Publicado por: Filomena Barata | Março 25, 2011

Ficções do Interlúdio, Fernando Pessoa

Publicado por Filomena Barata

Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E de súbito isto me bate
De encontro ao devaneando –
o que é ser-rio e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Sinto-me de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco –
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo – eu e o mundo em redor –
Fica mais que exterior.

Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar que se some.
Fico sem poder ligar
Ser, ideia, alma de nome
A mim, à terra e aos céus …

E súbito encontro Deus.

Fernando Pessoa, Ficções de Interlúdio

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