Publicado por: Filomena Barata | Junho 6, 2011

Luísa Monteiro, É NECESSÁRIO E IMPERIOSO QUE SE LEMBRE QUE SE SAIBA

Luisa Monteiro
É NECESSÁRIO E IMPERIOSO QUE SE LEMBRE QUE SE SAIBA

Quando Norton de Matos chegou a Angola, em 1912 a fim de desempenhar o cargo de Governador-geral, deparou-se com uma mentalidade, por parte dos colonos, em relação aos negros que, aliás existia também na Metrópole. O respeito existente anteriormente, valorizando a sua cultura e a afeição pelo homem de cor, dera lugar a uma relutância, considerando-o inculto, incapaz, moral, política e socialmente, nunca podendo igualar o branco.
Ainda o governante mal havia chegado à Colónia e começado a pôr em prática as suas ideias de francas e justas relações com os indígenas, principalmente no que dizia respeito à prestação de trabalho, já no Ministério das Colónias, em Lisboa, se apregoava que o negro era preguiçoso e arredio do trabalho. Trabalho forçado, trabalho obrigatório, a substituir a escravatura, era o que se proclamava em Lisboa e que vinha contra a política das normas a aplicar, defendidas por Norton de Matos.
As medidas tomadas pelo Governador foram prato imenso por parte do Ministério das Colónias que publicou artigos mesquinhos nesse sentido.
Aquando da implantação da República havia personagens que defendiam ideias políticas, em relação à convivência com os indígenas em Angola, bem diferentes das defendidas a partir de 1912. O 1º Governador-geral da República em Angola foi o coronel Manuel Maria Coelho. Este governante já conhecia Angola por ali ter vivido uns anos, na qualidade de condenado. Nomeado governador, tomou a peito o cumprimento rigoroso da legislação sobre o trabalho indígena. No ano da sua posse, em 1911, expulsou 11 portugueses que tinham praticado actos graves, contra a liberdade e direitos dos negros. Pouco conseguiu, acabou por pedir a sua exoneração. O mesmo iria acontecer com o governador do distrito de Moçâmedes, Carvalhal Henriques ao lutar contra a política de “ aluguer de serviçais”. Ao resolver acabar com tal situação assinou a sua sentença. Contra este governante levantou-se tal campanha difamatória que, praticamente, foi escorraçado do cargo. Reconhecido, após relatório instaurado, da injustiça praticada, quis o Ministério colocá-lo no lugar que lhe havia sido retirado. Recusou e foi governar um distrito em Moçambique vindo a falecer dois meses depois., quem sabe amargurado.

Assim aconteceu a Norton de Matos ao ver as suas políticas de governação deturpadas e passadas para a História com cores nunca por si defendidas. Diz Norton de Matos, nas suas “Memórias” que após 1912 e por causa de “ aluguer de serviçais” tinha havido necessidade de se “devorar” um governador-geral e um governador de Distrito. Mal sabia ele o que lhe estava reservado, digo eu.

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Responses

  1. Sobre a visão que os portugueses, e europeus em geral, tinham do africano, naquela altura, e para complementar o que a Luísa trouxe, eis um excerto de um “brilhante” relatório escrito por António Ennes, à época Alto Comissário de Moçambique, a quem Brito Camacho (político luso) qualificou de “admirável”:
    “O preto bebeu, bebe e beberá. Todas as esquadras dos governos signatários do acto geral de Bruxelas a bloquearem os portos de África, e todos os seus exércitos a policiarem os sertões, não o impediriam de satisfazer a paixão singular pela embriaguez, porque, não tendo outro licor, acharia meio de se embriagar com a água dos rios.”
    Ainda sobre o texto que a Luísa em bom tempo trouxe, há que referir que o governador Manuel Maria Coelho, que prendeu e recambiou para Portugal 11 comerciantes que se dedicavam à compra e venda de escravos, teve problemas muito sérios, não só com os colonos mas também com os quiocos, que deixavam de poder vender as suas “peças” e ficavam assim sem uma importante fonte de rendimento. Houve combates e oito soldados africanos foram mortos. Nunca poderemos ignorar que o problema da escravatura não tem, não teve, um só interlocutor: havia europeus e africanos envolvidos no negócio, sempre houve, mas esse facto é muitas vezes “esquecido” conforme se queira (re)fazer a História.


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