Publicado por: Filomena Barata | Novembro 2, 2010

Filomena Barata, Alentejo, era uma vez um lugar (reeditado a partir de Mulheres ao Luar)

Alentejo: fotografias de Filomena Barata


Não sei se é deste Alentejo de que ouvi falar no fim de semana passado, porque estva longe o Sado lhe alaga as margens, fazendo adocicar as memórias, pois as terras ribeirinhas ou as palustres são férteis na produção mas não na recordação …

Com elas se coadunam melhor os campos de sequeiro, as poucas sombras onde se abrigam contos e se escondem alegorias por baixo de cada pedra, de cada oliveira.

No entanto, esse Alentejo está ainda presente, como um pano de fundo, nos lugares que visitei.
Porque há viagens que, depois de empreendidas, não têm retorno, e nunca se dão por terminadas!

Há apenas que dar aos caminhos que vamos percorrer uma força redobrada pelo que entretanto fomos capazes de aprender. E iniciar nova peregrinação!

Ciente que o que perdura, o que vale, um dia se reencontrará.
E o que tem que morrer, morrerá.

A ti, o homem deste Luar, de novo.

CONTO DE INVERNO (Porque o Outono está no ar)

Era uma vez um lugar. Cheio de sol de espaço, onde perduram ainda oliveiras em alguns dos seus lugares e semeadas houve, em tempos, searas trigueiras.
Isto nas planuras, porque esse espaço era tão, tão grande que nele também havia lugares cheios de esteva, infestando hectares e hectares, e outros, onde o montado teimava em sobreviver, abrigando as “zorras” quando anoitece, e onde escavam tocas os coelhos bravios, e sobrevoam as sobranceiras águias ao alvorecer.

Só que uma vez, nesse lugar habitualmente raiado de um Sol que quase tudo queima, o céu resolveu esconder-se e, durante dias e dias a fio, molhar searas, estevas, montados e arrozais, uniformizando tudo com uma luz cinzenta no céu e tudo tapando com uma lamacenta superfície na terra.
Os tímidos ribeiros transformaram-se, de repente, em tumultosos rios e os açudes e barragens, usualmente brandos, espumaram uma água torrencial que arrastou para as suas margens barrentas tudo o que nas águas havia a boiar.
E, de repente, o frio foi tanto tanto que até, em alguns locais, a chuva se transformou em neve e cobriu o resto dos campos e os lugares sagrados.

Esse lugar, habitado por um povo de tez morena, onde se cruzaram romanos, mouros e ciganos, estranhou tais fenómenos da natureza, pensando mesmo que, desta feita, os deuses os haviam definitivamente abandonado.
Os poucos habitantes que já o ocupavam chegaram mesmo a julgar que era um convite dos céus ao abandono definitivo do seu lugar.
Só alguns deles teimaram em ficar.


Entre eles, um, provavelmente de remota origem cigana, notória, quer na tez, quer na altivez do porte e das atitudes, bastanto a cicatriz entre os olhos para confirmar a sua natureza, resolveu empreender uma viagem, porque era a única forma de um dia poder voltar.
Esse habitante sabia que, para apaziguar os deuses, havia que visitar os lugares sagrados que, antes dele, as divindades haviam semeado nos inacessíveis sítios do seu território. E, tal nómada de sangue, decidiu percorrer esses sítios, enfrentando chuvas e torrentes.

Um a um, visitou-os. E em cada um deles homenageou a divindade, quer fosse uma força anímica, as forças que protegiam os mortos num abrigo rupestre, o orago de uma anta outrora cristianizada, Vénus e Marte num templo romano qualquer, ou numa ermida dedicada a S. Torpes, na Senhora da Boa Nova ou às águas da antiga represa Romana agora cristianizada que em Cuba se pode encontrar.



Contudo, o tal habitante de origem cigana não foi só. Ele sabia bem que para apaziguar a natureza e as divindades precisava da companhia de uma mulher.
Poderia ter escolhido uma da sua raça. Teria sido quase natural fazê-lo. Mas não. Levou consigo alguém que o ajudasse a descobrir outros tantos sítios sagrados que para ele eram desconhecidos. Porque, face a tanta calamidade, a viagem tinha que ser longa e muito prolongada.
Atravessaram caminhos e estradas, algumas vezes quase foram levados pelas enchentes. Espreitaram amontoados de pedras, onde abrigados haviam dormido deuses e descansado homens. Em alguns deles jaziam mesmo mortos milenares.Viram casas onde o abandono dava lugar às almas penadas.

E espreitaram também santuários muito antigos e outros mais recentes dentro dos quais ainda suavam velas que os orantes haviam deixado ficar.

Viram castelos encantados ou talvez de encantar. Alguns falavam de grandes tranças femininas a aguardar o resgate, prisioneiras que o tempo transformou em deusas solitárias, ou moiras enfeitiçadas que, de noite, escondiam tesouros e segredavam murmúrios.

Chegaram mesmo a visitar o mar também revolto. E aí vergaram-se perante forças tão antigas como a própria terra.
E em todos os sítios deixaram oferendas. Em todos eles oraram de acordo com o que um sabia e cria, pedindo que o Céu voltasse a sossegar.

E um dia, depois desse longo, muito longo, périplo, o Sol voltou a raiar forte e cheio de luz.
O homem e a mulher cantaram e dançaram juntos em honra dele e ficaram acordados um dia inteiro, até o verem, de novo, nascer.
Depois despediram-se. Porque a viagem tinha que terminar. Dela ficou o Sol e este conto que é a melhor forma de sonhar.

Cientes que, um dia, o périplo poderia recomeçar, pois novas fúrias divinas haveria que apaziguar.
Desde aí estão o homem e a mulher estão distantes: cada um partiu para seu lugar, mas sempre juntos pelas palavras que juraram um dia de que se voltariam a encontrar, logo que houvesse necessidade de nova viagem empreender.

Porque há viagens eternas e, como tal, nunca terminarão, como este conto que jamais findará.

Fotografias
Cromeleque dos Almendres: António Carlos Silva
Gruta do Escoural e Castelo de Belver: Manuel Ribeiro
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Responses

  1. >Bebi o vinho e a chuva. Perdi os olhos de luz cegante. Ouvi o cantar antigo. Cheiro um cheiro de amêndoa e oliva. O conto ainda agora de ontem. Aprendi sobre os vestígios sobrepostos. Num círculo que se abriu para o bravo mar alentejano: nada mais quero que sair pela planura da existência, rio em mar confundido.Grata pelo teu trabalho. De tocar esta sinfonia que os meus ouvidos souberam.Bjinho

  2. >Relembrei-me deste texto por causa do comentário da Bettips.Reli os anteriores comentários, e só me ocorre perguntar-te, cigano, de que paixão falas afinal?A que escondes entre as nuvens ou entre as tuas mãos?

  3. >Onde param as tuas «Paragens», cigano? Onde vão dar?

  4. >dele a paixão eterna…….


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