Publicado por: Filomena Barata | Maio 4, 2011

As prisões, Filomena Barata

as prisões, Filomena Barata

nunca, nem de qualquer espécie

e menos ainda as que em vez de laços de seda
são feitas de arame farpado

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A ideia deste texto partiu de dois viajantes cibernautas. Conheceram-se um dia em que o cansaço da noite já os invadia. Picaram o chat, desportivamente, como quem quer ouvir as notícias, ou talvez nem mesmo isso. Chamava-se nesse tempo o TERRAVISTA.

Foram também dizer um olá e mais umas quantas charadas, mas, como tudo tem os seus senões, e de tudo podem nascer, sem nos darmos conta, laços ou prisões, pois da amálgama de palavras ditas há sempre algumas que nos prendem a mente e que acabam por nos atar as mãos, nem que seja ao computador. E desta sessão de conversa ficou o testemunho que vos vou deixar.
Pois, assim é; há sempre uma ou outra palavra que, mesmo fugaz ou de rajada, se cruza entretanto com outra.
E que, sem se dar conta, muito devagar, começa a constituir um diálogo; um conjunto de frases a que se dá sentido. Ou seja, começa a desenhar-se o compromisso da escrita; do código que, consolidando sentidos e significados, nos vai fazendo percorrer as ideias; nos vai burilando os conceitos.
Uma pergunta é recorrente, entre uma primeira sequência de palavras a que se pretende atribuir um denominador comum para o entendimento no chat: que te traz por cá afinal?
Resposta comum, quase fatal, como o destino, entre adolescentes: encontrar amigos, conversar. Entre os adultos – que há muito se julgam imunes a essas trocas infantis e, logo, à ilusão da partilha que a amizade traz, e que, por isso, elegem as salas de forma mais selectiva (a Filosofia; o Cinema, p.ex.) e usam a ironia para escamotear algumas das suas solidões – as respostas costumam ser mais artificiosas também.
Estranha foi a resposta de um dos cibernautas e que acabou por ser o ponto de partida para a nossa conversa: sinto-me reclusa, uma prisioneira de mim mesma. Venho apenas aqui para ver o que se passa do outro lado das portas.
E palavra cruzada com palavra dita, concluímos que cada um tem e as suas reclusões: umas consentidas, escolhidas ou aceites, mas nem por isso menos austeras na sua vivência, até porque o sentido e os objectivos dessas mesmas reclusões se esvaiem ou pulverizam tantas vezes em múltiplas dúvidas ou indecisões; outras, forçadas, aparentemente mais atrozes, mas cujo sentido punitivo acaba por ser mais aceite, mesmo que com a revolta dos dias.
Foi assim que nos surgiu a ideia de fazer um trabalho conjunto sobre as reclusões: dentro e fora de portas. Uma, porque conhecia as noites duras de um exílio quase dourado, no Alentejo, silêncios marcados por projectos que inventava para semear as noites de sentidos e de sentimentos; o outro, porque já tinha conhecido como “observador” activo, pois fora psicólogo prisional, o que se passa do lado de dentro das prisões.
Ambos sabiam que, pese as suas experiências,  nada conheciam da reclusão: apenas podiam aproximar-se de alguns dos seus contornos, porque a porta estava, afinal, aberta, sempre que desejassem sair.
Ambos sabiam que para lá de alguns processos de iniciação que os poderiam ajudar a definir um estado, um estar, não havia marcada ou selada no seu corpo a tatuagem de uma verdadeira prisão. Não havia a vergonha ou o remorso de algum gesto irreversível, ou a haver, seria passível ainda de ser “reposto”.
Mas, no entanto, dispuseram-se a conversar sobre reclusão: como se sente, ou se escamoteia o que se sente; como se gerem os sinais e os códigos; como se articulam sentidos, sentimentos; como se metamorfozeia o corpo e o pensamento; como se inventa e projecta a memória, num tempo que por vezes parece não ter tempo.

1. As reclusões consentidas, de todos os dias: as que nos confrontam com as nossas solidões; os nossos remorsos e rancores; as nossas dúvidas, os nossos afectos e os nossos prazeres.
São ambivalentes estas reclusões: não te trata de abordar um presente como se fosse um hiato entre o passado (obscuro ou não) e um futuro projectivo; não se trata de reviver, através de uma memória reinventada, docilizada ou feroz, um passivo, inventando um amanhã; não se trata de um tempo fixado/marcado entre horas, dias e anos.
A reclusão consentida vive de um tempo contínuo, onde o Passado e o Futuro se esbatem num momento. É uma escolha para a qual, por vezes, já se perdeu o sentido, ou a motivação. É um estar que adormece o fluir do tempo, dando a cada momento a força do Eterno. Mas conviver com estas reclusões exige ter permanentemente a carne viva; o ouvido atento a cada som; crer e descrer nas palavras; no céu e no inferno. E, não obstante, continuar. E,contudo, não há o fora e o dentro, porque se está sempre dentro e fora, ao mesmo tempo.

2. A reclusão forçada, como tal, fixa um pretexto e um sentido, por muito dura, perversa, “inumana” que seja, marca o tempo, mesmo que dentro dele se percam as horas. Atemoriza, claro está, porque inibe o “fora” , fixando-o em imagens mitificadas, que se projectam entre o terrorífico e o “Paraíso Perdido”, que um dia se alcançará de novo.

À reclusão está associada, como mecanismo de sobrevivência, a uma certa ambivalência na gestão e controlo do tempo e da memória: por um lado, produz-se a saturação da informação, ou seja, há que “neutralizar um maior número de acontecimentos” (LYOTARD, 1997: 72), condensando os dados necessários e essenciais à “marcação do “antes”, do “agora” e do “depois. Por outro lado, há tendência ao esbatimento, ao “desculturamento” (GOFFMAN, 2003: 23), quando o projecto do “depois” parece demasiado longínquo ou mesmo ausente, é necessário diluir tudo, tornar o “agora” o “todo” e o mais despojado possível. Isto porque, por um lado, não há Futuro para condicionar o presente.
É o despossuir/desapossar ou neutralizar o Tempo: não há lugar a uma narrativa prospectiva, a uma “história situada do outro lado”. Trata-se de um mecanismo contrário ao analisado por Lyotard, quando nos fala da narração mítica, onde o Mito e o “destino” encarnam a “existência de uma instância intemporal que conhece na sua totalidade a sucessão de momentos que constituem, individual ou colectiva”, (LYOTARD, 1997: 74).
Em reclusão prolongada há, por um lado, lugar à perda de capacidades para acompanhar as mudanças culturais do “exterior, produzindo-se o “desculturamento” (GOFFMAN, 2003: 23) e, por outro, a própria reclusão e os mecanismos de poder e de convivência a ela associados geram rupturas com o passado e alterações de personalidade, funcionando como “estufas para mudar pessoas” e de “profanação do eu” (GOFFMAN, 2003: 22 e 40)

Poder-se-ia dizer que numa prisão, como normalmente é tratada no cinema, ou seja, como a imagina o comum dos mortais, há lugar a uma estética do sublime “esse prazer negativo que caracteriza de modo contraditório, quase neurótico, o sentimento sublime (…). as trevas, a solidão, o silêncio, a aproximação da morte podem ser terríveis ao anunciarem que o olhar, outra pessoa, a linguagem, a vida podem vir a falhar (LYOTARD, 1997: 91).
Há, nas visões cinematográficas, portas metálicas e ruidosas que se trancam; efeitos de claro-escuro que se exploram (o fora e o dentro); há seres que se apresentam na sua confrangedora condição; há esgares e risos sarcásticos; há braços esticados por entre grades férreas: tudo é o limite e a ameaça paira no ar. Ao espectador oferece-se-lhe, assim, uma condensação das suas capacidades de emoção.

Mas afinal, e do outro lado, o que há na realidade?

Como o meu interlocutor dizia sobre as prisões: «No entanto, a impressão inicial mais marcante não é visual, mas sim sonora. Dentro da prisão, todos os sons adquirem um timbre metálico. São as chaves, são as portas (e chaves e portas não faltam!), é o mobiliário, são os passos dos guardas, são as vozes que ecoam, são as chamadas pelo microfone – tudo adquire uma tonalidade nova face às paredes despojadas do edifício».

«As prisões e os campos de concentração são construídos para controlar os outros ou para os destruir. Os centros de interrogatório utilizam meios físicos específicos para destruir a resistência das pessoas de quem pretendem extrair as informações ou a aquiescência. Estes meios incluem a dor física directa, mas também o isolamento, a tensão contínua, a perda de privacidade, a desorientação no espaço e no tempo, o ruído, a luz, a escuridão, o desconforto permanente e estratégias de ordem física semelhantes» (LYNCH, 1999: 72).

Nas prisões é fundamental o controlo espacial dos reclusos e a gestão do seu tempo.

Existem assim, nas prisões, como locais de excelência da reclusão social, meios físicos que demarcam claramente os limites espaciais da exclusão e que garantem a manipulação da sua acessibilidade: os muros e outras barreiras, como as vedações, os portões, as grades.

Por seu lado, o controlo do tempo é demarcado de forma audível, de molde a uniformizar comportamentos.

Nas “reclusões” consentidas, a gestão do espaço e do tempo faz-se de maneira totalmente díspar. Não há muros altos nem vedações a barrar-nos entradas e saídas: entra-se e sai-se quando se quer. As grades são, quanto muito, as clausuras que impomos a nós próprios; não há os outros que nos empurram para “dentro”, como “castigo” necessário à ruptura social que originámos (ou não), mas o dentro representa uma escolha; um desafio.
Não há apitos, nem microfones que nos regulem os movimentos e os minutos, mas apenas os sons ou a música que escolhemos ter por companheiros.

O conforto, mesmo que desconfortável ou austero, é fundamental a esse ritual. Como se fosse um convento a que recolhemos, mas  de que já desconhecemos a arquitectura, porque, devagarinho, até do espaço nos fomos separando.
Com isto quero dizer, que a reclusão consentida está intimamente ligada ao hábito e ao ritual: aos cerimoniais e à rotina das envolventes; às texturas; à luz; aos objectos ou ao seu despojamento.
Zela-se cuidadosamente para que pouco ou nada mude em nosso redor; para que a história construída se centre o mais possível nela própria. A história é afinal o texto que se lê ou que se escreve; a música que se ouve quando tudo à volta é silêncio. É o solilóquio que se instala nas palavras (não) ditas, enquanto a mente se “perde” em busca das suas múltiplas significações.
É a territorialização do tempo que se quer condensado/concentrado, «como num Templo, um TEMPLUM, este espaço-tempo neutralizado onde é certo que alguma coisa venha a acontecer, sabe-se lá o quê (LYOTARD, 1997: 186).
É nesse lugar sem paisagem cadastrada que se parte então para uma infinita viagem:
«No segredo do seu quarto, inscreve sobre nada, na intimidade do seu jornal, a ideia de uma outra casa, da vontade de qualquer casa» (LYOTARD, 1997: 200).

Poderemos perguntar: Quando se entra na prisão o que mais marca é o som, a luz, o espaço e quando dela se sai?
Certamente um ar, uma visão que pode ser momentaneamente assustadora, mas basta deixar a brisa a correr no rosto e sentir a LIBERDADE!

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