Publicado por: Filomena Barata | Março 19, 2011

Inês Ferreira, A noite do pânico

Luanda, Fotografia de Filomena Barata, 2020

Ines Ferreira
A noite do pânico

Esta história poderia ter acontecido em qualquer canto de Luanda, mas aconteceu num lugar onde as ruas não têm asfalto, onde o lixo rebola por elas ao sabor do vento, onde o calor aperta lembrando o deserto e onde a energia eléctrica escasseia frequentemente. Luanda Sul! Ás duas horas da manhã, mais minuto menos tiro, acordámos sobressaltados com os gritos do guarda do vizinho: “Quieto”! “Manuuel”, “Manueeeeeel”!! “Manuuuuuel!!”
A comandante da casa, que por acaso, é minha mãe, dispara da cama apressadamente despertando o nosso adormecido guarda com gritos de militar com patente! O guarda ainda riposta um: “Não é assim que se acorda um gajo, pah!”.Minutos depois, já todos na rua, de calções e t-shirt, vizinhos, habitantes da casa, eu inclusive, ouvimos de olhos arregalados o relato do guarda. Informa-nos rápidamente, de que um ladrão havia saltado um muro com mais de 3 metros, que circunda a casa, ainda tinha tentado atirar, mas a arma tinha encravado, e não tinha conseguido detê-lo.Incrédulos com a agilidade do ladrão, cada um foi disparando disparatadas opiniões acerca do sucedido. Sem conclusões nem ladrão à vista, voltámos ainda que receosos, às respectivas casas, não fosse o ladrão estar lá metido. Corajosamente cada um recolheu ao seu castelo!
Pensativa, a minha almofada rogava a Deus, para me manter viva, e questionava-se acerca do perigo em que esta zona, de facto se tem vindo a tornar. As histórias desta Luanda que está a Sul das patrulhas da polícia e a leste do alcatrão, sendo apenas um lugar comum nesta nossa cidade da Kianda.Já a meio do segundo sonho da noite, a história repete-se, desta vez apenas com o grito de socorro para o Manuel, que não necessitou ser bravamente despertado. Todos, novamente à rua, que desassossego, pensei eu. Já me estava a chatear aquele ladrão!
Em vão saímos à rua, pois nem rastos do dito ladrão. Confesso: ainda aconteceu uma terceira vez, não conto os detalhes para não aborrecer. Dizem que à terceira é de vez, mas neste caso foi apenas às 5 horas da manhã, quando o guarda do vizinho, se queixou ao patrão, que tinha um magote de gente em frente à porta a quererem falar com ele.
O meu vizinho, esqueci-me de o apresentar, é cantor e já habituado a estas lides, terá estranhado serem quizás fãs, aquelas horas vespertinas. Dirige-se, então, ao portão amarelo, da sua casa amarela e não vê viv’alma! Apenas o cambutinha, de olhos rasgados tipo chinês, com um olhar vagaroso por rostos que só ele mesmo via.
Surpreso, pergunta ao guarda cambuta onde estavam as pessoas. O guarda cambuta, pergunta-lhe se não as vê! Andando de um lado para o outro já desesperado este guarda de olhos rasgados tipo chinês, questiona o patrão, se não vê a velha em cima da areia, a falar com ele!! O vizinho cantor já desconfiado, recorda um tempo em que conheceu, há escassos meses atrás, uma mãe desperada tal como tantas outras, que não tinha quem levasse a filha enlouquecida, para a clínica. Mãe, que não acredita em feitiços, mas que ainda assim não entendia quem lhe queria tomar a filha. Mas que felizmente e atempadamente se lhe descobriu uma malária cerebral, quem sabe se não fosse esse conhecimento, talvez, o vizinho cantor tivesse dificuldades em entender o guarda cambuta. Talvez se não fosse conhecedor da vida, talvez, o tivesse julgado feiticeiro e agora, o nosso cambutinha malanjino estivesse num qualquer cemitério, por o terem confundido com um fantasioso feiticeiro.
Felizmente já está medicado e em breve voltará ao trabalho. Mas quantos guardas, lavadeiras, raboteiros, mães, filhas, pais desesperados e outros estarão perdidos numa qualquer cidade de Angola com uma malária silenciosa que vem sem aviso. Menos ainda informação, de que não é feitiço e sim apenas, uma doença ceifeira que, se confundida com feitiço, nos entrega de facto, ao feitiço que é a morte.

Inês Ferreira

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