Publicado por: Filomena Barata | Setembro 8, 2009

Filomena Barata: As minhas geografias afectivas: o Palácio da Ajuda, Lisboa

Do Alto da Ajuda. Fotografia Filomena Barata


Para lá caminhava eu, pela primeira vez em trabalho, em 1987, quando ainda o Departamento de Arqueologia funcionava nos Jerónimos.
Ao Palácio, onde se sediavam mais arquitectos do que historiadores ou arqueólogos, ia-se a “despacho” ou a uma qualquer reunião.
Sempre com a sensação de que o “poder” residia ali.
Repentinamente a “Arqueologia” mudou-se, e aproximou-se também mais desse espaço de decisão, sem que tivesse conseguido ainda “ombrear” com os seus pares arquitectos ou engenheiros.
Em 1998, fui nomeada, mediante concurso, para exercer funções em Évora. Afastei-me do Palácio nove anos, regressando-lhe de vez em vez, para as reuniões do Conselho Consultivo do IPPAR e para os habituais despachos, pois Lisboa dera algumas competências às Direcções Regionais, mas não as suficientes para se autonomizarem. Mas regressava-lhe sempre como se conhecesse a casa, pois nela já “residira”, trabalhando.
Hoje daqui desta janela onde se espreita o Tejo, contígua à que foi minha quando aqui comecei a trabalhar ainda no Departamento de Arqueologia, há mais de 20 anos, sintetizo o vivido aqui e o ali, para Além do Tejo, no Alentejo que jamais esquecerei.

Arrumando todos os dias um pouco de mim, enquanto me dedico a trabalhar …

http://mirobrigaeoalentejo.blogspot.com/




E a corte acampou no “barracão da Ajuda” … quando Lisboa estava engolida pelo mar; fendida a terra, a cidade … não pôde mais … e mudou de lugar.
Lá em cima, alcantilada, nasceu a urbs do poder que, já decandente, mesmo assim, teimava em criar o seu novo lugar.

Lá em baixo, na cidade devastada, pontuava o Marquês de Pombal, Sebastião de nome, que, inteligente e perspicaz, ditava a nova cidade das Luzes, debaixo dos seus caracóis … (escamoteando assim a dôr de não pertencer a essa corte secular, mas a uma pequena nobreza sem direito por nascença aos “manás” reais).

Mas dele, das suas mãos e determinação, nasceu a Lisboa rejuvenescida … e de saber … de «Luzes» enriquecida, enquanto, lá em cima, cresceu o palácio dos reis, da nobreza cortesã, numa cidade outra, encimesmada e servil…, mas, ainda assim, remoçada pela adversidade que adveio da terra tremer sob os pés reais e, com esse fenómeno sobrenatural, uma onda enorme tudo poder engolir …

O Palácio da Ajuda, ainda hoje curvado sobre si mesmo, tem, contudo, a capacidade de nos fazer sentir no nosso lugar …. mesmo que, por companhia, apenas tenhamos a corte a resistir!!!.

Porque a cada esquina, … em cada uma das reminiscências dos seus roubados tapetes, em todas as arquitecturas efémeras que aí ainda se instalam, ou nos corredores de liós … o Palácio continua a fazer parte dos meus lugares.

Antigo Palácio Real, é hoje em grande parte um magnífico Museu, estando instalados no restante edifício a Biblioteca da Ajuda, o Ministério da Cultura, e vários Institutos desse Ministério.

Edifício neoclássico da primeira metade do séc. XIX, sob traçado de Francisco Xavier Fabri e José da Costa Silva, foi residência oficial da família real portuguesa, desde o reinado de D. Luís I (1861-1889) até 1910, ano da proclamação da República, quando foi encerrado.

 

Passou a funcionar como museu em 1968, podendo-se reviver ambientes oitocentistas e visitar importantes colecções de artes decorativas dos séculos XVIII e XIX: dos têxteis ao mobiliário passando pela ourivesaria, e cerâmica, bem como de pintura, escultura e fotografia.

O Palácio da Ajuda é ainda utilizado pela Presidência da República que aqui realiza algumas das mais importantes cerimónias de Estado.

E, ao fim da tarde, coando-se quase já a luz, dê um passeio pelos jardins que envolvem o Palácio e espreite o Tejo entre o casario da Ajuda.


Responses

  1. >Cá está a cidade que te fará feliz. Vejo-te mais clara, no teu blogue. Que bom espreitar-te assim.


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