Publicado por: Filomena Barata | Setembro 18, 2009

Filomena Barata, Alvalade do Sado: o meu testemunho (reed.)

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Cantem moças, cantem moças
Nesta linda sociedade
Qu’é para quem passar dizer
Viva as moças d’Alvalade

Após uma viagem sem atribulações, cheguei um dia a Alvalade (do Sado), em 1990, depois de ter tido conhecimento que aí tinha sido colocada na condição de estagiária, na Escola C+S, curiosamente no dia da inauguração de uma pequena exposição interpretativa que nos havíamos proposto fazer na Capela de S. Brás, em Miróbriga.
Já havia estado em Alvalade, durante as campanhas de trabalhos preparatórios a essa exposição, e, confesso, pouco me haver entusiasmado a vila, pelo que jamais me ocorreria aí vir a viver, pois a um estágio tinha apenas concorrido para o concelho de Santiago do Cacém, pela proximidade das ruínas de Miróbriga.

Lembro-me de ter chegado a Alvalade de comboio apanhado no Barreiro, após travessia do Tejo, tendo por companhia, para o mergulhar da noite, já em pleno Alentejo, o meu leitor de cassetes com headphones.
Para trás ficavam os amigos e familiares que, em fins de tarde domingueiros, a casa iam recolher.
Mas, não ficavam só os amigos, os hábitos, as minhas “geografias afectivas”, mas também o trabalho que gostava de fazer, porque a outra tarefa havia que me dedicar, pois não podia correr o risco de perder o vínculo à Educação de onde me encontrava afastada por destacamento.

Recordo as primeiras chuvas do Outono, sair num apeadeiro mal iluminado; parar e recomeçar de novo a caminhar com os sacos de viagem na mão, num percurso onde apenas pontuava a luz da fábrica de descasque de arroz e, alguns dias, confesso-o, quase nem sabia se o que me corria no rosto eram lágrimas ou as bátegas que mo fustigavam.
Julgo ter sentido na pele, nos primeiros tempos, a sensação que deve ter tido o Padre Jorge Oliveira, quando para Alvalade foi morar, pois para mim representou, nessa fase inicial, como que um sítio de “degredo”, onde apesar de já não grassar o paludismo, ainda se podiam refugiar mal amados (ou mal “comportados”) da antiga corte ou da urbe actual.
E assim assentou arraiais em Alvalade uma urbana convicta, pese as inúmeras e cíclicas incursões de trabalho no Alentejo, mas que apenas duravam temporadas.
Lembro-me depois que poisava sacos e malas em casa, já noite feita nas ruas do aglomerado.
E, por chegar a horas tardias, quantas vezes imaginava poder comer num sítio qualquer. Mas em vão procurava um restaurante. Apenas uma pequena tasca, nas imediações de minha casa, vendia umas bifanas para quem chegava a desoras.
Lembro-me ainda da sensação de lá entrar … era a única mulher!
Homens, apenas vultos de homens apinhando o espaço, olhares intrigados por ver entrar aquele ser estranho, ainda por cima mulher.
Recordo esse frio, a somar ao frio de ter conseguido ali finalmente chegar. Mas nunca desisti de lá ir. Sempre que me apeteceu, ou a necessidade o exigia.
Como não desisti de conhecer o sítio onde estava e que, devagar, devagar, me foi dando a conhecer os segredos que o Sado construiu ao longo dos séculos, nem de olhar com atenção os telhados cobertos de gelo com que acordava nas manhãs de Inverno.

Hoje aqui, reencontro outro sítio e encontro os amigos que me ajudaram a conhecer um outro local, tão diferente se demonstrou do das primeiras impressões.

Mas, para que assim fosse, houve que desbravar o tempo e o espaço naquele sítio, em seu redor.
Houve que marcar as horas, cerrando as portas a tudo o que fosse desperdício de tempo, pois havia um estágio a fazer; um trabalho a desenvolver e um Clube Europeu de Arqueologia para implementar na escola, para que não se esbatesse da memória dos alunos a memória do seu lugar.
Aí colectámos peças arqueológicas de vários lugares: da casa do Povo que, de boa fé, os cedeu; de particulares e outros, avulsos, encontrados em visitas efectuadas a sítios deixados ao abandono.
Aí catalogámos e marcámos pequeninas peças, tentando ensinar e aprender que cada uma delas tem uma história para contar.
Aí organizámos conferências, falando de Egípcios, de Romanos e da Conquista Cristã.

Em Alvalade descobri que a ponte não era senão a passagem para outros lugares. E reforcei a ideia que resistir, continuar é o sítio de quem não quer parar.

E, porque a vida se encarrega de tudo nos fazer reencontrar: as coisas e as pessoas que aprendemos a amar, abrindo e fechando círculos, melhor, abrindo-se em espiral com os anos carregados do que nos fiz viver e aprender, só posso manifestar aqui e agora a minha alegria ao saber que a história do Sado e do território que ele banhou de uma forma mais aprofundada irá ser contada, em Setembro, na Misericórdia de Alvalade.
À Mariana.
Ao José Matias, à Fernanda Vale; ao Gentil Cesário; ao Rui Fragoso, meus colegas de mais esta “jornada”.
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