Publicado por: Filomena Barata | Maio 17, 2011

Henrique Galvão, Baixa de Cassange

Baixa de Cassange, Fotografia de Lito Martin

Publicado por Lito Martin
BAIXA DE CASSANJE, O GRANDE MAR VERDE

BAIXA DE CASSANGE

Mal se abala do Quela, a um quarto de hora de marcha, estamos perante um dos mais portentosos quadros de paisagem de Angola e um dos mais originais de todo o mundo: a Baixa de Cassanje.
Numa curva da estrada, do alto da serra de Cassanje – a Tala Mungongo do gentio – a terra abateu cerca de trezentos metros a pique. E o que se vê é uma grande, infinita, depressão de terra, descida bruscamente daquela curva de estrada, e que se estende em floresta, a lonjuras oceânicas, cujos horizontes se perdem na névoa em que se fundem as coisas muito distantes.
As matas desceram com a terra e aparecem lá em baixo, como felpa compacta de um tapete, pois o seu relevo é imperceptível à vista mergulhante de trezentos metros de altura.
A Baixa de Cassanje é uma das maravilhas que a fotografia não pode reproduzir, nem com os processos mais aperfeiçoados do cinema. Há que gravá-la na retina e conservar a imagem, para gozo pessoal, sem possibilidade de a transmitir – porque também não é fácil descreve-la.
A atracção que a Baixa de Cassanje exerce é do género da atracção que se sente perante o mar, no alto dos penedos da costa: apetece ficar a olhar para ela, durante longas horas, imóvel como os pescadores contemplativos, a ver – só a ver, sem pensar nem compreender – o infinito tapete verde e frisado, sempre verde e frisado e só verde e frisado.
Este mundo – este Mungongo – foi um manancial inesgotável de lendas e acontecimentos. Estamos para ele como homens de um mundo perante outro mundo. E aqueles que, em tempos recuados, estiveram no lugar em que nós estamos, estiveram para ele como homens perante o próprio Inferno.As lendas de Cassanje exploram, em geral, a dificuldade que havia em transpor a escarpa vertical, por onde a terra se partiu e a outra metade se afundou. Ou apresentam o caso romântico de dois amantes que se salvam do inferno de baixo e chegam ao alto, como se realizassem um milagre, ou contam a história terrível de um espírito malfazejo, que se despenhou a meio da aventurosa subida, quando pretendia vir cá acima colher fogos celestes para assar os desgraçados.
Os acontecimentos ocorridos em Cassanje são, em geral, muito mais feios do que as lendas, mesmo quando as lendas são feias.
A conquista e ocupação da Baixa de Cassanje pôs à prova heroismos e bravuras sublimes – mas o que ficou na lembrança dos povos foi a terra de escravos, a feira infernal, onde os Sobas de Cassanje concentravam milhares de escravos, que menos choravam a liberdade perdida do que os tratos que sofriam.
Ainda hoje, decerto, não se passa uma noite nas sanzalas de jingas, songos, bondos e bangalas em que não se contem os martírios dos que morreram e sofreram tratos infernais e dos que foram, para todo o sempre, para o Brasil, disparados pela Barra do Quanza – centenas de milhar que cruzaram, como um Calvário, a Baixa de Cassanje!
Daqui saíam também sem escapar à fadiga, à fome e às torturas, para a Feira do Dondo, levados pelo mercador, que vinha transaccioná-los com o Soba, como lavrador em feira de gado.A Baixa de Cassanje é hoje, infinitamente mais do que foi. O Mar Tenebroso de antanho está limpo de demónios e de fogos assassinos – e nela ficaram, além da grandiosa beleza de sempre, as terras que prometem farturas de algodão, tão bom como o melhor do vale do Nilo.
Através da sua enormidade viajam tranquilamente os rios Lui e Cuango – e no lugar da histórica e macabra feira que a celebrizou, trabalha uma missão católica e vive gente pacífica, entre a qual começam a despertar esperanças de fortuna.
Iniciada a descida é a descida aos infernos. Da frescura do nosso varandim às temperaturas escaldantes da Baixa, sofre-se a transição do Céu para o Inferno. Mas este Inferno é belo como o Céu – apenas muito quente, denso, a pulsar de febre.
À medida que vamos descendo vão-se encurtando os horizontes e vai a Baixa ganhando relevo. No tapete unido começam a diferenciar-se pormenores.
Dir-se-ia que estamos descendo ao fundo do mar – de um mar fervente, sem água, feito de um fluido especial.
Em certa altura o tapete faz-se francamente floresta. Percebe-se finalmente que as árvores não estão projectadas e achatadas no chão, mas que têm uma altura. Por fim mergulhamos sob as suas copas e rolamos na planície, onde a montanha por trás desenha uma grande sombra.
Pouco depois a paisagem monitoriza-se e os quilómetros estendem-se, interminavelmente, ao longo de rectas sem fim. De vez em quando uma plantação de algodão. Ao longe, antílopes que fogem levantando poeiras doiradas.
Anoiteceu ainda na planície.
Já muito tarde atravessamos uma ponte num rio de margens pedregosas e paramos sob uma linda laranjeira, defronte de uma casa enchapelada com telhado de capim. O rio é o Cuango e o posto chama-se, também, Cuango.
(in “Outras Terras, Outras Gentes” de Henrique Galvão, 1941)

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