Publicado por: Filomena Barata | Dezembro 20, 2008

Filomena Barata, O Promontorium Sacrum e o Algarve entre os escritores da Antiguidade (reed 23.10.08)

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À Bettips as força das minhas pedras.
Ao PP pelo livro do Alentejo a fazer.
À minha filha, sempre.

Talvez porque ontem, ao passear por Lisboa com a minha filha, me tenha lembrado dos corvos da cidade, e do Santo, Vicente, que deu à costa no sudoeste e que, depois trazido para a capital, vem sagrar Lisboa, decidi-me a procurar velharias escritas há mais de dez anos (in Algarve: Noventa Séculos entre a Serra e o Mar, IPPAR.

Recordei o Promontorium Sacrum, esse lugar onde, desde tempos imemoriais, se sacralizavam pedras, se temia o pôr do Sol, porque se dizia que fazia um rugido ao “deitar-se” no Oceano, esse outro desconhecido, pois não era já o Mare Nostrum.

Assim, porque a conferência que vai ter lugar no Porto sobre a Romanização me lembrou também outros périplos, no encalço de um Algarve muito antigo, cá vai a síntese do texto:

Desconhecendo-se se efectivamente se tratava do cabo de S. Vicente ou de uma área compreendida entre o Cabo de Sagres e o Cabo de S. Vicente, é um facto que esta área foi descrita desde a Antiguidade.

Uma das primeiras referências ao promontório é a de Avieno, que na “Ora Marítima”, escrita no século IV d.C., mas baseada num périplo comercial massaliota do século VI a.C. com acrescentos gregos e latinos, a ele se refere como o Cabo Cinético: «Então, lá onde declina a luz sideral, emerge altaneiro o cabo Cinético, ponto extremo da rica Europa, e entra pelas águas salgadas do Oceano povoado de monstros» (vv. 201-205)». Avieno refere ainda que o promontório era dedicado a Saturno e «que assusta pelos seus rochedos».

O Promontório Sacro deveria tratar-se, em período pré-romano e romano, de um santuário ao ar livre dedicado ao deus púnico Baal Hammon, associado por um fenómeno de sincretismo ao Saturno dos latinos, pois o geógrafo Estrabão nega, no século I, a existência de qualquer templo dedicado a Hércules ou a qualquer outro deus no local. Este autor descreve-o como o ponto mais ocidental da Ibéria: «Este é o ponto mais ocidental não só da Europa, mas também de toda a oikouméne» (Estr. III, 1, 4) onde «Não é permitido oferecer sacrifícios nem aí pernoitar pois dizem que os deuses o ocupam àquelas horas. Os que o vão visitar pernoitam numa aldeia próxima, e depois, de dia, entram ali levando água, já que o lugar não o tem» (Estr. III, 1, 4) e acrescenta Estrabão que, segundo tradições populares, neste local o Sol aumenta no Ocaso, pondo-se com ruído, como que a extinguir-se entre as águas do Oceano (Estr. III, 1, 5).

O Ocidente, para lá das Colunas de Hércules era, pois conotado com o mundo lunar, infernal e da morte o «Mundo das Trevas» como que a entrada num mundo fantástico e mítico, povoado de monstros e onde a natureza é inóspita, onde Saturno impera.

Quer se tratasse de um santuário dedicado a Baal Hammon/Saturno ou a Melkart/Hércules, como alguns autores defendem é, contudo, evidente a identificação deste local com entidades sagradas de clara conotação marítima.

O promontório foi desde sempre lugar de peregrinação, tendo, em período de dominação islâmica, acolhido peregrinos cristãos e muçulmanos que lhe chamavam Chakrach .

Plínio, no século I d.C., na sua NATURALIS HISTORIA, distingue dois cabos: o Cabo Cúneo e o Cabo Sacro que situa entre os lusitani, ocupando uma área compreendida entre as desembocaduras do Tejo e do Guadiana (Plínio, IV, 116). No entanto, o texto é mais clarificador quando os relaciona com cidades junto a rios ou a outros acidentes naturais, o que permite considerar seguramente o Sacrum Promontorium na costa algarvia ao nomear, de Norte para Sul: Olisipo, Salacia, Merobrica, o Sacrum Promonturium, o promontório Cúneo, e os oppida Ossonoba, Balsa e Myrtils (Plínio, 116).

Faltam as belas fotografias do Álvaro Rosendo, caminhante que foi comigo: eu de caderno e caneta da mão e ele de máquina que tudo registou. Apenas aqui está a sua miniatura.

A segunda fotografia é de Wikipédia.

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Responses

  1. >Caminhante e vidaDe promontórios.Bjinhos, melhoras tuas.


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