Publicado por: Filomena Barata | Outubro 28, 2010

>S. Vicente e O Promontorium Sacrum (reed.)

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Retábulo S. Vicente, Museu Nacional de Arte Antiga

Estranha-se a pedra porque está ali onde a olhamos e ela vê-nos à sua maneira com indiferença máxima pelo nosso olhar. Andamos-lhe em volta e não a ignoramos nem a conhecemos nem a podemos domesticar: só podemos admirá-la. Virá-la para dentro. Para o tempo. Que ela mostra. É um relógio de um ponteiro que marca os séculos se os contarmos e tudo o que neles acontece. Um soldado morto vive numa pedra e só nasce debaixo do travesseiro. É um sonho de pedra pequena e muita guerra vista em volta. Com muito tempo. Ninguém as retirava do seu moledro lá por Sagres.

Álvaro Lapa, Impressões da Lusitânia

Cit. in M.F.B. “O Promontório Sacrum e o Algarve entre os Escritores da Antiguidade”, Algarve: Noventa Séculos entre a Serra e o Mar.

Refira-se que este texto foi elaborado a partir de artigo com o mesmo nome, publicado na obra que tive o gosto de coordenar, acima mencionada, se bem que numa versão mais sintética com algumas alterações.

Estrabão, no século I a. C., e Avieno, no século IV d.C., descrevem-nos pormenorizadamente a área compreendida entre o Estreito de Gibraltar e o Cabo de S. Vicente, esse lugar mágico onde o corpo do Santo que lhe conferiu o nome deu à costa, fazendo uma viagem mítica de Oriente, de Valência, para Ocidente.

Esse Santo a quem Lisboa dedicou, mais tarde, a sua primeira Igreja cristianizada e que, porque para aí foi levado em barcaça conduzida por dois corvos, essas aves com capacidade de dar e retirar a visão, a luz, viu neles o símbolo que havia de guardar para a cidade.

Do Cabo a Lisboa empreendeu assim nova caminhada, como a que eu hoje me dispus a fazer.

Na descrição de Avieno, na sua Ora Marítima, diz-se do Cabo de S. Vicente que “Então, lá onde declina a luz sideral, emerge altaneiro o Cabo Cinético, ponto extremo da rica Europa, e entra pelas águas salgadas do Oceano povoado de monstros”, sabendo-se que foi dedicado um templo a Saturno no Promontorium Sacrum.

O lugar que, em período pré-romano, já era sacralizado, devendo ter-se tornado santuário dedicado ao deus de origem púnica Baal Hammon, associado por fenómeno de sincretismo religioso ao Saturno dos Latinos, é referido por Estrabão como um local onde “não é permitido oferecer sacrifícios nem aí pernoitar. Os que o vão visitar pernoitam numa aldeia próxima, e depois, de dia, entram ali levando água, já que o local não o tem”.

Aí, desde a Pré-História, se poderão ter desenrolado rituais religiosos que Estrabão descreve da seguinte forma: (há) ” pedras organizadas em grupos de três ou quatro, as quais, segundo um antigo costume, são viradas ao contrário pelos que visitam o local e depois de oferecida uma libação são recolocadas na sua posição anterior”.

A impressão que o local deve ter causado é de tal forma que se dizia entre alguns autores da Antiguidade, como Posidónio, que o Sol aqui aumentava com o Ocaso, pondo-se com ruído, como que a extinguir-se entre as águas do Oceano.

No Promontorium, no Promontório Sagrado, fiz, de novo, com a luz a banhar as mãos, as minhas preces e orações e assim iniciei a jornada …

ET: Se não puder ir ao Promontorium Sacrum e estiver em Lisboa, vá à Igreja de S. Vicente ou então vá ao Museu Nacional de Arte Antiga ver o Retábulo.

Fot.: Câmara Municipal de Lisboa

Ou espreite os corvos que trouxeram o Santo, o S. Vicente, pois vão semeando ainda de Luz as ruas da cidade que os mantém orgulhosamente ao dobrar de tantas esquinas.

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