Publicado por: Filomena Barata | Novembro 5, 2010

De Eva a Roma: O Papel das Divindades femininas em Roma, Filomena Barata

Ofereci este texto a uma grande amiga minha, Cristina Duarte, no dia dos seus anos, bem como ao seu extraordinário blogue  «Cidade das Mulheres» um texto sobre o papel das mulheres e das sacerdotisas na difusão da ideologia imperial romana e antes dela na República que a precedeu.
Para ti e todas as mulheres da minha vida e para este Grupo aqui o retomo.

Eva só conheço três: a do “Paraíso Perdido” e do “Pecado Original” ; uma Eva Bruno de que tanto gosto e uma Eva Cantarella que se dedica ao estudo da Mulher Romana.

Talvez por esta última ser também Eva, e talvez por eu tango gostar da Civilização romana, resolvi não me centrar exclusivamente na Eva do Éden e do Génesis, e pensar também um pouco na mitologia do que genericamente se designa como “Antiguidade Clássica”. No universo feminino e sua representação, segundo o que nos é dado conhecer pelos escritos que dessa época existem.
Na Grécia Antiga, racionalizada, apenas duas mulheres, Circe e Medeia, têm poderes mágicos ou sobrenaturais que espelham, de algum modo, a memória de um mundo ancestral e arcaico, onde o Homem era ainda dominado por medos do desconhecido (quem sabe se a Eva das Sagradas Escrituras não seria também uma “maga” dotada de conhecimentos sobre a árvore do “bem” e do “mal” e sobre as poções que dela poderia extrair, de que a maçã é apenas a metáfora …).

As narrativas mitológicas centradas em mulheres (como nos homens aliás) são, portanto, veículos de interpretação de um universo que se pretende descritível, narrável e, deste modo, enquadrados numa “religião racional”.

Entre os Titãs, ou “deuses primitivos” encontra-se Mnemosine, que significa “Memória”. Mnemosine era filha de Geia (que personifica a terra em formação, gerada do nada, mãe e esposa de Úrano, com o qual constitui o primeiro casal divino) e mãe das nove Musas. Entre os “deuses supremos” do Olimpo temos a possessiva e ardilosa Hera, a poderosa Atena, a caprichosa Afrodite, a protectora Artemisa e a discreta Héstia. Estas personagens femininas, ao contrário da Eva bíblica, desempenham um papel fundamental na trama que se constrói entre as entidades divinas e entre estas e os Humanos.
No entanto, podemos rembrar tantas outras que desempenharam um papel cruxial na mitologia e na própria literatura, A tradição clássica consagrou para a posteridade uma extensa galeria de figuras femininas. Notáveis pela auréola mítica (…),essas mulheres tiveram seus nomes transformados em símbolos, em estereótipos
dos quais a arte, nas suas diversas formas de expressão, em todos os tempos
posteriores, apropriou-se, tornando-os patrimônio comum da humanidade”, referindo, a título de exemplo, Afrodite, Andrômaca, esposa de Heitor, Andrômeda, Antígona, Ariadne, Ártemis, Atenas, Aurora; as Bacantes; as Camenas, Calíope, Calipso, Cibele, Cíntia,Circe, Clio, Dafne, Deméter, Dido, a épica e trágica personagem que Virgílio imortalizou na Eneida , a amante apaixonada de Eneias que vítima da urdidura de Vénus e Juno, divindades cujo ciúme e vaidade tecem o enredo da sua paixão, Diana; Electra, Eurídice, Europa; Fedra, as Fúrias, Górgona; Harmonia, as Harpias, Helena, Hera; Ifigênia, Io; Jocasta, Juno; Leda, Medeia, Medusa,Melpômene, as Mênades, Minerva, Moira, as Musas; as Nereidas, as Ninfas; as Parcas, Partênope, Pasífae, Penélope, Perséfone, Pirra, Políxena,Prosérpina; Quimera. Adap. a partir de REPRESENTAÇÕES DA MULHER NA POESIA LATINA, Aécio Flávio de Carvalho* http://www.olhodagua.ibilce.unesp.br).

O estatuto de Eva é, contudo, mais ambíguo, pois a sua persongem não tem contornos definidos na narrativa bíblica. Nascida (como, aliás, algumas divindades da mitologia greco-romana) do corpo de um homem que, apesar de ter podido presenciar o divino antes do “Pecado Original”, não o é, Eva é apenas a “Mulher”. Sendo num primeiro momento agente  é ela que provoca com a sua curiosidade o “Pecado Original” e rapidamente se transforma num ser cuja função exclusiva é procriar, sendo que essa função é ela própria um estigma, pois um dos castigos que lhe é infringido é “a dor da gravidez”. Torna-se também num mero objecto da dominação masculina, pois o anátema que sobre ela caiu foi proferido pela voz divina, que lhe é alheia e superior: “terás desejo ardente de teu esposo, e ele te dominará”.

Ao contrário, na mitologia greco-romana as divindades femininas são bem mais afirmativas, agentes ou adjuvantes em todo o enredo das(es)/histórias que se geram em seu torno: Hera, filha dos Titãs Oceano e Tétis, é o centro de uma trama onde o ciúme e a vingança obtida com uma ira implacável chegam a perturbar o próprio “deus dos deuses”.
No entanto, pese embora a sua personalidade, ou por isso mesmo, ela é também a protectora das casadas ou das parturientes, tendo gerado Ilitia, que acabará por zelar por estas últimas.
Atena, a virgem, que não foi gerada por uma mulher, porque brotou da cabeça de Zeus, é também feroz. Protectora da agricultura e das actividades artesanais, esta deusa tudo fará, contudo, para salvar a “Cidade”, mesmo que seja através da guerra. A deusa do Amor e da Beleza  Afrodite  é, por sua vez, capaz de todos seduzir, deuses ou mortais.
Estas divindades, embora todas filhas, irmãs ou amantes de Zeus, desempenham, não obstante, papéis diferenciados, autónomos, interferindo em quase todos os aspectos da vida, tal como acontece com as “deusas menores”. Apesar dessa filiação/irmandade mimetizar, de certa forma, a situação bíblica, pois também Eva nasce da costela de Adão e dele se tornar concubina, não haver ter qualquer equivalência no que diz respeito ao protagonimo assumido pelas personagens.

De salientar, contudo, que o papel desempenhado pelos seres femininos na mitologia grega se contrapõe, de algum modo, à condição a que é remetida efectivamente a mulher. Já em Roma, que adoptou e adaptou os deuses gregos, a situação da mulher não tem um aspecto tão intimista. Embora submetidas ao poder patriarcal (do omnipotente paterfamilias ou seu sucedâneo – o marido ou o sogro de que poderia tornar-se “filha” através do matrimónio – , as mulheres romanas assumem um desempenho que poderemos considerar mais extrovertido, mais visível ou mesmo extravagante, como acontecia com algumas, normalmente priveligiadas.

As mulheres romanas quer as divinas, quer as humanas, participam, portanto, de uma sorte onde se envolvem, desde um primeiro momento, os dois sexos, na igualdade possível…

Eva, essa, participará apenas do devir solitário a que quiseram condenar, no mundo judaico-cristão, até praticamente os nossos dias, a Mulher

Vénus é a “mãe” de uma linhagem, que, por via feminina, justifica o poder divinizado de Augusto.
Será, doravante, a deusa Venus Genitrix que , com Marte Ultor, acompanhará o poder imperial, proclamando a sua imortalidade.
E a Lívia, esposa de Augusto, associaram-se Juno, Vénus, Ceres, Vesta ou a divindade de origem frígia Cibeles.

E as sacerdotizas nada mais fazem, após a aceitação do poder divino do imperador/imperatriz, do que sedimentar a ideologia centralizada, de quem são defensoras e garantes.

Mas antes desse poder, o do Império nascente e pujante, já as mulheres tinham, em Roma, entre as divindades, o seu pleno lugar.

Em Roma, cada homem tinha o seu Génio e cada mulher a sua Juno.
Os prórios imperadores e os deuses tinham o seu Génio, acompanhantes da sorte e do infortúnio.

Em casa, onde imperava o Pater Familias, pontuavam os Lares e os Penates, enquanto as mulheres seguravam arduamente as chaves das portas que, com libações, libertavam do que fosse negativo ou intrusivamente mau.

De algum modo,´essa realção no interior da casa permite que «A noção romana da integridade moral da mulher desenvolveu-se em função da noção da propriedade pessoal, e a castidade feminina (implícita na virtude matronal) tornou-se parte integrante da posse de um bem fisíco; a expropriação passiva ou activa do próprio corpo era, como toda a expropriação, idêntica, portanto, à decadência moral e material, à humilhação irremediável …» (Klossowsky), acabando por viabilizar a centralização do poder, que, aparentemente disseminado/descentralizado nos nossos dias, acaba, por ainda replicar a herança da Roma primordial.

(Na Igreja e no Estado discute-se ainda se será possível existir um estar e um poder e que não passe pela apropriação de bens, de ideias e de pessoas nos moldes que Roma criou: punitiva para quem acredite que é possível estar de outra forma).

Nas virtudes particulares espelha-se também o lugar que o Universo Feminino consegue ter entre as divindades romanas, em virtudes como Pax, Fides, Victoria, Libertas, Virtus, Pietas., que se constituem garantes de um mundo sedimentado em valores em que o religioso nunca se separa da guerra, do poder, ou do amor.

E Fortuna, a quem foram dedicados vários templos e altares, adorada sob vários epítetos, não deixará de ser a deusa da felicidade, do acaso feliz.

E ainda há, entre os deuses maiores, a cruel, rancorosa e ciumenta Hera de que acima já falámos, esposa de Zeus, curiosamente a única divindade casada do Olimpo com esse Deus pai dos deuses, mas sempre infiel. Como não o consegue enfrentar, vinga-se nos filhos que Zeus teve das mortais Io e Europa. Apesar dos atributos reais, o ceptro e o diadema e a cabeça coberta de véus, símbolo do casamento, Hera nunca foi mais do que a esposa de Zeus, não se tendo constituído nunca como “rainha dos deuses e dos homens”.

Transmutando-se e transmutando os outros, Hera será também a matriz do pensamento feminino ocidental, pois como nunca conseguiu derrotar o pai dos deuses, acabará por exercer noutras mulheres, noutras entidades divinas, a sua perfídia e a sua vingança.

Ou então falar dessa divindade Prosérpina, como Claudiano a descreve:

«Prosérpina, por seu lado, encantado a casa com doce cantar, tecia, em vão, um presente para o regresso da sua mãe. Neste pano lavrava com a agulha a série dos elementos e o trono paterno, bordava com que regra a mãe natureza ordenou a antiga confusão e como os elementos e como os elementos se dispuseram nos lugares próprios: o que é leve para o alto é conduzido, no meio caem as coisas mais pesadas, tornou-se o ar incandescente, o fogo ergueu-se para o céu, ondeou o mar, ficou suspensa a Terra. E não havia apenas uma cor: com ouro iluminou as estrelas, derramou as águas com púrpura. Com pedras reciosas ergue um litoral, fios em relevo dão engenhosamente forma a fingidas ondas (…)
Acrescentou três regiões: com um fio escarlate assinalou a zona pelo calor atingida (…) De ambos os lados desta colocou as duas regiões habitáveis (…) Ao alto e ao fundo colocou as duas zonas entorpecidas (…)
Representa também o santuário de Dite, seu tio, e os Manes para si fatais. Não faltou o presságio: de facto, como que adivinhando o futuro, molharam-se-lhe as faces com um súbito pranto».
 

O Rapto de Prosérpina, Claudiano

Vale a pena ler : «La religiosidad de las Sacerdotisas de la Betica», in Congresso Peninsular de Historia Antiga, 1993, Faculdade de Letras de Coimbra.
Origens Cultuais e Míticas de um Certo Comportamento Romano, Pierre Klossowsky

(Falando nisso Cris, estou ainda em falta com o prometido texto da Salomé pedindo a cabeça de S. João).

Sei que voltarei,de novo, a Roma.

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Responses

  1. >A Cidade das Mulheres agradece do coração todo o carinho e gentileza que lhe é dedicado nas Mulheres ao Luar. Viva o património (dos afectos e das dedicações, sem os quais os sítios não podem viver).Cristina L. Duarte


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