Publicado por: Filomena Barata | Março 22, 2011

Filomena Barata, Esta Lisboa do Tejo, esse rio que também é o meu

À memória de minha mãe que me ensinou a amar Lisboa.

Lisboa vista a partir de Almada.

O Padrão dos Descobrimentos, Fotografia Filomena Barata

Voltarei sempre para vos falar da minha cidade das sete colinas, do Tejo, do fado, de Pessoa e de tantas coisas mais, porque …

a cidade que habito e que mora em mim
tem um rio, tem o mar e tem um porto,
onde, de longe, chegam “novas”
para o mundo partem com uma mão cheia delas
vazios, por vezes, ficam os corações
mas as palavras e as imagens
serão capazes de, pouco a pouco, rechear a minha cidade
pois ela canta baixinho um fado chorado,
nos dias em que a saudade espreita
a minha cidade não é feita de papelão,
mas de vozes, de risos, de choros
dos marinheiros a entrar e a sair que Amália cantou
de ruas e vielas onde habitam gentes
com as suas histórias
pela mão.fala-me de ti, de nós
sabes bem que poderei mergulhar
silenciar até, se preciso fôr,
mas nunca me esconderei de mim, nem da Luz destes lugares
não, nunca amordaçarão o rio
nem a custo de paredes ou paredões
ele correrá sempre o curso que tem que ser feito
até que o Atlântico o vá acolher.

e o tempo apenas passa no compasso desse abraçar
porque, sabes bem, este rio ninguém consegue parar.

nem o Adamastor o consegue amedrontar

porque a cidade que eu habito tem as colinas, a Luz, o Tejo e o Mar

Lisboa a partir de Almada

Venho trazer-vos um pouco da Lisboa dos poetas, dos maiores que tem Portugal.

E porque no Chiado vive uma estátua de Fernando Pessoa, mesmo ali junto a uma das mais belas pastelarias que a cidade tem, a Brasileira do Chiado, dele me recordei:

Tu, porém, Sol, cujo ouro me foi presa,
Tua, Lua, cuja prata converti,
Se já não podeis dar-me essa beleza
Que tantas vezes tive por querer.
Ao menos meu ser findo dividi –
Meu ser essencial se perca em si,
Só meu corpo sem mim fique alma e ser!

Fernando Pessoa




Mas, mais logo, voltarei, ao entardecer, a esse lindíssimo jardim de Santa Catarina de onde se vê o Tejo e a estátua do Adamastor que ali também “mora”, lembrando-nos que o medo também se pode vencer, pois só ultrapassado se podem ganhar novos mares.

Jardim de Sta. Catarina onde recordei Camões, o das Tágides e do Adamastor.

E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente,
Porque de vossas águas,
Febo ordene
Que não tenham inveja às de Hipocrene.

Ponte 25 de Abril (sobre o Tejo, Lisboa). Fotografia Filomena Barata

Luís de Camões in Os Lusíadas

Alfama, Lisboa. 2011. Fotografia Filomena Barata

Alfama, Lisboa. 2011. Fotografia Filomena Barata

Ponte Vasco da Gama. 2011. Fotografia Filomena Barata

Torre de Belém, fotografia (e restantes) de Filomena Barata

Torre de Belém.

Mas virei sempre falar-vos de Lisboa, essa cidade que tanto amou minha mãe, e que, em cada dia que começa, penso … será um novo dia sem outro igual!

Como este mesmo rio que me levará de Lisboa a Santarém, no ençalço dos fragmentos de uma história perdida, talvez somente escondida, mas que a todo o custo se quer preservar…receamos sempre rasgar, partir … arrancar, porque, no fundo, esperamos que cada muro, cada pedra ou peça ou (fragmento dela) tenha ainda uma história para desvendar .. e que não tenhamos sabido perscrutar o que de tão pouco restou dos lugares de tempos imemoriais.

Como se fossem fragmentos/testemunhos de nós (tão importantes afinal … porque se algo nos distingue dos outros animais é essa capacidade de deixar marcas intencionais no território e nos objectos que manipulamos) que não queremos destruir, porque a História ainda é o nosso único lugar de pacificação. O único que conseguimos narrar…

Logo mais voltarei ao Tejo que, como qualquer grande rio, constituiu, pelas excelentes condições naturais oferecidas pela região ribeirinha – clima ameno e solos férteis – um poderoso factor de fixação das comunidades humanas.

A rede hidrográfica e a fácil comunicação com o Oceano privilegiam a exploração e escoamento de produtos do estuário do Tejo, abundante em recursos naturais.

Os vestígios materiais da ocupação humana estão testemunhados, no estuário do Tejo, desde o Paleolítico Inferior.

A acumulação de riqueza e o aparecimento da metalurgia originou uma hierarquização do trabalho e da sociedade, que passa a construir povoados fortificados para sua melhor protecção.

O contacto com o rio torna-se fundamental ao domínio territorial.

Lisboa, antiga povoação castrense, vem a tornar-se, após a conquista romana, numa das mais importantes cidades da Lusitânia.

São estas as palavras de Estrabão, referindo-se à conquista de Décimo Júnio Bruto, no século II a.C.: “Nas margens do rio fortificou Olissipo, para ter mais livre o curso da navegação e o transporte de víveres (…).Na margem esquerda do estuário do Tejo a ocupação romana caracteriza-se, fundamentalmente, pelas actividades agrícola e piscatória, sendo de destacar os centros de produção de conservas de peixe e de vasilhame anfórico.

Voltarei vezes mais a Lisboa, essa urbs do Tejo, Felicitas Iulia Olisipo que ouviu falar romanidades, no seu Forum edificado em ponto alto e controlador, e no seu teatro, ou, quem sabe, no hipódromo que a Baixa pode esconder, nas suas fábricas de salga abraçando o esteio e o mar, mas que também foi a cidade do castelo árabe, da cerca nova de D. Fernando, da Sé, onde sob a actual edificação, vivem outros tempos – de Romanos, de Islâmicos e de homens medievos – , do Convento do Carmo, onde Nuno Álvares pontuou e que o Terramoto quase todo destruiu, mas onde teimosamente sobrevive um museu; do Terreiro do Paço que Pombal iluminou e de saberes antigos sagrou, do Cais das Colunas do Quinto Império …

Ou, quem sabe, retorne à Lisboa da Estrela, da Graça e dos bairros de Alfama, da Madragoa, da Mouraria, onde chora o fado em vielas e se enfeitam as ruas quando as festas puxam ao largo e à sardinha.

Esta Lisboa dos miradouros de S. Pedro de Alcântara, ou de tantos outros de onde se abraça a capital inteira.

Talvez vá à Lisboa do Largo go Carmo. Ao Convento onde recolheu o Condestável, D. Nuno Álvares Pereira e se fez marco de uma Nação. Após a Revolução de 1383/85 que deu a Portugal um novo rei, D. João I, e uma renovada dinastia, redefiniu-se toda a História de Portugal, pois com ela se abriram portas para o Mundo.
Este convento que muito sofreu com o Terramoto de 1755, é ainda, na zona que se conservou, a sede do Museu do Carmo e da Associação dos Arqueólogos Portugueses, local onde, na sua origem, pontuavam juntos Arquitectos e Arqueólogos.

Convento do Carmo, Lisboa. Fotografia Filomena Barata

Mas também esse Largo do Carmo assistiu a outro momento de consolidação nacional, a Revolução dos Cravos, em 1974, uma das mais belas que o Mundo viu e que deu a Portugal a esperança de ser mais igual, porque embora inibido da posse do Império que a dinastia de Avis havia inaugurado, permitiu a um país acabrunhado de décadas de ditatura fazer falar mais alto a democracia.

Largo e Convento do Carmo. Fotografia Filomena Barata

 Ou quem sabe visite a outra colina fronteira, o Bairro onde já morei quase vinte anos, Campo Mártires da Pátria, ou, como hoje soi chamarem-lhe, «Campo Santana».


Aqui Portugal assitiu a tanta coisa: às lutas fraticidas do século XIX e ao martírio de liberais que deu origem à denominação «Mártires da Pátria»; dos Paços da Rainha, onde vivera D. Catarina de Bragança, depois de viúva, no seu «Palácio Centeno», conta-se ter sido posteriormente “coito” de Carlota Joaquina, mãe protectora do Portugal miguelista; acolheram-se conventos medievais, escondidos numa Lisboa menos exposta e centralizada.

Palácio Centeno.

O Patriarcado ainda se esconde, altivo, da rua, mas, do lado de fora, não passa despercebido o poder espelhado no imóvel.

O Göethe Institut, onde a Alemanha fala de programas culturais.

A Galeria Momumental onde encontrava amigos meus e ……..

o Santo, Sousa Martins, onde até eu já rezei, pedindo que aos meus devolvesse a saúde perdida.

E o belo jardim, novecentista, que substituiu a praça de touros que aí existiu, com gradeamentos de ferro fundido que permitem marcar os desníveis entre o mesmo e as ruas que acedem à praça.

Do Jardim do Torel, altaneiro, espreita-se a Baixa, o Carmo, o rio e o mar.

E no imóvel hoje propriedade da Junta de Galicia há de tudo … e até se aprende a dançar como em Sevilha.

O Hospital dos Capuchos, abraçando o que foi o Palácio Melo, tem de frente uma pequena praça com um espelho de água. Por trás, sobe a rua que foi minha e onde a minha filha viveu os seus primeiros meses de bébé.

O Hospital dos Capuchos

Da vista sobre o Tejo e sobre o castelo que tive a sorte de poder ver diariamente e jamais me esquecerei.

A rua que foi a minha 20 anos

Um dia voltarei a este mundo, retomando uma velha ideia que malogradamente se esboroou: fazer o retrato desse bairro que foi meu e onde viveu os primeiros meses a filha que tive a sorte de parir. Dedicar-lhe 24h inteiras, a partir de um pequeno café – o Pátria – que estava aberto todo o dia e onde, de noite, paravam taxistas e “meninas da rua” e, de madrugada, as avós iam ao pão.

Regressar-lhe-ei, limpando as nostalgias de um bairro que habitei.

Jardim do Campo Santana vendo-se o Patriarcado

Porque para mim, em Lisboa, um outro ciclo está a começar, após ter conhecido no Alentejo uma outra povoação de seu nome  Santana do Campo, onde uma igreja deu lugar a um templo romano e onde, nas ruas brancas, se respira um ar fresco e silencioso.

Mas ainda farei o caminho que outrora fazia palmilhando, em direcção a essa Rua Almirante Reis, onde o mundo todo se conjuga, aliando uma Lisboa de Mães-de-Àgua e de prédios modernistas, por entre as Fábricas de azulejos soberbos da Viúva Lemego e lojas que, nos nossos dias, vendem desde mobiliário nacional aos bens cheirando a Índia ou à china.

Em tempos idos, em caves obscurecidas, trabalhavam cersideiras, apanhando as malhas que Clio se havia encarregado de romper.

A Lisboa moderna da Almirante Reis

Ou talvez regresse ainda à Lisboa da Praça do Império e de Belém, da altaneira capela de S. Jerónimo que viu partir marinheiros, rumo ao local onde mais tarde se edificou a torre abraçada por cordames que lembram as embarcações e o mundo com elas cruzado ou onde pontua um padrão que o recordou à Nação quando a Exposição do Mundo Português ali tomou lugar

Museu de Arte Popular, Belém

.

Regressarei ao Mosteiro dos Jerónimos, cuja grandeza, parte da qual recriada já no século XIX, lembra esse tempo da cidade das mil cores, dos mil cheiros e gentes de todos os lugares pois com as Descobertas se desvendou tanto que o Mundo agora menos distante tinha.

Ou às casas que outrora foram ribeirinhas, mas que se afastaram do Tejo quando o Homem ganhou terra ao seu leito.

Pensarei nos pastéis de nata que um dia o meu avô ofereceu em excesso à minha irmã para ver se definitivamente a enjoava, pois não os podia ver que não os quisesse logo provar.

Mas, ao fim do dia, vou hoje esquecer que houve crimes do Marquês contra os Távoras e Chãos que foram salgados, mesmo ali em Belém; e não quero saber do Centro Cultural nem das suas programações. Nem lembrar que se fecham mais tarde as portas do Museu de Arqueologia, dos Coches no Dia dos Museus ou que ali ao lado está o Jardim Tropical.

Não quero pensar que a guarda está a render no Palácio de Belém, ou que já se acenderam as luzes do Museu da Electicidade … ou que, lá do alto, nos observa altaneiro o Palácio da Ajuda que foi casa real.

E também vou esquecer a torre e o padrão, mesmo que comigo tenha vindo tão bela a sua luz.

Torre de Belém

Padrão dos Descobrimentos. Belém.

Central Tejo, hoje Museu da Electricidade.

Porque Lisboa é a cidade da Luz e sei que, de noite ou de dia, a encontrarei.

Quero somente pensar no rio desta cidade e no fado hoje mais Mundial do que nunca, mas que sempre Lisboa e deixar poisar o dia junto ao Tejo, até que se anule o ruído de fundo, os meses sem dormir … e a gente na rua se vá retirar.

Quem sabe irei ver fontes e fontanários, praças e outros jardins, o do Ultramar ou o Botânico, levada pela mão alguém que deles sabe falar.

Jardim botânico

Ou vá ver rio de um outro local, o que a Expo renovou, semeando de verde e jardins de todos os lugares, bem como do Conhecimento e dos mares e de Portugal, como pontos de fuga onde podemos sentir distante a brisa do mar.

Pavilhão do Conhecimento. Expo 98.

Pavilhão de Portugal. Expo 98.

Ali, num desses cantos, D. Catarina de Bragança olha o grande que Portugal ao Mundo deu.

D. Catarina de Bragança. Expo 98.


E, depois, regressar a casa, onde está o mundo inteiro à minha espera.

(E amanhã outro dia começará!).


Voltarei, sei que sim, logo mais.

Há muitos anos atrás colaborei numa exposição que se chamava «Arqueologia no Vale do Tejo».
Quem me dera hoje fazer de novo uma viagem renovada, totalmente recriada a esse vale mistérico que é o do Tejo …

(A partir de http://mulheresaoluarblogspot.com)


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