarnação da maldade, outros uma Salomé ingénua, que terá apenas obedecido à mãe, que lhe sugere o tenebroso pedido. Fosse como fosse, nenhuma mulher foi ou será considerada tão pérfida como Salomé. O grande, o maior pintor de Salomé foi Gustavo Moreau, que, entre esboços, desenhos e telas, terá dado vida a uma única Salomé em mais de uma centena de versões (in Wikipédia)

Pois é, mas afinal quem terá sido Salomé?
Para mim Salomé não é senão uma vingativa mulher que prefere ver degolado o seu traiçoeiro amor, pois João Batista não seria certamente e tão somente o bondoso homem que o Envangelho retrata, mas também belo e sedudor, tendo, ainda por cima, invadido a intimidade do Palácio a que não pertencia…
Talvez o desejo impossível, provavelmente o único que não estava ao alcance da sua perfídia, tenha deixado a infanta enlouquecida e vingativa.

Mas Salomé (terá ela algum dia perdão?) continuará a seduzir-nos por detrás dos seus olhos belos e provocantes, inscitos na Arte Universal.

Que Salomé reescreverias tu?.

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Responses

  1. >Eu sei que a saltei. E que a alcachofra me contou um segredo com tanto tempo ….

  2. >Há que saber saltar à fogueira, sem medo do que está do outro lado de lá!

  3. >E hoje é noite de S. João!

  4. >Releio hoje o primeiro comentário da Bettips. Tão certeiro, como quase todos o que faz!"

  5. >a escrita faz-nos sempre melhores

  6. >Filomena:apanhei a Bettips! e o que me ri de satisfação. Porque será que estes momentos tão virtuais e fugazes (mas lúcidos e lúdicos) nos fazem melhores?

  7. >”Para o palato degustardeixem lá vir a piquena.Gostamos de a ver dançare o povo é quem mais ordena!Não te toldes, ó Legívelque se me tolda o olharporque tu és impossívelfazendo-me até rimar!”Perdoa Filomena mas este Urbano dá-me cá uma vontade de lhe responder… às vezes, temos esta mania de andar ao esconde-esconde! A piada lúcida e lúdica.Bjs

  8. >Se tal me fosse inquiridoà história como ela énão lhe teria mexidodeixava em paz Salomé.Herodes foi fraco e tolotoldada fica-me a vistacom a travessa em vez dum bolotraz a cabeça de Baptista.Não é pitéu que se manjesobremesa para provarque outra coisa se arrajepara o palato degustar.

  9. >linda bettips. gravarei as tuas palavras

  10. >Difícil resistir à vingança: “se não foste meu, não és para mais ninguém”. Mas mudam-se os tempos… Hoje, lemos de Salomés pouco, ou ter-se-ão refinado. Mas de Herodes e Pilatos tantos têm tanto que é difícil “ver lá no fundo” a bondade emergindo da cobardia….!E nunca mulheres se deveriam zangar por causa de homens: há tantos e tão diversos!Bjs


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