Publicado por: Filomena Barata | Março 10, 2011

Namoro, Viriato da Cruz

Mulher bonita, Fotografia de António Rodrigues

Publicado por José Borralho no Facebook

NAMORO

«Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorriso luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
Sua pele macia – era sumaúma…
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e doce – como o maboque…

Seus seios, laranjas – laranjas do Lage
seus dentes… – marfim…

Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
«Por ti sofre o meu coração».
Num canto – SIM, noutro canto – NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou.

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro…
E ela disse que não.

Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizese um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu…
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficámos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos…
falei-lhe de amor… e ela disse que não.

Andei barbado, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
«-Não viu… (ai, não viu…? não viu Benjamim?»
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário.
Tocaram uma rumba – dancei com ela
e num passo maluco voámos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: «Aí, Benjamim!»
Olhei-a nos olhos – sorriu para mim
pedi-lhe um beijo – e ela disse que sim».

http://ahref=
http://www.youtube.com/watch?v=0bakjzhUqfAhttp://ahref=

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Responses

  1. Este poema de Viriato da Cruz, um dos mais belos poemas de amor de sempre, abriu-me os olhos (ainda mais) para uma poesia que eu não conhecia: a poesia angolana.Na altura, era adolescente, naturalmente curiosa e, rapidamente, descobri outros poetas.
    Pediram-me, há pouco, via FB, que nas minhas aulas, fizesse uma leitura de poesia angolana, aderi de imediato e este será o poema que darei a ler aos meus alunos. Daqui a dias darei conta do modo como decorreu essa leitura.
    Ainda não pensei como farei a leitura do poema, há tantas belas interpretações!
    Até breve


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