Publicado por: Filomena Barata | Março 31, 2011

No Feminino Negócios | Entrevistas | De Miróbriga aos “Itinerários”

Apenas como uma espécie de apresentação, passamos a transcrever a entrevista a Maria Filomena Barata na Revista «No Feminino – Negócios».

No Feminino Negócios | Entrevistas | De Miróbriga aos “Itinerários”.

Filomena Barata, historiadora e arqueóloga

De Miróbriga aos “Itinerários”

Historiadora de formação e muito sucesso, Filomena Barata tem dedicado a sua vida à Arqueologia, mas também ao Património e ao Urbanismo, às Mulheres e à Poesia. Em entrevista ao No Feminino Negócios, Filomena Barata fala sobre a “sua” Miróbriga e outros sítios arqueológicos, recusa o título de “a Indiana Jones de saias” e revela alguns dos seus muitos projectos na área. E revela ainda um lado mais intimista, retratado nas páginas do seu blogue, “Mulheres ao Luar”.
No Feminino Negócios – É formada em História e todo o seu percurso profissional tem estado ligado à Arqueologia e à História das Artes. Como surgiu o interesse por esta área?

Filomena Barata – Aquilo que seria a vocação que de mim desejariam era mais ligada ao Direito. Mas, porque sempre gostei de História e porque no ano em que entrei [para a universidade] houve um conjunto de pessoas de quem eu era próxima que se inscreveu em História, acabei por transitar a minha escolha do Direito para a História. Ainda cheguei a inscrever-me em Direito, mas no mesmo momento achei que devia cumprir aquilo que queria fazer, que era ir para História. Sempre foi uma área que gostei e optei por segui-la.

Em Portugal, a Arqueologia tem sido reconhecida e praticada como disciplina desde há dois séculos, sensivelmente. Desde sempre e ainda hoje esta é, sem dúvida, uma área de homens…

Cada vez menos…

Cada vez menos, mas ainda o é. Como é ser “a Indiana Jones de saias”?

Eu não me sinto uma “Indiana Jones”, porque esse é o lado sensacionalista da Arqueologia, que acaba até por ser pesado para a disciplina. Porque a ideia de que tem de se fazer sempre uma grande descoberta ou de se descobrir algo muito insólito perverte um bocadinho o sentido da própria disciplina.

Não me sinto uma “Indiana Jones”, porque esse é o lado sensacionalista da Arqueologia, que acaba até por ser pesado para a disciplina
É verdade que, muitas vezes, os arqueólogos, porque vivem nesta sociedade consumista e de acontecimentos, se fazem valer dessa coisa do único, do extraordinário – até os mais sensatos! Porque é uma forma de captar a atenção para a própria disciplina. Mas a maioria [dos arqueólogos] tem consciência que não se anda à procura do tesouro escondido.

A Arqueologia é uma forma de fazer História, um método para fazer História. Claro que, pontualmente, ninguém leva a mal que os arqueólogos usem os mesmos truques que a sociedade do marketing…

Mas e a questão de ser uma mulher num mundo de homens…

Eu sempre me senti uma mulher num mundo de homens. Sempre tive muitas amigas, sempre lidei bem com as mulheres, mas, se pensar naquilo que foi o meu percurso, é verdade que fui muito marcada pelos homens. E homens que me fizeram crescer imenso. Emocionalmente, tenho relações fortíssimas com mulheres, mas desde miúda que me habituei a lidar com homens, como fonte de informação. E é verdade que se calhar, a esse nível, os homens foram mais marcantes para a minha vida que as mulheres.

Mas já sentiu, a nível profissional, algum tipo de discriminação?

Claro! Eu fui Directora Regional do Alentejo [responsável pela Direcção Regional de Évora do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR)] e tinha reuniões em que era a única mulher.

Sempre me senti uma mulher num mundo de homens
Posso até dar um exemplo, por graça… Lembro-me da sensação de, num encontro a propósito [da construção da barragem] do Alqueva, ter visto chegar a segunda mulher. Eu pensei logo: “Ah, bom!”. E depois acabou até por chegar uma terceira mulher. Lembro-me dessa sensação porque no momento em que eu cheguei eram só fatos cinzentos e azuis.

E qual é o “truque” para sobreviver nessas situações?

É ser espontânea… É ser mulher!

Miróbriga, em Santiago do Cacém, é um dos locais arqueológicos mais marcantes e emblemáticos em Portugal, classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1940.

Para mim é [o lugar mais marcante], de facto, mas não queria cair nesses excessos, nos tais casos únicos… Conímbriga também o é, por exemplo.

Mas muitos – senão a maioria – dos projectos nos quais tem estado envolvida passam pelas Ruínas de Miróbriga. Aliás, pode mesmo dizer-se que Miróbriga muito se deve ao seu trabalho e dedicação. Este é, indiscutivelmente, o seu “cantinho especial”…

Miróbriga é um sítio muito, muito interessante, de facto. A sul, Miróbriga e Tróia têm concentradas um bocadinho da historiografia da arqueologia portuguesa – desde os Humanistas até ao século XVIII, dos Iluministas aos Românticos, todo o século XX. Foram dois sítios atravessados por pessoas marcantes. [O arqueólogo português] Leite de Vasconcelos, fundador do Museu de Arqueologia, chegou a ir a Miróbriga – não fez escavações, mas foi lá.

Miróbriga é um sítio que apaixonou muito várias pessoas que por lá passaram e por lá ficaram anos.
Miróbriga é marcada por muitos que lá passaram. Não é que eu própria não reconheça o meu trabalho, mas Miróbriga é um sítio que apaixonou muito várias pessoas que por lá passaram e por lá ficaram anos. É um sítio de dedicações. E é uma paixão, uma paixão de anos. Por lá passaram nomes como Cruz e Silva, um advogado e homem nascido em Santiago do Cacém, o D. Fernando de Almeida, que, embora fosse médico de formação, trabalhou, anos sucessivos, vários locais da arqueologia portuguesa. Depois também lá esteve uma equipa luso-americana uma série de anos… Enfim, Miróbriga é talvez um sítio mágico que apaixona as pessoas – que raramente têm incursões de poucos anos naquele local.

Eu até vou contar isto a brincar… Há um senhor, o Paulo Pereira – ele é historiador de artes e, para mim, é um dos homens mais brilhantes a nível da História das Artes, pela complexidade da abordagem que tem –, que a brincar me chamava Filóbriga.

Na verdade, e porque é feia a falsa modéstia, houve alguns aspectos [do meu trabalho] que mudaram a projecção do sítio. Foi só isso. Porque a ideia de se fazer um centro de apoio ao crescimento, ao desenvolvimento e à interpretação [o Centro Interpretativo das Ruínas de Miróbriga] já vinha antes de mim. Eu sou a mentora do projecto “Itinerários Arqueológicos do Alentejo e do Algarve”, que resultou num consórcio entre as secretarias de Estado do Turismo e da Cultura, cujo acordo se assinou em Miróbriga, em 1989. O objectivo desta ideia era exactamente dar origem a um conjunto de itinerâncias possíveis [dos vários sítios arqueológicos] no Alentejo e no Algarve – e Miróbriga foi, sem dúvida, o sítio “premiado”, não só por ter sido o local da assinatura do protocolo, mas também porque, de algum modo, era a infra-estrutura maior neste conjunto dos itinerários.

Eu sou a mentora do projecto “Itinerários Arqueológicos do Alentejo e do Algarve”.
Mas lá está, esta ideia não foi totalmente nova, porque já tinha havido tentativas anteriores de criar itinerários, de caminhos, com os sítios arqueológicos. Mas pôr isto de pé, é um facto, foi graças ao meu trabalho. Mas não o fiz sozinha, tive a parceria do Turismo e encontrei um homem extraordinário, chamado Alberto Marques, que não só aderiu, como me ajudou a construir a ideia e a fazer com que o Turismo aderisse.

E ainda hoje se mantêm os “Itinerários Arqueológicos do Alentejo e do Algarve”?

Sim. E porque é que se mantêm…? Porque este projecto originou, com o conjunto notável para a época de onze sítios arqueológicos, infra-estruturas de apoio (centros interpretativos, núcleos de apoio). Ou seja, o figurino não foi estanque, mudou e adaptou-se às características dos locais: as possibilidades de intervenção foram diferentes, de acordo com a propriedade (se era pública, se eram acordos com empresas privadas). Mas houve acções comuns a todos esses sítios. A ideia era, no fundo, criar infra-estruturas de apoio à interpretação, à investigação e, felizmente, hoje estão todos a funcionar.

A propósito de itinerários, traçar um longo itinerário que ligue Miróbriga e Estrasburgo, na Alsácia, é um dos projectos que, neste momento, tem em mente. Que projecto é este?

O projecto ainda está relativamente incipiente… Como é um caminho longo, até ao limite do que seria o Império Romano, implica a adesão de entidades dos vários países, porque estamos a atravessar Portugal, Espanha, até chegar a França. E, portanto, precisamos que as entidades, pelo menos nos grandes pontos de apoio (Barcelona e Estrasburgo), ajudem a colectar, mais que não seja, a informação toda que existe sobre a rede viária do ocidente da Lusitânia até ao limite da fronteira romana.

Em alguns casos, as vias até já nem estão visíveis, por isso, a ideia é criar pontos de apoio nas vias que ainda existem. E, sobretudo, criar uma base de informação deste longo caminho, reunir toda a informação para depois fazer uma exposição itinerante.

E em que ponto de situação está o projecto?

O projecto já avançou um bocadinho, depois recuou e agora estou à espera que um colega catalão me dê uma resposta definitiva. E mesma da parte da Alsácia espero um reforço, porque a ideia para eles é válida.

De qualquer modo, se não fixarmos bem as ideias, muitas vezes nós próprios deixamo-las cair…

É membro da Liga dos Amigos de Miróbriga, organização constituída em 2007 para promover aquele sítio arqueológico e torná-lo num dos monumentos mais visitados do Litoral Alentejo. Têm tido apoios para conseguirem cumprir com esses objectivos?

Sim, sim. E, se houve um período um bocadinho mais vacilante, ao Estado português se o deve – e eu sou, com muito orgulho, funcionário do Estado português! Não o digo com desprezo, mas é verdade que, às vezes, as alterações de dirigentes ou mesmo as alterações orgânicas criam períodos de letargia… E houve aqui um período um bocadinho letárgico, mas finalmente conseguiu-se criar um acordo de colaboração entre a Liga e a Direcção Regional da Cultura do Alentejo. E esse facto veio ajudar-nos muito, porque a Liga não podia, por exemplo, promover grandes eventos no próprio local se não fosse este acordo. Mas temos também apoios locais, da própria Caixa Agrícola (um dos corpos gerentes da Liga), dos bombeiros, da Câmara [Municipal de Santiago do Cacém], houve uma fase em que a Galp também apoiava…

Um dos principais objectivos da Liga é promover uma dinâmica cultural de Miróbriga.
Um dos principais objectivos da Liga é promover uma dinâmica cultural de Miróbriga – porque também não se pode pedir ao Estado que seja o agente e o inventor de todas as iniciativas, porque é impossível. E, no fundo, talvez não seja isso que é pretendido socialmente, porque estes sítios também pertencem às comunidades e é importante que estas partilhem do que vai acontecendo nos locais. E é por isto que é importante a existência de ligas ou associações de apoio, regionais ou locais, para fomentar os eventos culturais.

Uma das ideias da Liga é precisamente fomentar eventos culturais, de vária índole. E já se fizeram diversos congressos e encontros musicais, por exemplo. Às vezes com recursos locais e com as quotas dos sócios, porque estas iniciativas, do ponto de vista financeiro, acabam sempre por bater no mesmo problema: não há fundos. Por isso, tentamos sempre que os eventos não tenham custos extraordinários, porque a Liga também não tem fundos senão o pagamento das quotas.

Tenho estado a organizar pequenos passeios para que as pessoas possam partilhar o conhecimento sobre os vários sítios arqueológicos.
Além desta dinâmica cultural, a Liga quer também acolher projectos que tenham que ver com a investigação do sítio. Por exemplo, e porque desde o início se falava nisso e tem que ir em crescendo para ver se funciona, tenho eu estado a organizar pequenos passeios a outros sítios arqueológicos. O que não quer dizer que não se venham a tornar, por exemplo, visitas de estudo de maior distância… Mas até agora são pequenos passeios para que as pessoas possam partilhar o conhecimento sobre os vários sítios arqueológicos.

Em que locais já foram feitos esses passeios?

O primeiro passeio foi às ruínas de Tróia e o segundo passeio foi a Miróbriga, naturalmente. Mas a ideia não é ficar só por Miróbriga. Nesta fase e para dar coerência aos nossos discursos – a minha colaboração no Setúbal na Rede, durante este ano, rondou muito a bacia do Sado –, os passeios que estou a organizar agora guiam-se um bocadinho por essa lógica e serão à volta do Sado. Ou seja, o Sado em Tróia, o Sado em Alcácer [do Sal] e, apesar de não estar ao lado do Sado, Miróbriga.

Então o próximo passeio será a Alcácer do Sal?

Sim, já estou mentalmente a organizar o terceiro passeio a Alcácer do Sal.

Eu queria fazer um passeio por mês, porque é mais ou menos o ritmo a que são publicadas as minhas crónicas no Setúbal na Rede.

Como é que as pessoas podem ter conhecimento desses passeios?

Os passeios têm sido divulgados quer no Facebook, através das páginas e grupos “Liga dos Amigos de Miróbriga”, “Alentejanos no Facebook” e “Portugal Romano”, quer nos blogues “Miróbriga” e “Liga dos Amigos de Miróbriga”.

Além da Arqueologia, tem também dedicado algum tempo à escrita, nomeadamente com o blogue “Mulheres ao Luar”, que homenageia as mulheres e a poesia..

Eu sempre tive o cuidado de ter um reduto pessoal em tudo o que fiz. Talvez porque me entrego tanto às coisas que faço, tenho necessidade de ter sempre um reduto meu. E, curiosamente, o “Mulheres ao Luar” surgiu quando eu era Directora Regional em Évora. Não me perguntem como é que eu arranjava tempo…

Porque me entrego tanto às coisas que faço, tenho necessidade de ter sempre um reduto meu.
O blogue surgiu por vontade própria e porque tenho uma grande amiga, a Cristina Duarte, que tem um blogue, que se chama “A Cidade das Mulheres”. E foi vendo o blogue dela que eu aprendi como isto se fazia. Nessa altura, eu estava em Évora e, por graça e trocadilho da minha parte, como ela tinha o “A Cidade das Mulheres”, eu fiquei com o “Mulheres ao Luar”. Aproveito, já agora, para que fique registado que a Cristina é uma mulher extraordinária e uma pessoa muito importante para mim, não só pela questão do blogue, mas pelo seu humor, inteligência, graça e atitude.

Quando iniciei o blogue, a Arqueologia estava latente. Os arqueólogos usam uma coisa que se chama “caderno de campo”, onde escrevem anotações sobre o sítio e as técnicas científicas, mas também pequenos apontamentos pessoais, sobre coisas que viram, momentos que passaram, por exemplo. Portanto, o “Mulheres ao Luar” surgiu um pouco como uma espécie de caderninho de campo, mas não tão preso tecnicamente à Arqueologia. Depois, quando saí da Direcção Regional de Évora, achei que devia fazer um balanço de todo o meu trabalho e acabei por dividir as águas e fazer outro blogue, o “Miróbriga”, de carácter mais profissional. O “Mulheres ao Luar” ficou mais dedicado à poesia e à música.

Ser mãe é, de facto, ser empreendedora.
Mas o meu maior empreendedorismo no meio disto tudo é ter uma filha! Fui mãe da Mariana aos 42 anos, quando fui nomeada para a Direcção Regional de Évora. Foi uma situação que sempre exigiu uma força hercúlea – e das duas, porque também são os filhos que fazem as mães. E ser mãe é, de facto, ser empreendedora.

FILOMENA BARATA

Nasceu em Luanda. Aos 23 anos, licenciou-se em História, pela Faculdade de Letras de Lisboa e, sete anos mais tarde, concluiu o mestrado em Arqueologia, na Faculdade de Letras do Porto. Actualmente, é doutoranda na Universidade de Évora e dedica grande parte da sua vida à Arqueologia.

No seu currículo conta também com uma vasta experiência profissional nas áreas da História, do Património e do Urbanismo.

Entre 1999 e 2001, Filomena Barata assumiu as funções de chefe de Divisão de Salvaguarda da Direcção Regional de Évora do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR). Em 2001, tornou-se Directora Regional de Évora do IPPAR, cargo que desempenhou até 2007, ano em que assumiu a Direcção de Serviços dos Bens Culturais na Direcção Regional de Cultura de Évora (em regime de substituição). Foi também assessora da Direcção do IGESPAR – Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico do Ministério da Cultura (2008) e assessora da Direcção do IMC – Instituto dos Museus e da Conservação (2010).

Entre 1996 e 2006, fez parte do Conselho Editorial do Consórcio da Cidade Histórico-Artística e Arqueológica de Mérida e, desde o 1990, é responsável pelas Ruínas de Miróbriga e pelo respectivo programa de valorização.

Filomena Barata organizou e participou em diversas reuniões científicas e foi ainda a correspondente portuguesa em Madrid da Revista de Arqueologia. Hoje, é co-responsável do programa “Itinerários Arqueológicos do Alentejo e do Algarve”.

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