Publicado por: Filomena Barata | Maio 23, 2012

Alimentos do Alto Hama, Alípio Mendes

Publicado por: Filomena Barata | Maio 11, 2012

Isa Pontes , Descobrindo

DESCOBRINDO
 
Peguei no livro “ Chão de Kanâmbua “ e parei. Já ia a bem mais de metade do volume, mas era imperioso perceber o que se estava a passar na minha mente; saber a causa de tanta interrogação, justificar tanta agonia.

Não era a primeira vez que me acontecia ficar assim, um pouco tonta, na procura de causas para tal efeito. Por vezes sentia sensações semelhantes ao passar sob as minhas laranjeiras em flor, ou perto do jasmim frente à entrada da casa, todo ele um esplendor de brancura. Ficava como que levitando num êxtase interno, que disfarçava, na esperança de ser só meu e não parecer tonteira quando houvesse gente por perto. Até as glicínias que rebentaram agora, num grito de lilás, por esses muros fora, vieram transtornar-me os olhos e a alma. Quase me apetece dizer: o desassossego de Março. E, por ser Março, a inquietação aumentou e fez-me parar a meio do livro.

Penso que, finalmente, descobri: são os livros!

Fotografia Filomena Barata

Pequenina, agarrava-me aos livros da Condessa de Ségur – “A Pousada do Anjo da Guarda” e aos de Jules de Peyrrany – “Dois Corações Generosos” e este último até me tocava mais, já que uma das personagens principais tinha o meu nome.

Depois, jovem, procurava os livros da colecção azul e li “John, o Chofer Russo“ e “A Cabana do Pai Tomás“ de Harriet B. Stowe. Aí encarnava as personagens que iam aparecendo, imaginando fazer, finalmente, justiça, defendendo os humilhados.

Mais tarde, mulher feita, abracei “Teresa Batista Cansada de Guerra“ e “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, deixando-me embalar e viver a sensualidade daquelas mulheres tão bem imaginadas pelo baiano Jorge Amado, abençoado pelo Senhor do Bonfim e por todos os Orixás.

Naveguei, e muito, pela vida de José Mauro de Vasconcelos, de quem tenho todos os livros, e aprendi com ele a ver anjos passarem junto a mim em momentos muito especiais, bem como a arte de falar com lagartixas.

Há poucos anos enveredei por outras vidas, na fome de saber, beber, mais. Assim, parti com Kapuscinski nas suas “Andanças com Heródoto”, o que foi para mim, como já alguém disse, um regalo para a alma.

Depois de acompanhar a sábia espera de Garcia Marques em “O amor nos tempos de cólera”, ainda parei por Ortega y Gasset para tentar descobrir se a circunstância que me tem rodeado ao longo dos anos me tem formado e moldado na mulher que sou hoje.

Foi quando resolvi partir em grandes viagens. Assim, acompanhei a fantástica Cristina Morató nas suas “Memórias de África” e fiquei a conhecer a vivência africana nos finais do séc. XIX e princípio do séc. XX; tomei gosto pelo prazer da aventura que envolveu as vidas de Karen Blixen, Delia Akeley, Livingstone e Sir Francis Burton, todos seres únicos.

A seguir, e para tratar os meus desvarios, entreguei-me a Eça, o meu Eça de Queiroz. Subi, lentamente, toda aquela serra até chegar a Tormes, deliciando-me com o mais belo livro escrito na nossa língua: “A Cidade e as Serras”. Aí, aprendi o segredo da transformação de um homem quando tem a sorte de possuir um bocado de terra, de chão. Talvez tenha sido nesta viagem que comecei a procurar os cheiros que chegam com a Primavera.

Fotografia Jorge Peres

Agora, ando em novos achados. Parto quase sempre para África, lá é o meu refúgio. Pego n’ “A Verdadeira Estória de Domingos Xavier“ de Luandino; n’ “Os Predadores” de Pepetela; n’ “A Estação das Chuvas“ de Águalusa, e devoro as páginas de Julião Quintinha, notável jornalista português que veio mostrar-nos África, quando em Portugal esse era um tema para aventureiros.

Neste momento olho a capa de “Chão de Kanâmbua“, de Tomás Lima Coelho; sentada sob a oliveira velhinha sinto-me a viajar naquele comboio, abarcando todo o espaço de capim rasteiro onde, aqui e ali, surgem um imbondeiro ou catedrais de salalé. Parece-me que volto à minha terra… ao meu chão… Malanje.

Fotografia Filomena Barata

 

Talvez tenha descoberto, talvez… Toda esta emoção que me envolve ao entrar nos livros deverá ser… será?… o meu crescimento como mulher, como pessoa; sou eu a formar-me ao longo dos anos; a fazer descobertas nos meus encontros; sou eu a aprender com quem já viveu muito; sou eu a despir disfarces preferindo ser transparente; a constatar o peso do poder, mas também a força inabalável da verdade; sou eu, sempre, a querer chegar mais além.

E porque tocam as ave-marias numa capelinha perdida lá ao longe, entre as faldas das montanhas, desperto.

Feita a descoberta que me apazigua o corpo e me lava a alma, volto ao comboio que vai a caminho de Malanje.

Isa Pontes

Friande – 23.4.2012

 
 
Publicado por: Filomena Barata | Maio 3, 2012

Os Palancas Negras – Questões linguísticas

Boa tarde família AEPPEA:
Dúvida: tratando-se da selecção nacional de Angola de futebol, relativamente ao nome do animal “PALANCA” com que foi apelidada, é correcto dizer-se:
Os Palancas negras ou as Palancas negras????
  • Olga Sofia gosta disto.
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      Ana PortugalO artigo é que nos diz o género e o número do substântivo, portanto, deve dizer-se: Os…. se for masculino.

       
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      Olga Sofiae mas nada!!
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    •  Gaspar Antonio Brandao Obrigado Ana Portugal. Sim, em Masculino. Mas não importa se o animal é do género feminino???
      É que alguem lançou um livro sobre algumas frases e palvras mal expressas, onde fazia menção desta, em que a forma correcta de se dizer seria “as Palancas Negras” e não os “Palancas Negras”. Pode???
    •  i
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      Olga SofiaHummm eu acho que não pode, pq por exemplo: se eu quiser perguntar onde fica a tua casa à alguém diria: sabes onde fica a casa do Gaspar? e não onde fica o casa do gaspar…bem na minha humilde opinião, deve ser isso hahahaha tbem n sei mt bem.
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      Gaspar Antonio BrandaoQueria dizer, se expressa no genero feminino
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      Ana PortugalEmilia Nave, podes dar aqui uma ajuda?
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    •  Gaspar Antonio BrandaoOlga, a ideia é exactamente esta mana!!
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      Tomás Gavino CoelhoEsperemos por um(a) professor(a) de português para explicar devidamente. Entretanto digo que me parece correcto dizer “os”, porque se refere a uma equipa masculina. Se fosse uma equipa feminina já se diria “as”. Penso eu.
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      Alipio MendesEnquanto selecção Masculina penso que deverá ser OS se for uma equipe Feminina será AS.

       
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      Tomás Gavino CoelhoPorque, verdadeiramente, palanca é de género único: dizemos palanca macho e palanca fêmea, certo?
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      Olga Sofiahahahaha Santo Sr. Camões hahahaha a língua portuguesa é mesmo complicada, só não falo da matemática pq n me recordo mais do pai dela hahahahaha bjnhos a todos.
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      Emilia NaveNa base do epíteto dado à seleção angolana — palanca negra – está um nome que dispõe de um único valor de género, qualquer que seja o sexo da entidade referida. Referindo nós um grupo de jogadores do sexo masculino, poderá ser considerado natural que a apropriação metafórica do nome palanca seja antecedida do artigo definido os para marcar o género dos jogadores da equipa. Nesse sentido, temos também «o pantera negra», referente à antiga estrela do futebol português Eusébio, em vez de «a pantera negra». Contudo, podemos esbarrar em exemplos nos quais não há concordância entre o artigo e o referente da metáfora: «Rommel, a raposa do deserto» (e não «o raposa»), ou «as águias», como referência ao clube português Benfica… Assim, o género, entendido como marca linguística, é uma categoria formal, gramatical, não devendo, à partida, ser confundido com diferenciação em termos de identidade masculina/ feminina. Talvez por isso, por haver um uso metafórico dos nomes epicenos, parece haver uma certa veleidade no uso do artigo, conforme se quer ou não salientar o género do referente metafórico externo a que o nome se refere.
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      Tomás Gavino Coelho E, conforme pedido da Ana Portugal, cá está a explicação devida! Obrigado sôpessôra!
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      Emilia Nave Boa tarde,Ana! Boa tarde família AEPPEA! :)

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      Olga SofiaBoa tarde Emilia e obrigada!
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      Ana PortugalBeijinhos Emilia. Obrigada.
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      Gaspar Antonio Brandao Não tinha reparado o comentário acima colocado e retirei o meu. peço desculpas. Agradeço muito pelo esclarecimento da Professora Emilia Nave e todos os participantes, em especial a Ana Portugal que deu o pontapé de saída e direccionou o assunto. “APRENDI”.
      Entre amigos haviamos ficado quase 3 horas a discutir mas sem chegarmos a acordo nenhum. Resolvemos investigar. Foi neste sentido que resolvi trazer a questão a esta assembleia virtual.
      Errando e aprendendo, é assim a vida.
      Obrigado!!!!!
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      José Carlos MoutinhoA Emília sabe….É setôra…..Beijinho minha amiga.
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    • Filomena Barata Só agora pude ver todos os comentários. Obrigada Gaspar Antonio Brandaopor teres colocado a questão e por te ver de novo no Grupo, pois já sentia a tua falta. Por ser tão interessante a discussão, vou levá-la para o nosso blogue.

       
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Publicado por: Filomena Barata | Maio 1, 2012

Almoço Angola em Portugal; Portugal em Angola

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  • Quem somos? Muitos, poucos? Alguns …
  • Os suficientes para atravessar o mar, trazendo na mão as palavras com que nos entendemos 
  • Espera-nos o Tejo, ou a praia de Porto Amboim, quem sabe, mais acima, uma baía em Luanda, onde tudo pode acontecer
  • pouco sabemos, mesmo nada, mas queremos juntos cruzar o Atlântico
  • Estamos juntos, mesmo quando não nos podemos encontrar 
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      • Vanessa Nunes Maria o nosso cantinho
      • Filomena BarataAlipio Mendes, vá lá, quero uma frase para o nosso blogue que descreva o almoço, onde tive tanta pena de não poder estar. Tinha voado se pudesse, acreditem.
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            Vanessa Nunes Marianao te preocupes chegara o dia de juntarmos os dois paises

            há 3 minutos ·Não gostoGosto · 1
          • Francisco Caldeira O sol a dar-me mesmo no coco
          • Filomena BarataVanessa Nunes Maria, os Céus te oiçam, que as lágrimas comovidas de vos ver sejam a água que fará brotar essa flor ( e acredita que me vieram mesmo aos olhos, não tenho vergonha de o dizer).

            É mentira dizer que as Mulheres com sonhos não choram. Choram, sim, até de alegria.

            • Vanessa Nunes Mariaja me ouvirar e podes crer que um dia vais chorar mais vai ser é de alegria

              ·
            • Filomena Barata Um abraço do tamanho do nosso Atlântico! Afinal de lágrimas também se faz o mar e ele é tão grande que cabemos lá todos nós e o sonho que nos faz estar aqui (ficou mais cheio, é verdade, das que me cairam rosto abaixo, agora, mas não faz mal).
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      • Lindo!!!!! Quem me dera ter estado convosco.
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        Tomás Gavino CoelhoJá somos dois, Filomena… 
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    Almoço no norte…

     
     
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    Almoço no norte….

     
  • Publicado por: Filomena Barata | Março 20, 2012

    Alípio Mendes, É bom voltar …

     
     
    É BOM VOLTARÀ ARAGEM QUENTE NA CARA…
    AO CHEIRO DA TERRA VERMELHA…
    À BRISA DO MAR…

    É BOM VOLTARAO BARULHO DA CIDADE …
    AOS PREGÕES DAS KITANDEIRAS…
    AOS CADONGUEIROS A PASSAR…

    É BOM VOLTAR

    AO MUSSEQUE…
    AOS OLHOS ESCUROS E PELE CASTANHA…
    AO CHEIRO DO CHURRASCO, DA BANANA E DA MAÇAROCA A ASSAR…

    É BOM VOLTAR

    À MOAMBA E AO FUNGE
    AO CARAPAU E AO CACUSSO
    À CUCA A ESTALAR

    É BOM VOLTAR

    À AREIA QUENTE DA PRAIA…
    AO POR DO SOL E AO LUAR…
    À

    Fotografia Filomena Barata

    S AGUAS QUENTES DO MAR…

    É BOM VOLTAR

    Publicado por: Filomena Barata | Março 20, 2012

    Isa Pontes, Dentro dos Livros

    Cachoeira, Sumbe, Angola. Fotografia Filomena Barata

    DENTRO DOS LIVROS

    Queridíssimo Daniel
    Hoje resolvi falar contigo, falar das nossas coisas, das coisas que ambos gostamos. Sabes onde estou e se aí tenho dificuldade em encontrar alguém que me escute, imagina aqui…
    Fui muito bem recebida, à chegada, pelo casal Santos e o calor fez o resto, ou seja, o meu corpo deu sinais de contentamento, fugindo de uma existência reumática, aí em terras do Alto Minho.
    Trouxe comigo três livros: “ O Retorno” de Dulce Maria Cardoso; “A Ilustre Casa de Ramires” de Eça de Queirós e “A Estação das Chuvas” do Águalusa. A Dulce Maria Cardoso surpreendeu-me e conquistou-me, estou rendida ao seu estilo. Ainda não peguei na Estação das Chuvas, será uma releitura. Agora vê lá! Pela primeira vez o Eça cansou-me! Achei o livro pesado e um tanto ou quanto enfadonho, com aquele recorrer constante aos antepassados do século XIII e às suas sucessivas lutas, sempre em defesa do bom nome dos Ramires.
    Nem sei porque te falo disto, tu sabes da minha paixão pelo Eça de Queirós.
    Bem…
    Mas, a minha razão primeira de hoje me ter lembrado de te procurar, vem de outro escritor: Julião Quintinha. Tu também sabes, outra das minhas paixões.
    Deves lembrar-te que este casal amigo esteve na minha casa, em Braga, há uns 4 anos. Na altura e porque tinha dois volumes iguais, dei ao Carlos o livro “África Misteriosa” do Julião Quintinha. Talvez o seu livro mais conhecido; talvez o mais intensamente vivido pelo ilustre jornalista; talvez o que mais me toca, de toda a sua obra.
    Pois bem… Vim encontrá-lo triste. O livro. A capa separada das folhas e, dentro delas, bocados da mesma capa; todo o livro despedaçado. Desconheço a causa de tal maldade.
    Então – já estás a ver-me – dediquei o resto da minha tarde a restaurar aquele pobre relicário de história, descobertas, sonhos, desilusões e esperanças. Tudo saído de uma alma nobre, incansável e que lutou com a sua pena contra gigantescos moinhos de vento, como se fora a lança de D. Quixote!
    Achas que estou a ser lírica? Não. Lembra-te que até a P.I.D.E. lhe fez a vida negra e acredito que, algumas vezes, o “Lápis Azul” deve ter funcionado sobre alguns artigos seus.
    Forrei o livro com uma capa improvisada – nesta casa simples tudo é improvisado – e com um carinho todo festa, comecei a relê-lo.
    Ai meu Amigo… Quem me dera ter-te aqui ao meu lado e poder olhar para ti, enquanto lesses de novo – eu sei que também tu já o leste – este tesouro escrito quase há 1 século!
    Aqui, em África, neste chão que ele pisou e amou durante dois anos seguidos; aqui onde ele alimentou todas as suas mais puras e ingénuas esperanças, lê-lo, ouvi-lo, é diferente. Uma coisa é eu ter lido este livro na nossa Europa fria, civilizada. Outra coisa é eu estar a escutá-lo em África. A África que ele tanto amou.
    Num parágrafo do seu Prólogo, quase no final, diz ele:
    “Mais do que o mistério das selvas, do que o panorama das paisagens exuberantes, do que todos os motivos estéticos da graça e da beleza gentílica, avulta esse humaníssimo problema que a Ciência e a Humanidade deverão resolver”
    E eu olho à minha volta, vezes sem conta – tu bem sabes que é a quinta vez que me desloco a estas paragens – e estremeço…
    Nem os Tecelões de Peito Amarelo, trabalhando incansáveis na construção de seus ninhos (disseram-me hoje que, se o ninho não estiver ao agrado da fêmea, esta desfaz o ninho e ele, pobrezinho, começa tudo de novo) , nem os Rabos-de-Junco, nem as andorinhas que abalaram daí para cá, me acalmam.
    À minha volta os mesmos olhares tristes de sempre, o mesmo arrastar de corpos… Só mudaram os donos.
    Respiro o ar quente adocicado e piso a terra barrenta, outrora olhada por ele e as mesmas inquietações que lhe tiravam o sono, acredita, são as mesmas que me trazem horas de vigília noite após noite.
    A Ciência deu passos de gigante mas o humanismo deu lugar ao egoísmo. E o fosso entre exploradores e explorados é cada vez maior. Mas não se vê, tem uma côr só…
    Desculpa atirar-te o meu desassossego para cima. Deveria apenas falar-te do sol, das frutas e das flores; contar-te as minhas descobertas matinais no meio da bicharada, mas…
    Obrigada por seres o meu eterno “Ouvidor”. Sorte a minha ter-te.
    E, atravessando todo o Continente para o Norte, aí vai o meu abraço, daqui do Sul que é o nosso chão misterioso.

    Raquel

    Publicado por: Filomena Barata | Março 9, 2012

    Isa Pontes, Jingunas

                                                                                                     

    JINGUNAS

    Daniel

    Olha, hoje o dia teve contornos invulgares, mágicos. Por isso corro a contar-te o que aconteceu.

    As jingunas voltaram outra vez, hoje ao fim do dia, quando as rolas deixaram de se lamentar e todos os outros pássaram regressaram aos ninhos; muitos entre a palmeira gigante do jardim e outros dentro da romanzeira frondosa e fresca. Já ontem, à mesma hora me tinham visitado.  Andam loucas as jingunas, de imensas asas transparentes, e muitas veem bater-me no rosto ou pousar-me nos braços. Tem chovido muito e a terra barrenta parece papa e é assim que elas aparecem.

    E também é assim que eu atravesso todo este continente em direção ao norte, para Malanje. Depois de horas de trovoada e chuva intensa eu via formar-se na minha rua – a velhinha Rua Serpa Pinto, já no comecinho da Maxinde -, rasgos de terra vermelha, como se fossem veias de um corpo misteriosamente presente e envolvente… África… Tu sabes…

    Passadas horas, as jingunas chegavam e voavam… voavam… tontas, à volta dos candeeiros da rua. Então, a criançada negra saltava de mãos abertas e comiam-nas ali, assim mesmo, por entre gritos de gozo, como se apanhassem um maná caido do Céu.

    Não adivinhava, não podia, que todo aquele encantamento, toda aquela magia, acontecendo num pedaço da minha rua, haveria de servir, tantos anos depois, como alimento, também, da minha alma solitária aqui ao sul, numa África que já não conheço, que foi desventrada de todos os seus mistérios e que de jingunas já não entende nada…

    Vê lá tu o poder dos pequeninos insetos! Foram eles que vieram animar o meu dia carregado de  desânimo, angústia e saudade, iluminando a minha mente, buscando lá bem no tempo os dias férteis  de uma África que foi minha e que me fez assim numa mulher que, estranhamente se alimenta de jingunas.

    Um beijo

    RAQUEL

    África do Sul, 9.2.2012

    Publicado por: Filomena Barata | Março 7, 2012

    Luísa Monteiro, uma aventura queiroziana

     Uma aventura queiroziana
    Em Frankfurt

    Sofia

    Fiquei de escrever-te aquando da minha estadia em África, o que não consegui. Os dias foram muito agitados e curtos, passaram a correr.
    Para te compensar da minha falta, venho contar-te uma aventura que vivi no aeroporto de Frankfurt. Prepara-te
    Cansada das horas de viagem desde Johannesburg, vi-me a percorrer aquele imenso e infindável aeroporto, na procura da “ Gate” de embarque. Levava pendurada no meu delicado braço ( com os anos, pele e músculo vão esticando e tornam-se finos ) uma maleta com 7 kilos de bugigangas. Patetice! Digo sempre em cada viagem que nunca mais carrego pesos. Mentira. Levo sempre mais.
    Chegada à porta indicada no bilhete, Gate 17, vi-me e mudar de porta 3 vezes. Change diziam os funcionários. Chateadíssima lá entrei na última porta indicada e dirigi-me para a passadeira de inspeção de bagagem. Coloquei a maleta, a carteira e o casaco sobre dois tabuleiros que de imediato deslizaram para o túnel de raio x. Passei para o lado contrário e o funcionário que havia sido alertado para o conteúdo da minha mala, começou ali à frente de todos os passageiros que vinham atrás de mim, a retirar os objetos que lá estavam. Eu, solícita, ofereci-me no meu pobre inglês para o ajudar e ouvi-o dizer – Just let it. Deixei pois. Nisto descobri qual era a razão da sua busca: “ A Ilustre Casa de Ramires”!!
    Eu colocara entre um sutiã e uma lindíssima peça de algodão moçambicano, o meu livro do Eça de Queiroz. A capa dura do livro com esplêndidas letras desenhadas, conferia-lhe uma imagem à altura do seu título: uma coisa nobre e ilustre.
    O funcionário agarrou no livro, deu-lhe uma volta e chamou uma colega. Esta agarrou no livro, olhou para mim e disparou – Follow me.
    Eu, que primo pela credulidade, cheguei-me a ela e disse, ajeitando o meu melhor inglês que me saía todo ao contrário, ridículo – Lady this is big, BIG, BIG!!! E com o dedo em riste apontava o nome do nosso Eça.
    Valha-me Deus – pensava – não me sai uma palavra direitinha e a tipa pensa que eu roubei o livro!
    E continuava – I have ten books like thes in my house!
    Mas a germanófila continuava de livro na mão e – Follow me.
    Eis que chegámos junto a um terceiro funcionário que avançou para nós de aparelho na mão e o fez deslizar por todo o livro, por fora e por dentro.
    Foi aí que eu vi os ilustres cavaleiros, condes e barões, habitantes da bela Torre dos Ramires, virados de cabeça para baixo, abanados, sacudidos ao sabor do técnico alemão, perito em descobrir criminosos onde era suposto ver-se uma inocente senhora de olhar sonhador. E nem a minha longa experiência profissional, quase sempre ligada ao crime me alertou para o insólito da situação. Tudo me parecia pura rotina para cumprir serviço. Nada disso.
    Então oiço dizer – Ok, you’re dismissed.
    Incrédula, afinal, virei-me e levei sob o braço esquerdo, o meu companheiro de tantas horas, o meu Eça.
    E só depois, muitas horas depois, eu descobri que a minha pequena figura frágil, de olhos azuis, emoldurados por uns cabelos de prata, lhes terá feito imaginar que eu seria um disfarce perfeito para traficar droga e que esta estaria escondida, disfarçada, num livro de capa e lombada dura, todo enfeitado com letras em relevo, apregoando um nome desconhecido, talvez inventado por uma portuguesinha de meia tigela.
    Decididamente não gosto daquela gente,
    Agora, passados estes dias, julgo ter valido a pena ter vivido este episódio grotesco. É que irei sentir-te a rir E…tenho de aprender uns palavrões em inglês e talvez em alemão
    Também para, em casos semelhantes, não ficar engasgada e fazer figura de parva.

    Beijos queridíssima e até um dia destes.

    Raquel

    http://ahref=

     

    José Jacinto

    Filomena, Tomás, Lito, antes de mais um abraço grande.
    Aí está, o Diamante feito de palavras. Preciosas na pergunta, sem preço na resposta. Conversa boa, pura, calma, verdadeira. Informação valiosa, serena, sossegada, validada. História se…ntada junto de um Presente aprendiz. Sempre.
    A paz pousou na Geografia. Os lugares estão ali no fim da frase, perto da emoção de quem a completou e fez malanjino estar cada vez mais orgulhoso de si. Naturalidade de quem é naturalmente malanjino, sem precisar de mostrar certidão de nascimento. É mais importante o registo do Amor que têm a essa Terra.A diáspora espalha a Terra pelo planeta.
    Bem hajam pela plantação.E antes de mais, um grande abraço.
    Publicado por: Filomena Barata | Fevereiro 12, 2012

    José Jacinto, Lisboa

    Fotografia.Filomena-Barata

    Imagem 

     
     
    José Jacinto
    LISBOA

    Lisboa já tanto te cantaram
    Desde Olipso que te conheceram
    os romanos que em ti acamparam
    E os Mouros e Cruzados que por ti combateram.

    Lisboa do Fado, onde as misturas
    Dos cheiros da pimenta e da canela,
    No passado te elevaran às alturas
    Desde que deste à Luz a primeira caravela

    E hoje tens marcadas nas tuas colinas
    As proas das naus que a ti aportaram
    Olhas o Tejo, teu menino traquinas
    Nas margens de quem tantos olhos choraram

    E sempre estiveste à frente
    qual candeia que alumia duas vezes
    Ainda és iluminas todas estas gentes
    Que foram e são por dentro portugueses

    Os últimos voltaram em 75, Retornados,
    Espoliados, chegaram de Ponte aérea,
    Desenraizados, mas por ti foram abraçados
    E em troca tiraram-te essa cara séria.

    Teus bairros históricos mantêm a fama
    Das fadistagens e fidalguias de outrora
    Na monarquia e na república és soberana
    Neste reino que só dá comendas agora

    Mas, serena olhas com naturalidade
    Todas estas constantes evoluções
    És a fonte de Camões e da Portugalidade
    Cuja água fez crescer tantas nações

    E ainda agora não há quem te resista
    Atrais o Leste e a Terra Africana
    A América também está na tua lista
    Misturas Volga, Danúbio, Magrebe, Ganges, Savana.

    Hoje és a mulher que eu desejo
    Quando atravesso a ponte de Abril
    Em Alcântara dás-me o primeiro Beijo
    E à esquerda, ao longe acena o Estoril.

    Depois, Janelas Verdes, Santos, Marginal
    Cais do Sodré, Tejo e Eléctricos
    Modernos, diferentes, no circuito habitual
    Onde viajam menos optimistas mas mais cépticos

    Terreiro do Paço, ou Praça do Comércio
    Onde em Dezembro plantam uma árvore de natal
    Que dizem ser a maior da Europa, e onde ouço
    Música equatoriana, a par dum rancho nacional.

    Baixa de Prata, banhada a Ouro
    Encostada à Rua da Madalena
    Já foste do negócio o tesouro
    Hoje a Rua Augusta está mais serena!

    24 de Julho, Docas, Jovens, música, aventura
    que te devolveram de novo o teu rio
    que te pega e a braça pela cintura
    e dança contigo a Chula no Rossio

    Martim Moniz, Reis, Praça da Figueira
    Com som e comércio afro-asiático,
    Onde se ouve quase só língua estrangeira
    E o colorido das vestes é fantástico.

    E tens à chegada e à partida
    A estação azul de Sta. Apolónia
    Pensão dos sem-abrigo, vida sofrida
    E onde o taxista faz render a insónia.

    E passeias sedutora na Liberdade
    Pazendo ciúmes ao teu Marquês
    Cujo leão de avançada idade
    Guarda a Rotunda e o Parque do Inglês

    Picoas, República, Saldanha, Campo Pequeno
    Av. Do Roma, Areeiro, Loja do Chinês
    No Semáforo pede esmola um romeno
    E quem te arruma os carros é português.

    Mas uma lágrima deixas cair de repente
    Quando ao pé dos teus Anjos vês
    A desgraça em que caiu o teu Itendente
    Com prostituição e a droga que o desfez.

    E entristeces-te com a toxicodependência
    Que grassa nalguns dos teus bairros e ruas
    E porque nas Discos, as portadas batem com violência
    Em quem quer entrar e dançar depois das duas

    mas voltas-te e sorris toda vaidosa
    com a beleza da tua parte oriental
    Recordas a EXPO que te tornou famosa
    E te deu fama passageira e mundial.

    Gosto de ti ao sábado e ao Domingo
    Quando é mais fácil passar a Portagem
    Até o Tejo, em baixo, fica mais lindo
    E vou aos museus e à Torre de Menagem.

    Tens Sinagoga Terreiro e Mesquita
    Igreja e Templo Hindu e Budista
    Para todos Eles és bendita
    E esta é a tua maior conquista.

    E tens tantas belezas naturais
    Em Monsanto a apodrecer
    Mas não me apetece esvrever mais
    O melhor é virem-te conhecer e ver.

    É rima pobre mas não me importo
    De a utilizar se me emociono
    O que mesmo não suporto
    É a escrita rica que leva ao sono

    José jacinto

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