Publicado por: Filomena Barata | Março 27, 2009

>Herberto Helder, Poesia Toda (reed.)

>Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão.
nelas – envoltas pela sua roseira em brasa –
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.

E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres toram feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma terra exaltada.

(…)
Ao longo de sons sempre passram
mulheres apaixonadas,
separando os pés sobre frígidas gotas.
Mulheres partindo, cchegandovoltando
o corpo na luz suspensa
e inteligente. Mulheres cheias de uma
atenta suspeita.
Vergadas para o fundo de uma existência
dura e pura.

Cidades que se envolvem de ecos e em cuja
solidão extraordinária
as mulheres batem seus dedos cândidos.
Sua sinistra fantasia.
Tiradas dos limbos segundo um ardente
princípio de ilusão. Amadas por Deus e entrando
na corrupção de Deus.
(…)

Herberto Helder, “Lugar”, in Poesia Toda

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Responses

  1. >Mulheres temiveis também por cobiça e abnegação total, tal como a grande Teodora de Bizâncio que argumentara com o Justiniano, no auge da rebelião(Nikka), indicando-lhe que ficaria porque ” a pùrpura era a mais encantadora das mortalhas”!


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