Publicado por: Filomena Barata | Abril 9, 2011

Filomena Barata, O Alentejo, esse lugar …

Alentejo, Julho de 2011. Fotografia Filomena Barata

Forte da Graça, Elvas

À Mariana, minha filha, nascida no Alentejo, neta, bisneta, trisneta de Alentejanos, para que disso se orgulhe.

Ao Paulo, pelas viagens feitas e ainda por fazer!

Cemitério protestante, Elvas

Talvez seja deste Alentejo que vá falar neste “caderno de campo” ou de apontamentos que aqui tenciono deixar-vos. De viagens, muitas feitas em trabalho e outras percorridas no encalço de qualquer lugar que queria visitar.
Delas foram ficando rascunhos ou ideias e folhas soltas, que sempre pensei, um dia, ter tempo para arrumar, debaixo de um título genérico «Paisagens humanizadas».
Agora, atravessada já definitivamente a ponte que me trouxe de regresso a Lisboa, foi a altura de as organizar. Muitos textos serão reeditados ou retrabalhados, porque nem sempre a sua especificidade se apropria a um lugar como este. Uma coisa é certa, dele farei o meu testemunho do que foram anos a ouvir histórias sobre sítios, sobre momentos vividos. E partilharei, ao ritmo do que os serões me permitem, do que foi e é para mim o Alentejo e dos lugares ainda habitados pelas “margias”.
Assim, fica a dedicatória ao meu Alentejo e aos que lhe pertenceram e pertencerão. Porque tudo o que se viveu ninguém nos roubará, e não morrerá.
Se a Palavra fôr capaz de o contar e se a Palavra fôr capaz de resistir, mesmo quando nos quiserem calar, ou quando tivermos que temporariamente silenciar …
 

Senhora do Carmo, Azaruja

É grande, de facto, o Alentejo: o território onde se situam planuras e montanhas, onde se vê a seara ou o mar; onde se espalha o montado ou o trigo; o espaço onde sempre se semearam e semeiam gentes com histórias multi-seculares, testemunhadas nas marcas que foram deixando. Hoje mais sustentada a sua economia na excelência dos vinhos, azeites, cortiças e pecuária, prepara-se também para assentar uma nova dinâmica no regadio que alterará profundamente a relação do Homem com aquela Terra.

Mas grutas com pinturas rupestres de que poderia citar os exemplos do Escoural ou os de Fronteira; as suas antas, disseminadas por todo o território, cujo exemplar do Zambujeiro é dos mais notáveis peninsulares; os seus povoados pré-históricos; a sua enigmática Escrita do Sudoeste que permitiu a Almodôvar criar um Museu tão particular; as cidades e uillae rústicas ou ainda os uicus mineiros romanos de Aljustrel; ou os vestígios da ocupação islâmica que, em Alcácer, Ourique, Santa Clara em Almodôvar, em Mértola, ou os silos da Rua da Lagoa de Évora, entre tantos outros lugares, podem falar-nos desses tempos remotos.
Nas praças de Vila Viçosa, em Monsaraz, e em tantas outras localidades, as laranjas fazem um hino a esses tempos de influência árabe em que parece terem elas sido trazidas para o que hoje é Portugal e em Castelo de Vide a Judiaria recorda-nos que o Território foi ocupado por povos de todas as culturas e religiões.

Villae romanas da Tourega, Évora, de S. Cucufate, Vila de Frades.

O Alentejo tem o maior concelho da Europa, Odemira, onde viveram homens desde a Pré-História, mas, no entanto, a desertificação deixou-se sobre ele abater, bem como sobre tantos outros concelhos da raia, do Baixo ou do Nordeste Alentejano, pese ainda se sentirem os seus Homens caçadores do que já nem na coutada resta, pois em Quintas-feiras de época ainda há debandada geral na senda de patos, perdizes, coelhos ou javalis, pois a caça ainda é forte presença na dieta alentejana. Para registo dessa actividade ancestral ficou em Vila Viçosa o testemunho no Museu Municipal.

O Alentejo sente a perda das suas gentes e das actividades e ofícios que secularmente as ligaram aos lugares: a agricultura, a pastorícia, a mineração, entre tantas outras.
Contudo, esgotado o Lousal para a exploração mineira, dele ficou a memória em Museu e herdados os espaços que gradualmente se transformam em locais de lazer ou de aprender.


Convento do Espinheiro, Évora

Mas o Alentejo mantém ainda a qualidade dos seus lugares, sejam os seus núcleos urbanos ou os seus montes, a sua “arquitectura chã”, os espaços religiosos ou sítios arqueológicos; a excelência dos seus produtos e dos seus recursos: a vinha que, já em período romano, permitiu que, em Vila de Frades, Vidigueira, se instalasse uma importante e rica casa agrícola e que, ainda hoje, teimosamente, copia as parras de Paulo Laureano; o seu azeite que permite, ainda nos nossos dias, que a Sociedade Taifas, na Quinta de São Vicente, em Ferreira do Alentejo, ganhe o prémio para o melhor azeite maduro frutado do mundo; os seus cavalos representados na villa romana de Torre de Palma, Monforte; ou os participantes das corridas no Hipódromo romano de Miróbriga, Santiago do Cacém; e ainda hoje os Lusitanos reproduzidos nos Serviços Coudélicos de Alter.

Ruínas de Miróbriga, Santiago do Cacém

Em Alter, sobre a cidade romana de que o Sítio de Ferragial d’el Rei é apenas mostra que se pode visitar, construirá a família real residência acastelada, ao que consta, para aí se dedicar a caçadas memoráveis, no espaço de que hoje podemos partilhar, pois em núcleo museológico se tornou.
Em Vendas Novas, também a família real intalou no século XIX o “Palácio do Vidigal” para se fazer acompanhar da nobreza que ia caçar.

Castelo de Alter do Chão

E podemos lembrar o seu peixe, também marcante presente na gastronomia alentejana, que os testemunhos romanos do centros conserveiros de Tróia, no concelho de Grândola, ou de Sines e da Ilha do Pessegueiro são exemplos, servidos pelas ânforas, esse vasilhame de características peculiares, produzidas na Herdade do Pinheiro; e recordar os tunídeos que, menos hoje que ontem, continuam a fazer parte dos manjares litorais, bem como o cação, a partir do qual se faz uma das melhores sopas que o Alentejo produz, a par das sopas de cardos, de beldroegas, ou de tomate como só S. Manços tem, e que são pitéu celestial. Mas não podemos esquecer nunca a importância dos seus “cheiros”, sendo, para mim, os coentros, os poejos e os oregãos um verdadeiro «Monumento Nacional» , e que a par do cordeiro de carne gorda, das sobremesas bem açucaradas à base de amêndoas e nozes, são heranças da culinária árabe.

Mas uma série enorme de especiarias dão aroma e gosto à comida, através de um conjunto de outros ingredientes: a alfazema, a água de rosas, a canela, a noz moscada, frutas secas (tâmara, uva-passa, pinhões, pistaches) e frescas (romã, maçã), sem falar do açúcar e do mel. Também da época islâmica se herdou a enorme variedade hortícola, salientando-se a fava, o grão-de-bico, o tremoço, a ervilha e o chícharo, e outras espécies que gradualmente se foram introduzindo, a partir do século X, como o arroz, o trigo duro, o espinafre a beringela e a alcachofra, como comprovam trabalhos arqueológicos efectuados em inúmeros povoados árabes do território nacional, a exemplo de Mértola.

E os espargos dão às migas do Alentejo o melhor gosto que pode haver

(veja-se http://cano.com.sapo.pt/

e http://www.degustadoresemfronteiras.com.br/arabesnoalentejo.html) .

Ruínas de Tróia, Grândola

Ou ainda do peixe fresco do mar, em que a sardinha e o atum são, desde época islâmica os favoritos, da palafítica aldeia da Carrasqueira ou dos rios e barragens, que são recursos e vias fundamentais do território. Achegãs levam às barragens famílias inteiras em Domingos soalheiros, se bem que o Alqueva e as suas marinas fluviais cada vez mais lhes vão tirando lugar com sítio de lazer, para já não falar das novas formas de conhecer o território e, a partir dele, o Mundo, a exemplo de quem passa dias inteiros no Fluviário de Mora ou no Badoca Park.

Nas suas malgas e potes de barro, sejam as de S. Pedro do Corval, do Redondo ou de outro lugar qualquer salgam-se as carnes para as linguiças e enchidos no geral, fazem-se sopas e servem-se cozidos de grão com borrego. Em Nisa a água fresca guarda-se em peças cerâmicas cravejadas ou “bordadas” a pedrinhas, como se guardam bordados como “pedras preciosas” no Museu Municipal.
Em Estremoz desenham-se “bonecos” que tornam a sua olaria um bem nacional, havendo colecção representativa que merece ser vista também em Museu da Autarquia.
Os Presépios, esses que Hernâni Matos tão bem acarinhou no seu blogue «Do Tempo da Outra Senhora» http://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/ , são os mais bonitos que jamais conheci.


E lembrar os rios que fazem do Alentejo uma Mesopotâmia, melhor, uma triangulação entre o Tejo, o Sado e o Guadiana, fornecendo e escoando produtos: piscatórios do litoral; agrícolas e mineiros.

(Fotografia do rio Mira – Jorge Vilhena)

O Sado, essa única via que cruza o território de Sul para Norte, navegável até Alcácer até há bem pouco tempo, que em Alvalade ou em Alcácer permitiu ocupação desde a Pré-História e que Roma engrandeceu, e o Guadiana, cuja navegabilidade transformou secularmente Mértola em lugar central e deu a Serpa um notável conjunto de moinhos de maré, belos como poucos conheci, bem como o Mira que, na sua foz, em Vila Nova de Milfontes, é viveiro de ocupações de todas as épocas, pois a Pré-História esconde-se nas suas dunas e a Romanidade nas proximidades do leito do rio.

Moinhos de maré do Guadiana (junto a Serpa)


O Mira, Vila Nova de Milfontes

Os três permitiam a circulação de bens e a exploração agrícola dos seus vales.

Falar das suas águas, recurso mais escasso nos nossos dias, que permitiram irrigar os campos, fornecer os núcleos urbanos, e cujas estruturas hidráulicas são ainda visíveis nas inúmeras mães de água; poços; noras; azenhas, picotas, tanques e condutas pulverizadas por todo o Alentejo. E dos aquedutos que serviram cidades, dando-lhes um cenário monumental, a exemplo do que acontece em Évora ou Elvas.

Aqueduto de Elvas


Aqueduto em Valverde.

Para não falar das fontes e fontanários de todos os centros urbanos, de que podemos, apenas para exemplificar, lembrar das de Évora, Portalegre ou Castelo de Vide, que mereceu ser chamada a «Cidade das fontes», pois há, no século XVIII, notícias que existiam no seu termo de Castelo de mais de trezentas fontes, algumas já desaparecidas, e, noutros casos, substituídas.

Mas ainda as suas barragens, cujo notável exemplo romano de Pisões permite testemunhar como, já em período romano, os “Barros de Beja” foram local privilegiado para a exploração agrícola.

Villa romana de Pisões, Beja

A água e a necessidade de o homem se apropriar desse bem fundamental foi, desde sempre, preocupação no Alentejo, como é notório já em periodo romano, através da construção de inúmeras represas, a exemplo da de Pisões ou de Cuba, junto da Igreja de Nª Senhora da Represa, e a construção do Alqueva, nos nossos dias. Ou falar ainda os inúmeros poços ou tanques que, desde período romano permitiram captar a água e guardá-la para usos domésticos ou em termas e balneários, salientando aqui o exemplar de Tróia onde se conhece ainda o sistema elevatório da água.
Mas poderemos ainda referir as águas termais que, também já conhecidas de latinos, continuam a permitir que repousem em Castelo de Vide tantos visitantes e pacientes e cujos fontanários e fontes fazem ainda mais bela a terra que viu Garcia da Orta nascer.
Ou sentir o fervilhar do Pulo do Lobo, onde o rio estreita tanto que o abismo nos atrai, ou mergulhar na piscina fluvial das Minas de S. Domingos, onde já nadei, não tão longe assim do Pomarão dos minérios, em dias em que a calma do Verão nos invade em demasia!

A revolução industrial e as minas de S. Domingos reactivam a região, continuando o Guadiana, navegável a partir daí, a funcionar como porto agrícola e mineiro até à década de sessenta.

Mas podemos falar também dos próximos e riquíssimos barros de Beja, onde se escondem ricas herdades, quantas delas com origem nas uillae romanas, e que, com o dia a findar, quando o Sol torna a terra num infinito castanho-avermelhado, semeado de sonhos e de imagens, nos fazem continuar a crer que o Alentejo é a TERRA DA LUZ E DA COR!

Ou falar das linhas de oliveiras serpenteando a terra, e do azeite de excelência que, com o pão, como não há igual ao do Alentejo, e o vinho, constitui a triologia mediterrânica que percorre o tempo connosco. Esse mesmo azeite que já alimentou as lucernas romanas encontradas no grande depósito votivo de Sta Bárbara dos Padrões, de Castro Verde, onde, por isso, se constituiu o Museu da Lucerna que nos fala das divindades romanas associadas a esses simples objectos que o quotodiano e o tempo consagrou.
Em Moura, como em tantos outros lugares, podemos através do seu lagar de varas apreender como eram essas tecnologias já perdidas de transformar a azeitona nesse líquido essencial, um unguento divino, motivo porque a Hera, essa divindade feminina, tinha como um dos seus atributos um ramo de oliveira.

Lagar de Varas, Moura

E lembrar os doces conventuais que o alentejano Alfredo Saramago tão bem deu a conhecer nas suas obras sobre a Gastronomia do Alentejo. Esses doces que nos sussurram os segredos dos conventos, que, no caso particular de Évora e de Vila Viçosa, fruto das estadas e convivências com a corte, se foram gradualmente instalando, elegendo a cericá ou sericaia como um dos melhores que já comi, com ou sem a ameixa em calda que a Pousada de Elvas, a primeira de Portugal, nele introduziu.
Mas também em Portalegre, conhecida pela “cidade dos sete conventos”, ainda hoje se continuam a confeccionar os doces conventuais com as ricas receitas do convento de Santa Clara, a exemplo do toucinho-do-céu, o bolo Maria Luzia, o manjar branco ou os pastéis de Santa Clara.
Mas as Clarissas também em Alcácer fundaram convento e das suas actividades gastromónicas e da sua doçaria nos pode falar o rico espólio arqueológico encontrado no local, hoje exposto na «Cripta do Castelo».
Mas devemos deixar o gosto apurar com os bolos de mel, como em Monforte deliciosos há, também de sabor ancestral ou, para mal de qualquer dieta ou colestrol, deliciarmo-nos com as porcas recheadas com os seus bacorinhos e as trouxas de ovos do Luís da Rocha, Beja, ou ainda os que confeccionam as Maltesinhas.

Mas falemos também da lã das suas ovelhas, outrora tosquiadas em lento afã de tesoura, e dos tapetes e mantas que com elas se teceram: os de Arraiolos, cujas tinas de tinturaria provenientes de escavações relativamente recentes em pleno Centro Histórico vieram comprovar fabrico já em Época medieval; ou as mantas de Mértola que, com os seus pontos e as suas tramas, foram contando histórias seculares; e os pontos de Portalegre, heroicizados por muitos dos grandes criadores portugueses que para eles prepararam desenhos e que as transformaram em valor internacional.

E desse borrego que para além de fornecer a lã quase substituiu, no período islâmico, a importância do porco alimentado a bolota que pasmou os Romanos. Mas a coexistência do borrego e do porco proibido a Muçulmanos, mas do agrado de Romanos e Cristãos, acabou por manter-se, constituindo a dieta básica no Alentejo, motivo pelo que a morte do porco é consagrada ritualmente na “matança” com que se inicia o frio que conservará os alimentos. O borrego, esse, é comido junto às barragens e ribeiros na Pascoela, sagrando biblicamente o Tempo e o Lugar.
Recordamos ainda nesse soberbo cozido de grão, o milagre gastronómico do Alentejo, mesclando borrego e porco com cheiro e gosto a hortelã.

Da cortiça, industrialmente explorada desde o século XIX, que enrolha os melhores vinhos de Portugal e da Europa e que, na Serra do Cercal, permitiu também construir, na sua totalidade, casas de pequenos rurais e acentuar em Portalegre, com a instalação da Fábrica Robinson, a sua produção industrial. Mas com a cortiça sempre se manufacturaram os utensílios fundamentais, a exemplo do tarro que agricultores e pastores utilizavam para guardar e transportar alimentos, pois as características térmicas do suporte permitiam-nos conservar, durante algum tempo, a uma temperatura próxima da da confecção. A singeleza do tarro e do cocharro para beber água fresca podem sintetizar a capacidade dos Alentejanos de manipular os seus recursos de forma singela, mas extraordinariamente inteligente.
O seu mel, manjar dos deuses, e que, ainda nos nossos dias, constitui produto de excelência em feiras nacionais e internacionais, pois as abelhas colhem dos campos em flor o néctar essencial.
Mas podemos ainda relembrar o papel que desempenham, ontem e hoje, os seus minerais e as suas rochas; granitos, xistos, calcários e os célebres mármores de Borba, Estremoz, Bencatel e Vila Viçosa, onde há testemunho de exploração de pedreiras desde o período romano.

pedreiras de Estremoz

Cortada a pedra, rasgada a terra, dela se construia e se embelezavam casas com estatuária branca e brilhante e cidades inteiras, como o imperador Augusto tão bem soube chamar a si, deixando uma cidade de mármore em vez de pedra. Senhora do Carmo, Azaruja

O granito, as rochas calcárias e os xistos são as pedras que o Alentejo mais oferece. O granito, disseminado por todo o Alentejo interior, domina em Gafete, Vidigueira e Pias, salientando-se também nos afloramentos da região de Évora e Portalegre. Por ser considerado nobre, é atributo das casas solarengas alentejanas.

O brilho e as tonalidades que o xisto consegue adquirir, bem como a beleza da sua textura salienta-se ainda mais quando aplicado em paredes de alvenaria sem reboco, contrastando com as paredes alvas caiadas, a exemplo do que acontece na bela Monsaraz.
Mas também esse xisto de estrutura lamelar se aplica em pavimentos ou seus preparados, desde o período romano, como se pode verificar em Miróbriga, Santiago do Cacém, ou nos fabulosos desenhos espinhados de feição islâmica de que Monsaraz é outrossim testemunho.

Os seus metais, conhecidos e explorados desde a Idade do Metais, como bem o refere o texto do geógrafo de origem grega Estrabão, cuja exploração mereceu, em Aljustrel, no período romano, regulamentação específica, e que, tendo mantido em S. Domingos, em Mértola, na Caveira e no Lousal, Grândola, grande parte da população, continuam ainda hoje a fixar as gentes de Castro Verde e de outros lugares. No Lousal, Grândola, hoje adaptado a grande “Centro Mineiro”, pode ver-se como é possível transformar um equipamento desactivado num bom projecto formativo e cultural.
Ainda no Lousal monumentos funerários pré-históricos, como antas e cistas, apelam a imaginar que ali houve povoados onde certamente se manipulou os metais.

E do património religioso do Alentejo, cruzando o tempo com matizes das épocas e dos lugares, num sincretismo particular, como, apenas a título de exemplo, podemos citar a cristianização das antas de S. Brissos ou de Pavia ou a «romanização» do santuário do Endovélico.

Talvez escolhesse a Anta de S. Brissos como uma das “obras-primas” do Alentejo, pela sua simplicidade, pela escala e pelo que representa dessa forma de ser crente no Alentejo. Datável do IV/III, foi transformada em capela no século XVII, pelo que é também conhecida por Anta-Capela de Nª Senhora do Livramento.
Nas suas proximidades, ao fim do dia, vê-se, como se de nevoeiro se tratasse, os restos de fumo dos fornos de carvão vegetal, pertencentes aos habitantes de Santiago do Escoural, núcleo esse cuja Igreja e largo adjacente vale a pena conhecer.
Mas, como atrás diziamos, lembremos também o santuário de Endovélico em Terena, Alandroal, onde Endovélico se tornou divindade romana, tendo-se-lhe edificado notável santuário em ponto altaneiro; ou o templo romano de Santana do Campo, Arraiolos; a mesquita cristianizada de Mértola, e ainda, de uma forma peculiar, o Santuário da Senhora d’Aires em Viana do Alentejo.

Em Mértola, nos Festivais Islâmicos anuais, relembra-se ainda a cor de trajes e dos alimentos, percorrendo-se as vielas medievais ao som de uma música dolente que nos é tão familiar.

Ou podemos falar das singelas ermidas espalhadas por todo o território, tantas delas de linguagem mudejar.

Ou de igrejas acasteladas que viram praticamente a nacionalidade nascer, não podendo deixar de referir a notável Igreja da Boa Nova, Terena. Mas ainda das grandiosas Sés de Évora ou de Elvas e de inúmeros conventos de que destaco apenas o da Saudação em Montermor-o-Novo e o de S. Paulo, localizado na Serra d’Ossa, onde em locais ermos se praticava o despojamento total.

Ou falar das suas torres acasteladas, como a Torre d’Águias ou do Esporão; dos seus castelos e fortificações, pré-históricas e históricas, com particular incidência nas de origem medieval, quer seja islâmica, como o notável exemplo de Alcácer do Sal, tampão estratégico do Sado, onde no interior do castelo se espelha uma história milenar, quer cristã.

 

 

 

 

Fotografia de Alcácer do Sal gentilmente cedida por Esmeralda Gomes

Mas recordemos também o altaneiro castelo de Belver, Gavião, sobre o Tejo, o primeiro construído pela ordem dos Hospitalários, iniciado com o dealbar da nacionalidade, em 1194.
E passeemo-nos junto ao rio, escultura de mãos dadas com a paisagem no caminho da Fonte velha, para o poder apreciar de longe, da margem de cá.
Mas podemos ainda imaginar o que se terá passado em Évoramonte, onde um castelo medieval viu assistir, no seu interior, à construção da grandiosa torre/paço ducal manuelina, abraçando com cordames de pedra e laços toda a edificação.
Mas podemos ainda lembrar o Castelo de Avis cuja edificação se deve à antiga Ordem Militar de S. Bento de Aviz.

Torre do Esporão, Reguengos de Monsaraz

Mas ainda é possível reconhecer no Alentejo os bens de outras ordens religiosas, como é o caso dos Espatários, que dominaram praticamente todo o litoral, de Palmela a Odemira, vale de Santiago adentro, e a zona Meridional, até Mértola. As suas igrejas ou os seus marcos territoriais, simbolizados com a espada da Ordem e a vieira do caminhante de Santiago, são ainda os centros religiosos de muitas pequenas povoações desse extenso território.
Ou também a marca do Hospital que, na Flor da Rosa, Crato, deixaram um dos mais notáveis mosteiros, mandado erguer pelo pai do Contestável, D. Nuno Álvares Pereira. Esse mesmo contestável que em Fronteira soube renegar Castela, não deixando que, no campo de Atoleiros ou de Santa Vitória do Ameixial, se “atolasse” Portugal e que, em Sousel, soube também originar povoação.

Imagem do Campo de Atoleiros a partir de: http://www.sal.pt/m_agenda_passeios/pp_vitoria_dos_atoleiros.shtml

 

Flor da Rosa, Crato

As fortificações do Alentejo remetem-nos também para as convulsões de todas as épocas da História de Portugal: as da Reconquista Cristã e das infindáveis escaramuças entre Portugueses e Espanhóis, de que os exemplares de Campo Maior ou de Elvas, onde estão presentes várias cronologias, são de salientar.

No Pessegueiro, Sines, os fortes de Massai relembram a necessidade de continuar a proteger na Época Moderna uma costa onde, desde sempre, houve incursões de corsários.

Ou aquelas onde se desenvolveram intra-muros ou fora de portas aglomerados urbanos que o tempo ajudou a consolidar e a expandir, como são, e apenas a título de exemplo, pois poderíamos citar centenas, Alcácer do Sal, Sines, Santiago, Montemor, Arraiolos, Monsaraz, Estremoz, Évoramonte, Marvão, Portalegre, Beja, Elvas, Serpa, Moura.

Mas podemos ainda ver o cenário construído no Castelo do Crato, local onírico recriado ao sabor de quem o concebeu, mas que faz, não obstante, daquele sítio um lugar especial.

Ruínas da Ammaia, Marvão

Castelo de Mértola

O Alentejo tem a qualidade dos seus montes, das suas quintas de recreio que Santiago do Cacém mantém tão belos exemplares; dos seus núcleos urbanos, sobranceiros ou de planura, de que a capital, Évora, a Liberalitas Iulia, fundada oficialmente por Romanos, onde um espelho de água contornando o templo imperial faz juz à Salus Imperal, a partir da qual se desenha uma cidade ortogonal, mas que tendo possível origem anterior, foi classificada como Património Mundial, e é segundo Orlando Ribeiro «a cidade mais bela de Portugal», abraçada que fora por muralhas romanas que D. Fernando parcialmente reaproveitou na sua “cerca” medieval e expandida, mais tarde, pelo aqueduto do Braço de Prata, e continua a ser de excelência, podendo ainda vir a ter mais, através da construção de um Amanhã que, retirando exemplo do Património de ontem, permita construir o património do Futuro.

Campo Maior

Castelo de Évoramonte, Estremoz

Ou de Beja, a Pax Julia romana onde, séculos adiante, construiu edificação D. Beatriz, e onde, mais tarde, viveu , sofreu e escreveu as suas «Cartas Portuguesas» Mariana Alcoforado, no convento tornado Museu conhecido por Rainha D. Leonor.

Da história da ocupação da cidade nos fala, para além de todos os outros locais que em Beja nos permitem rememorar a sua evolução, o Núcleo Paleocristão e o Museológico da Rua de Sembrano, recentemente inaugurado no centro histórico da cidade.

O Alentejo é tudo isso. E as cilarcas assadas ao fim do dia de Pascoela, junto à barragem do Divor, de Odivelas, Monte Novo, ou outra qualquer, ouvindo cantar a «Senhora Cegonha» a quem já as vozes aqueceu.

Castelo de Santiago do Cacém

E principalmente o sincretismo o religioso pagão e cristão, que nem a Inquisição sediada em Évora conseguiu combater, e o cante com que entoam as gentes, chorando e bailando com a luz que banha a planura … semeando o ALENTO.

Templo romano de Évora

Hoje choraria, se choraria, ao ouvi-los cantar.

Agradeço ao Joaquim Carvalho as duas fotografias de Ammaia. Fotografia (pequena) Évoramonte: Wikipédia

Cantadeiras da Alma Alentejana

Fotografia cericá: http://coisasimplesepequenas.blogspot.com

Vídeo: Rádio Alma Lusa

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