Publicado por: Filomena Barata | Julho 15, 2009

>Marinheiro, Fernando Pessoa (reed.)

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( A Noite, diria eu …)

Primeira (irmã) – (…) Breve raiará o dia e arrepender-nos-emos … Com a luz os sonhos adormecem … O passado não é senão um sonho … De resto, nem sei o que não é um sonho … Se olho para o presente com muita atenção, parece-me que ele já passou …
O que é qualquer cousa? Como é que ela passa? … Ah, falemos, minhas irmãs, falemos todas juntas … O silêncio começa a tomar corpo, começa a ser cousa … Sinto-o envolver-me como uma névoa … Ah, falai, falai!…

Segunda – As mãos não são verdadeiras nem reais … São mistérios que habitam na nossa vida … às vezes, quando fito as minhas mãos, tenho medo de Deus … Não há vento que mova as chamas das velas, e olhai, elas movem-se … Para onde se inclinam elas? … Que pena se alguém pudesse responder! … Sinto-me desejosa de ouvir músicas bárbaras que devem estar tocando em palácios de outros continentes … É sempre longe da minha alma … talvez porque, quando criança, corri atrás das ondas à beira-mar. Levei a vida pela mão entre rochedos, maré-baixa, quando o mar parece ter cruzado as mãos sobre o peito e ter adormecido como uma estátua de anjo que nunca mais ninguém olhasse …

Marinheiro, Fernando Pessoa

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